Que te quero bola

 

Em Luanda, tudo é exagero.
Tudo cheira muito bem ou cheira muito mal. Ou apenas cheira, muito. Um cheiro sem qualificação, forte, denso.
O escritório do director recende ao perfume extravagante dele, intenso, que colore o ambiente de cor de rosa, como a de sua camisa de manga comprida elegante, e com listas azuis-claras, azuis-escuras e rosa, como a de sua gravata. Um aroma que me enraivece, não sei bem por quê. Pelo visto, a intolerância me é também cara, é muito minha.
Tudo é muito pobre ou tudo é muito rico em Luanda. Não tem ponderação. Pelo vidro fechado do automóvel, observo as mulheres e jovens que atravessam a rua, andam à esquerda e direita do carro com galões alarajanados de água sobre a cabeça, que foram buscar, pagando por ele, mais ali, mais lá. Essa mulher leva o bebê amarrado às costas, e o galão alaranjado na mão. Não têm água nem luz, nem saúde, os pobres de Luanda.
As moscas se enfurecem sobre os restos no chão. São muitas. Adivinho o fartum, através do vidro fechado. Uma velha mulher remexe o lixo. Um fedor muito leve se aproxima, hum, logo passa. A miséria fica, quando o carro avança, lentamente, pela rua engarrafada.
Quem tem quase o suficiente para viver, ou lhe sobra muito (geralmente de postos médios ou elevados no governo do MPLA, Movimento Popular de Libertação de Angola, força única política), logo adquire um carro grande e importado. Pago à vista, ou presenteado por companheiros de poder, não há crédito em Angola. Na maioria das vezes não têm garagem para guardá-los, a casa é feia, pequena e precária, os autos ficam pelas ruas, mesmo. O status que o carrão lhe dá, tanto cá como lá.
Luanda entristece. Talvez seja eu o homem triste, e não ela, de nome tão bonito. Pode ser. Talvez seja eu mesmo que não possa me serenar. Pode ser. Pode ser que seja eu que me sinta diferente, distante, e me distancie, sem perceber. Impossibilidade de mirar no espelho que se oferece, ainda que baço, no homem ou na mulher que assoma embora não me fite nos olhos. Pode ser. Pode ser que o exagerado erro seja meu, mesmo. E que os conflitos tão evidentes, tão às claras, em Luanda, sejam os meus, mesmos, exagerados, enormes. Pode ser.
Agora, outra vez, a promessa de que a paixão pela bola possa nos unir, ou reunir, “estamos juntos”, o mote publicitário do Torneio de África das Nações, o maior e mais importante do “continente-berço”. Será daqui, outra vez, que partiremos feito homem? Que renasceremos mais perfeitos e esféricos, bola no relvado verde, sem impedimento e sem árbitro, exceto o do coração apaixonado? Tomara.
Acredito na força da bola, foi sempre minha fé e paixão maior; pela qual fiz de tudo e pela qual morreria, se necessário. Foi ela, prenhe de sonhos de redes, que me ensinou que não faria nada sozinho no mundo, a tabelinha; que me revelou a magia inexplicável e inextricável da vida, divina; que havia o outro diferente de mim mas próximo e que ele sofria. O ensino da tolerância descalça, de meiões baixos, sem caneleiras. Devo tudo ao futebol.
Concentro-me, espero, trabalho com afinco, peço proteção e inspiração. Mal posso esperar pelo apito, pela relva que trescala verdemente.
Perdão pelas minhas faltas e mentiras murchas, para o jogo deslanchar.

7 comentários para “Que te quero bola”

  1. Bárbara Kacá

    Esta é minha primeira passagem por aqui e gostaria de comentar sobre o que senti ao ler este texto.

    Não faço idéia de quem seja você Guilherme, nem posso imaginar os conflitos por que passam a sua alma, mas de uma coisa estou certa, muitos de nós queríamos viver a experiência impagável que você vai viver fazendo parte da história.

    Ter os olhos do mundo voltados para a África, mesmo que sejam olhos de festa que veem apenas o lado belo e colorido, é uma oportunidade ímpar. Tenho visto as propagandas com mulheres envolvidas em tecidos e cores que nem lembrava que existiam, com homens de musculatura exuberante e sorrisos rasgados. Todas as imagens que chegam me aguçam o interesse em conhecer a pátria de todos nós. Sei tão pouco sobre ela e tenho tão pouco tempo para dedicar a estudá-la! Mas os flashes talvez possam contribuir para a revelação de um povo que nos inspira admiração, amor, medo e compaixão.

    Obrigada por me lembrar através de seus olhos investigadores e palavras tão profundas que um novo mundo há de se descortinar em minha TV.

    Um abraço.

  2. Guilherme

    Guilherme

    Obrigado!
    Meus grandes amigos,

    É muito bom sentir o carinho de vocês. Obrigado de coração por tudo, as palavras de vocês fazem a gente continuar, podem acreditar.

    Beijo e abraço em todos,

    Gui

  3. João Daniel

    Estamos com você
    Fala meu amigo,

    Estou torcendo muito por você…

    Grande abraço,

  4. Alexandre Azevedo

    Aproveite o momento
    Filhão,

    Você tem uma ótima oportunidade em mãos e tem que saber aproveitar da melhor forma possível.

    O segredo agora é extrair o melhor que você puder desta incrível experiência.

    Rala que rola meu brother!

    Um grande beijo

  5. rodrigo

    força sempre
    jogamos todos, os quase-humanos, no mesmo time, guilherme.

  6. Capitão

    Capitão

    Sem grilos nem gafanhotos
    Bem vindo à África, Gui!
    Não se preocupe que vc sabe, quando a bola rola, tudo rola.

    Abraço e boa sorte!

  7. Andréa

    Não se entristeça, que você tem muito talento e vai fazer um lindo trabalho por aí.
    Estamos todos te esperando aqui, na maior torcida.
    Bola pra frente!

    Beijos,
    Te amo.

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