Rasgou o verbo

Henfil,

Após temporada de retiro para assimilar tudo que chega de informação por todos os lados – decidi escrever (é, cara, por mais absurdo que pareça, professor de escola pública escreve) algumas bem traçadas linhas para saudar os estudantes e professores do Paraná.

Ana Júlia Ribeiro, de 16 anos, do Colégio Estadual Senador Manoel Alencar Guimarães, argumentou, com voz embargada e ao mesmo tempo contundente, sobre a proposta de emenda constitucional (PEC) 241 e o porquê das ocupações dos estudantes em centenas de escolas públicas. Foi na Assembleia Legislativa do Paraná, para os deputados presentes.

A menina-mulher Ana Júlia desatou um nó que estava na garganta de boa parte da população brasileira e rasgou o verbo literalmente – deu aula de cidadania e esclareceu aos presentes acerca da condição intelectual e atuação política dos “invasores de suas próprias escolas”.

Veja o testemunho da estudante paranaense na Assembleia Legistativa:

A educação pública não é feita de baderneiros – a baderna parece estar instalada em instâncias de poder comprometidas com a corrupção e tudo que é sórdido. Os jornais estampam como matéria de capa o envolvimento de mais um ministro do governo Temer em um esquema de caixa dois.

Quantos estão envolvidos? Qual o tamanho das celas da Polícia Federal em Curitiba? Parece que já existe um projeto de reforma. Afinal, os presos necessitam de um gabinete para despachar ou pelo menos um ambiente menos insalubre para receber os advogados especialistas em delação premiada.

Acho que um frigobar pode ser algo importante, porque água quente de cacimba só quem bebe é gente das caatingas nordestinas – gente do naipe de políticos e empreiteiros bebe água mineral de fontes termais selecionadas.

Alguém um dia já reclamou das quentinhas oferecidas nas dependências da Polícia Federal em São Paulo – e acredito que o cardápio será mais bem-cuidado – ouvi dizer que vão até inovar e substituir o pato por outra ave que gosta muito de gaiola: o pavão- corrupto. O prato principal será pavão-corrupto na laranja.

Ainda bem que a Ana Júlia e muitos outros estudantes existem Brasil afora. Gente de uma essência nobre – como disse Mino Carta – uma espécie de Joana D’Arc diante dos inquisidores.

Que todos rasguem o verbo antes que eles rasguem a tal Constituição – antes que eles aluguem o Brasil, como bem cantou Raul Seixas – antes que eles enfiem toda a Amazônia num vaso e vendam para o capital estrangeiro – antes que alguém tenha a brilhante ideia de privatizar o país inteiro. Só fica a pergunta: se os serviços públicos estiverem nas mãos da iniciativa privada, qual seria a serventia (já não servem muito) dos homens públicos?

Escreva sua carta também – converse com o seu vizinho na associação de bairro ou em sua casa – entre em contato com a emissora de televisão, a rádio, o jornal – dê sua opinião nas redes sociais – defenda ou reclame, mas não se cale diante das injustiças – o mundo (obviamente) é maior do que o nosso umbigo.

Rasgue o verbo.

Jornalirista

 

Imagem: Paraná Portal

2 comentários para “Rasgou o verbo”

  1. João Baptista Herkenhoff

    Parabéns a Ana Júlia Ribeiro pelo seu pronunciamento na Assembléia Legislativa do Paraná. Parabéns à Mesa da Assembleia por ter franqueado a palavra, merecidamente, a essa jovem.
    Tenho 80 (oitenta) anos, sou Juiz de Direito aposentado.
    O discurso emocionado e emocionante de Ana Júlia me deu a certeza de que podemos acreditar no futuro do Brasil.
    Vitória, ES, 27 de outubro de 2016.
    João Baptista Herkenhoff

    João Baptista Herkenhoff, magistrado aposentado (ES), professor, palestrante e escritor.
    E-mail: [email protected]

  2. Keli Vasconcelos

    Keli Vasconcelos

    Ah, mais uma carta linda para o Henfil! A escola deve ser um lugar para sonhadores, para transformadores, para aprendizado e diálogo, de erros e de acertos. O Brasil precisa entender isso e há ainda um longo caminho para percorrermos. Cabe a nós todos darmos o primeiro passo. E, como bem escreveu, ainda bem que temos gente que já caminha para esta transformação e tenho esperança de ver essas mudanças (e tenho certeza que o Henfil também tem este desejo!). Parabéns, Sílvio!

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