Reciclado

 

Separar plástico, vidro, latas e papéis do lixo comum faz parte do meu dia a dia há muito tempo, assim como a consciência de preservar os recursos da Terra. Lembro de que ganhei uma caixa de lápis de cor e um caderno no concurso de redação da escola, aos nove anos, por falar da vida de Chico Mendes, seringueiro acriano morto em 1988 – ano do nascimento de meu irmão. Também já fiz alguns trabalhos freelance para a área ambiental. Ou seja, meio ambiente é, para mim, assunto corriqueiro.

 

No bairro onde vivo, São Miguel Paulista, Zona Leste da cidade de São Paulo, não existe aquela aura para tal feito, muito menos divulgação mais efetiva de cooperativas de catadores pela região. Entretanto, percebíamos que nosso reciclado sumia ao ser colocado na lixeira, um motivo de alegria.

 

O que entristece, contudo, é ver muitos viciados em drogas circulando por essas bandas. Pressuponho que isso deva acontecer em boa parte do país, e também do mundo, e não dá para fechar os olhos diante da questão. Como diriam meus pais, “pro santo e pro cão temos de cumprimentar todos”, portanto, dizemos bom-dia para a vizinhança, incluindo os “noias”.

 

Um deles, dia desses, tocou a campainha de casa e não estava moribundo, cambaleante, com a feição típica dos mais viciados. Falou de seu trabalho com reciclagem e pediu se poderíamos doar o reciclado para a cooperativa: “Assim que tiver bastante, liga que a gente busca de caminhão”, explicou-nos, entregando uma sacola plástica gigante, resistente e flexível, e um panfleto com os contatos.

 

Ficamos ainda mais contentes com aquela mudança. Afinal, o moço tem uma filha recém-nascida e já incomodava vê-lo perambulando pelas esquinas, pronto para o próximo furto. Embora soubéssemos que era longo o caminho para que se livrasse do vício, o homem era determinado e parecia satisfeito com a nova função. Acordava bem cedo, ia à padaria buscar pão e leite e, já uniformizado, seguia para a cooperativa, não muito longe de São Miguel.

 

Espantoso mesmo era o tanto de tralhas que juntávamos: vasilhames, pacotes de papel, folhas usadas de sulfite e lidas de jornal, latas de leite em pó e coisas que outrora eram importantes para nós, hoje não mais. Em menos de uma semana, estava para lá de cheia a sacola.

 

No dia da retirada, uma quarta-feira, o caminhão verde estacionou no outro lado da rua enquanto arrastávamos com dificuldade o resultado de tanto cacareco. “Puxando o saco”, literalmente, sorríamos. O homem atravessou, carregou os reciclados, deixando-os no caminhão, passou na casa dele e pediu um cigarro para o colega recostado no muro. Depois despediu-se e agradeceu-nos, devolvendo a embalagem vazia.

 

Minha mãe fechou o portão, ressabiada: “Oxe, que estranho…”.

“O quê?”, quis saber.

“Reparou que na rua inteira ninguém veio entregar nem uma garrafa PET sequer? Nem a família dele, só a gente?”, questionou.

 

É mesmo. E eis a razão de pedir para telefonar primeiro, já que não compensaria vir todos os dias para pegar, aos poucos, o que juntávamos.

 

Conversando, então, com uma vizinha sobre o assunto, ela retrucou: “Eu? Juntar reciclado para aquele noia? Não quero caçar conversa com essa gente”.

 

Pois é. Será que, do mesmo modo que o planeta tem a reciclagem como alternativa de preservação, aquele homem não teria ao menos uma chance de reciclar-se? Ou seria a nossa consciência que precisa de uma “reciclada”?

 

Coisas para refletir, e transformar, penso eu.

 

*Keli Vasconcelos é jornalista e escritora.

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