Raso

Restaurantes de bairro são uma raridade hoje. Perderam espaço para os shoppings, as lanchonetes de grandes centros de comércio, para os fast-food.

Quando encontramos um do gênero, é luxo. Onde moro, em São Miguel Paulista, São Paulo, existem alguns, e tenho certeza de que, se você reparar bem, vai encontrá-los onde vive, e com um detalhe: sem ser self-service.

Mais interessante ainda é presenciar as pessoas almoçando por lá. Tem um quê de quintal, de extensão de nossas casas. Se for um daqueles com toque de cantina italiana, melhor ainda: toalha quadriculada, vinho Sangue de Boi como candelabro, tarantella e molho ao sugo.

Muitos clientes exigem a mesa disponível perto das janelas, porque é possível ver o movimento dos carros. As mesas do meio do salão são as que comportam mais pessoas. Assim, é possível notar os casais, as famílias que tornam uma tarde de domingo qualquer feriado.

Sorrisos e comida, selfies e falatório.

Picanha, farofa, arroz, feijão, salada, ora ovo, ora peixe, ora linguiça, batata frita. Eis o cardápio, e a moça da mesa ao lado pede coca-cola zero com gelo e limão. O marido, a versão tradicional.

Enquanto dão garfadas em seus pratos, servidos em grande velocidade, o moço gesticula nervosamente, e ela, cabisbaixa, apenas ouve. Ensaia um choro, lágrimas vertidas talvez.

Ninguém ao redor percebe. Estão em seus micromundos, falando alto. Abafam a discussão.

Ela, então, levanta os olhos, observando o marido que está à frente, esbravejante, como o dragão tatuado no braço direito.

Na mente daquela moça, pode ser que apareçam os tempos de outrora: as flores ou mesmo as poucas rimas de punho próprio rabiscadas em um pedaço de papel. As conversas; os jantares, em casa, na rua; as vezes que ele foi buscá-la na porta da faculdade, no curso de inglês, na estação do metrô.

A marcha nupcial; as daminhas de honra; o vestido comprado na tradicional Rua São Caetano, a rua das noivas; a aliança – aquela que roça o garfo que pinça a batata frita engordurada.

Agora, rispidez.

Ele paga a conta e sai sem olhar para trás. Ela, antes de se levantar, observa outro casal, que vai embora do estabelecimento de mãos dadas.

Vai ver que as coisas poderiam ser assim: sem brigas, sem estresse.

Desculpas e ponto final.

Vai ver que ela só queria mesmo sair de mãos dadas, comer batata frita em um restaurante de bairro.

Mas, do mesmo modo que os restaurantes do gênero, paira o sentimento de “prato raso”: pouca tolerância para tanta cólera que transborda hoje.

 

 

Imagem: Keli Vasconcelos

 

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