Raízes da Violência: As cegueiras todas

 

“Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso.” São as palavras de José Saramago ao se referir à obra Ensaio sobre a Cegueira. Ainda em seu romance é uma luz que provoca a escuridão – é o acender de uma lâmpada invisível que apaga a visão e ilumina sentimentos que estavam na penumbra.

Mas será o medo o causador de nossa cegueira coletiva? Há mistérios demais entre o Céu e a Terra, diz a frase desgastada; entre eles, o fato de o homem ser nocivo a ele mesmo – entre eles, a certeza de que é capaz de torturar e matar quem se colocar à sua frente em forma de “inimigo”.

Não há olhar que dê conta de vencer as moléstias e a fome interminável de parte do continente africano – não há lágrimas que detenham as bocas ocupadas em devorar tortilhas de lama no Haiti. Não há quem fique alheio ao morticínio ocorrido em Realengo.

E qual será a visão de um professor sobre a violência – já tão corriqueira nas escolas da periferia? Talvez ele entenda que a escola pública não esteja preparada para atender aos anseios do poder público.

É relevante e humana a intenção dos governos estadual e municipal de São Paulo – quando “incluem” os alunos com necessidades especiais em ambiente escolar. Não há como contestar a importância da socialização, do convívio com a diferença e o afloramento de algo imprescindível: a tolerância.

Falhas e mudanças

Mas existem falhas: o poder público não preparou os professores – não dialogou com as universidades de forma a criar cursos voltados à formação de profissionais capazes de trabalhar com alunos portadores de necessidades especiais.

Além da formação, é necessário considerar também os aspectos arquitetônicos, ou seja, as escolas (boa parte delas) não estão preparadas fisicamente para receber alunos cadeirantes ou com deficiência visual. Será falta de visão – dos governantes – ou má vontade? Dizem que o poder provoca uma gananciosa cegueira.

A educação (em seu sentido universal) preconiza o surgimento de um indivíduo pleno – capaz de exercer sua cidadania, de ampliar seus conhecimentos e principalmente de dar vazão ao seu lado humano. Infelizmente a sociedade (e a escola faz parte dela) não tem alcançado êxito (por miopia ou incúria) no que diz respeito ao indivíduo pleno.

As sociedades mudam e as escolas deveriam acompanhar as mudanças. Um professor de Língua Portuguesa, ou de qualquer outra disciplina, não dá conta de atender alunos com problemas psicológicos, familiares e entorpecidos pelas drogas. Um novo quadro de profissionais (psicólogos, médicos, assistentes sociais) deve ser incorporado ao cotidiano das escolas públicas.

Na EMEF Tenente Alípio Andrada Serpa – localizada no Butantã, região oeste de São Paulo – existe um projeto batizado de “Qualidade de Vida” – que tem como meta uma orientação lúdica sobre diversas questões ligadas ao desenvolvimento físico e psicológico dos alunos do 9º ano.

Em 2010, os profissionais de educação reuniram-se com os profissionais da saúde (Unidade de Saúde do Jardim Bataglia) e articularam estratégias e metodologias para repassar aos alunos a importância de atitudes positivas, ou seja, cuidados com a alimentação, higiene, sexualidade e o modo como lidam com a diferença.

Em andamento este ano, o projeto tem promovido encontros (nas salas de aula) e, após uma dinâmica com a professora de Ciências, uma psicóloga e uma assistente social, acontece um debate com os alunos e surgem respostas à pergunta feita: “O que vocês levariam da Terra para iniciar a vida em outro planeta?”. De forma descontraída e preocupante, os alunos revelaram o desejo de levar para outro mundo “drogas”, “armas” e também escolas, professores e família.

Nas paredes das salas foram afixados pequenos cartazes com frases muito próximas das questões abordadas: “Ficar ou Namorar?”. Embora esteja em fase embrionária, o projeto é pelo menos um movimento para superar a inércia e promover a conversa franca sobre temas presentes na rotina das escolas.

Poesia para viver

Na mesma unidade escolar há um projeto, implantado em 2010 (ano de lançamento de uma antologia poética), que visa despertar nos alunos o gosto pela poesia. A oficina “Sopa de Letrinhas” está em sua segunda edição e tem feito “provocações” para que os alunos escrevam a vida em forma de versos.

No momento dedicam estrofes, rimas e sentimentos para falar com os colegas da Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro. Em meio às manchetes e às chamadas dos programas policiais, os alunos escreveram:

                            Da ponta do lápis

                       A escola é algodão-doce
                       É sonho feito à mão
                       A escola quem faz é a criança
                       A poesia vem da ponta do lápis
                       Do arco-íris após a chuva
                       A escola seria mais doce
                       Se cada um transformasse
                       A maldade em poesia.
                                                                 Daniela Santana. 6ª A         

                             Pedaços de giz    

                      Um dia tudo é lembrança
                      O abraço da escola
                      O beijo da mãe
                      O primeiro dia de aula
                      Os primeiros rabiscos que fiz
                      A vida feita de versos inteiros
                      E pedaços de giz
                     A vida feita de livros
                     E razões pra ser feliz!          
                                                             Wedna Angelim. 8ª A

                                Um

                     Com o tempo a escola muda
                     E a gente também
                     O que hoje é bom
                     Amanhã será melhor
                     O dia que rolamos na grama
                    O dia que soltamos uma gargalhada
                    Sem motivo nenhum
                    Aquele tempo mágico
                    Quarenta alunos numa sala
                    Tão parceiros
                    Tão amigos
                    Nós fomos quarenta
                    Sendo apenas um.
                                                                             Amanda Horacio. 6ª C

                            Eu acredito

                  Eu acredito nas estrelas
                  No brilho da vida
                  Que existe nos olhos de todos
                  Seja bicho ou gente.
                  Eu acredito que toda escola
                  É um céu
                  Cheio de pequenas estrelas.
                  Eu acredito na constelação de alunos
                  No amor infinito
                  Que existe dentro deles.
                  Eu acredito na poesia da vida
                  Eu acredito!
                  Acredito!            
                                                   Júlia Maria. 8ª B

Talvez as cegueiras todas (mente, olhos e coração) possam ser superadas com um pouco mais de cordialidade, um pouco mais de candura, um pouco mais de gentileza – quem sabe tratar o outro como semelhante e não como um trapo humano.

As sociedades precisam rever a formação de seus jovens – há uma incontestável perversidade no ar –, Saramago infelizmente tem toda razão, mas até mesmo os que nascem de um ato de violência jamais estarão imunes à poesia, à música, às artes – ao amor de alguém.

 

Clique e leia também “Raízes da Violência: A fragilidade humana disfarçada de glória”, de Esther Gonçalves.

 

Um comentário para “Raízes da Violência: As cegueiras todas”

  1. Evelyn Rocha

    [b][/b]é Verdade escola é um pedacinho de algodão doce
    é um sonho feito a mão

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