Quem deu o sangue pelo país

 

 

Betinho,

 

O ano de 1997 marca seu desaparecimento físico e a certeza de que você injetou nas veias de cada brasileiro um espírito solidário e uma reflexão ética sobre o convívio social.

 

Bem sabe o porquê das palavras e de mais uma correspondência. O mano Henfil completaria 70 anos de idade e por aqui muitos revisitam sua obra, suas personagens e muitos riem com seu sorriso e muitos repensam o Brasil, os rumos dos que bradaram muito por liberdade e democracia.

 

Sei que os três (Betinho, Chico Mário e Henfil) estão na casa de Dona Maria e comem os biscoitos de farinha de trigo, olhando-se mutuamente sem exílios, sem rumores de torturas e torturadores, sem a dor que os homens insistem em provocar uns aos outros.

 

Avise o Henfil que o Fradim (vivíssimo) pretende rezar uma missa na Igreja de Nossa Senhora da Candelária – não só para lembrá-los, mas principalmente rememorar os oito jovens que foram executados e anonimamente deram também o sangue pelo país.

 

Repercutiram o caso em julho de 2013 os jornais e já são mais de 20 anos de impunidade – duas décadas morosas, a justiça parece falha porque tarda demais.

 

Sei que os manos espiam da varanda as passeatas, o descontentamento da sociedade com os corruptores e os corruptos – dos que estão construindo estádios e pensam que a felicidade pertence somente a eles, que a paixão pelo futebol (se é que existe alguma) pertence a eles.

 

A impressão que fica é de que a qualquer momento (se o negócio não for vantajoso) alguém do governo enfia a bola debaixo do braço e diz que a Copa do Mundo acabou.

 

A verdade é que os estádios estão muito bonitos, mas os hospitais públicos continuam ao deus-dará – o salário dos médicos é ridículo e a tentativa de trazer profissionais médicos de Cuba deixa dúvidas no ar. Se o salário é de R$ 10.000,00 e os médicos cubanos estão recebendo menos de R$ 1.000,00 – o restante fica com quem?

 

O olhar dispensado à saúde no Brasil continua insuficiente e os discursos já não conseguem maquiar a realidade, o descaso, o abandono, as feridas abertas pela falta de caráter, honradez, ética e humanidade de uma classe política (em sua imensa maioria) feita de homens e mulheres que jamais deram uma gota de sangue pela população.

 

E a educação? Sei que vocês estão assustados, como a maioria das pessoas preocupadas, com o que é ou não transmitido às futuras gerações. Que brasileiros queremos formar? Que espécie de ser vivo dispara e mata pessoas com fogos de artifício?

 

Talvez uma investigação sociológica mais profunda dê conta de explicar tamanha brutalidade e estupidez. Talvez os adoradores de Hitler – que andam a assassinar pessoas (por causa de outra opção sexual) nas ruas de São Paulo – consigam explicar, com sua intolerância e completa falta de amor, o motivo da matança.

 

Por estas e outras avise o Henfil (sei que ele tem acompanhado) sobre algumas pessoas que estiveram junto dele no palanque em favor das Diretas-já, o movimento civil de reivindicação por eleições presidenciais diretas, em 1983 e 1984, e hoje estão sendo investigadas por irregularidades referentes à reforma de trens em São Paulo.

 

Você, que esteve no exílio e foi privado da liberdade de viver em seu país e depois viu abreviada sua vida, sabe do mal causado pelas pessoas que buscam o poder (as chaves dos cofres da União, dos estados e municípios) a qualquer custo.

 

Então ficamos aqui a lembrar de vocês (Dona Maria, Chico Mário e Henfil) cada vez que a gente fala e é decente, cada vez que a gente pensa e faz algo de bom ao próximo, cada vez que a gente divide o biscoito de farinha de trigo como você fez.

 

Diga ao Henfil que o Papa tem o sorriso do Fradim. Rê, rê, rê…

 

Jornalirista

 


*No último dia 5 de fevereiro, o cartunista Henfil completaria 70 anos. Ele morreu no dia 4 de janeiro de 1988, no Rio de Janeiro, em decorrência de complicações da aids, contraída durante transfusão de sangue. Henfil era hemofílico.

 

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