Mistura para transformar

Que tal a gente ouvir música boa? Ótimo, não é? Agora, que tal se, com essa música, viesse também toda uma ampla pesquisa cultural e a união de artistas que figuram na cena da cultura underground brasileira e de quebra possuem bagagem de resistência social? É como se fosse um grito oprimido, principalmente quando falamos de intolerância religiosa e racial.

Assim é o álbum Rapsicordélico – Ritmo e Poesia Psicodélica em Cordel, de Gaspar, fundador e vocalista do grupo de hip-hop Z’África Brasil. Lançado recentemente, seu primeiro (e primoroso) trabalho solo possui doze faixas e levou dois anos para ficar pronto.

Rapsicordélico combina religiões, tradições e ritmos afro-brasileiros e nordestinos, rap, reggae, samba e ainda conta com a participação de grandes nomes da música nacional, como Lirinha, Emicida, Zeca Baleiro e Dexter. Uma mistura brasileira para não colocar defeito.

Ao ouvir o álbum, fui transportada para um Brasil que parece esquecido. Eu fui transportada para o universo daqueles que lutam diariamente por visibilidade. O gueto, como sociedade. O negro, que vence com a sua malandragem qualquer contratempo (e quando falo de malandragem, não é no sentido do mau “jeitinho brasileiro”, é no sentido da força, da coragem, da garra, mesmo).

Talvez Rapsicordélico não seja fácil de definir. Ou melhor, seja indefinível. É uma mistura boa que talvez não seja tão conhecida no cenário massificado, justamente por ter letras que questionam, falam sobre religiões estigmatizadas (candomblé) e, sobretudo, lançam uma programa para dizimar o preconceito e a hipocrisia: a educação.

Gaspar mistura para criar uma coisa só. É emocionante de ouvir, quando se tem a mente aberta. É fácil de julgar negativamente quando os preconceitos estão tão arraigados no cotidiano comum. Música boa assusta no começo.

 

Ouça a canção “Rapinbolada”, com participação especial de Zeca Baleiro:

 

Imersão multicultural

Para compor seu primeiro trabalho solo, embora seja tão coletivo quanto outros, com o Z’África, Gaspar bebeu e muito na cultura com origem na África e na cultura da Região Nordeste do Brasil, de que é filho. Soma toque de berimbau com batida de rap. Rufar de atabaques com solo de guitarra. Bota embolada, bota repente, bota triângulo. Isso, musicalmente falando.

Falando culturalmente, Gaspar trouxe a cultura nordestina à metrópole paulistana, aproximando e refundindo periferias. Não é aquele aspecto cultural do cidadão nordestino que veio para a “cidade grande” vencer na vida, trabalhar e matar seu leão por dia. Não. A cultura mesmo dos guetos nordestinos. Das ladeiras de Olinda, do interior, das praias, a periferia da periferia.

Religiosamente falando, os Orixás ganham ares de heróis. Orixás que protegem o trabalhador, o humano. Santos, reis, guerreiros e lutadores que ajudam, salvam. Vale ouvir a canção “Guerreiro de Aruanda”, que é uma saudação, uma oração a Ogum e conta com a participação de Emicida:

Ogum com sua lança afasta o inimigo

Abre os caminhos e protege do perigo

Ogum Ogum Ogum Onirê Ogum Megê agô

Ou seja, um trabalho baseado em toda a miscigenação brasileira. Eu diria que, sim, é um trabalho que soa perfeito. Gaspar faz uma oferenda em forma de rima, bela, por sinal. Poesia religiosa. Há quem diga que, ao cantar, reza-se duas vezes. Eu diria, então, que Gaspar já preencheu sua cota de rezas por esta vida.

Arranjos tradicionais

Num dos textos de divulgação do álbum, o músico conta o que subjaz à criação e algumas de suas intenções: “Muitas letras deste álbum partiram das minhas referências nordestinas, das coisas do meu pai e dos mestres que, ao longo da minha vida, tive oportunidade de conhecer e aprender”, explica. “Nos discos anteriores com o Z´África Brasil, já misturava o rap e suas batidas eletrônicas com os ritmos africanos e brasileiros. O som da banda sempre teve como característica a ancestralidade do tambor com o sampler e, neste meu trabalho solo, nós aprofundamos e demos continuidade nessa pesquisa sonora. Porém, ao invés de partir da base eletrônica, os arranjos do disco partiram sempre do pandeiro, do tambor, do cavaco dando harmonia e percussividade nas rimas”.

Por sua qualidade, vale muito curtir o voo solo desse artista obstinado e talentoso, nascido e criado no bairro do Campo Limpo, quebrada da Zona Sul de São Paulo. O mano, como se diz, é firmeza.

 

Ouça, baixe e saiba mais sobre Rapsicordélico na página oficial do disco: https://www.facebook.com/rapsicordelico

 

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