Reforço

“Você conhece rabanete?”, disse uma senhora no corredor da clínica de fisioterapia. “Não”, respondeu uma mocinha que estava ao lado, enquanto esperava sua vez na esteira. “É uma ‘frutinha’, que não tem gosto de nada, mas se você faz um chá é muito bom para as articulações”, explicou e eu observava a conversa, entretida nos exercícios que tinha de fazer – e também impressionada com a definição praquela raiz, que comemos crua.

Precisei fazer uma série de sessões de fisioterapia por conta de uma recente distensão de coluna. Eu, que há quase vinte anos sofri um atropelamento e não passei por tal situação outrora, cá estava na clínica, em São Miguel Paulista, caminho fácil de fazê-lo a pé, o que adoro.

Preparei-me no dia anterior como atleta, com direito a tênis e meias novos. Cheguei cedo e descobri que, há 16 anos, já tinha passado por consulta lá, ou seja, não precisava fazer ficha. Ouço chamar meu nome no corredor. A fisioterapeuta me leva para uma sala, faz a avaliação nas costas. Além da distensão, estava com lombalgia, escoliose. “Acho que não tenho mais jeito”, provoquei, seguido de muitos risos.

“Agora, vamos fazer o alongamento. Me acompanhe”. Segui a fisioterapeuta, e pensei que iria fazer um monte de exercícios, me esticar até dizer chega, mas engano: era uma cabine diminuta, com um aparelho engraçado, que esquentava as costas.

Quinze minutos depois, lá vou eu para uma sala cheia de bolas coloridas, faixas, várias camas. Outra terapeuta me entrega uma faixa e dá as instruções. “Dobra o pé assim, depois eleve a outra perna com a faixa sem dobrar os joelhos. Conte até quinze”.

Um-dois-três…

Depois exercícios com bolas. Isso lembra as brincadeiras de criança, piscinas de bolinhas, que as amo tanto. Porém segurar um simples exemplar delas, por quinze segundos na ponta dos pés, torna-se a mais difícil das tarefas.

“É ruim no começo, mas depois vai ganhando força. Pior é a gente que depende de condução, minha filha. Faz os exercícios e se lasca no ônibus”, incentivou-me uma senhora que aguardava sua vez na outra sessão que eu participara. “É mesmo”, reconheci.

Pois bem. Dias depois, já melhor e com pouca dor, fui encontrar uma amiga para almoçar, em Itaquera. No cardápio, comida chinesa. Fazia tempos que não apreciava rolinho primavera, arroz com cebolinha em excesso.

Quando coloquei o prato na balança para pesar, tive duas surpresas: a amiga pagou a refeição e carinhosamente na bandeja tinha um biscoitinho da sorte, presente dela. Sentamos e fomos falar da vida.

De sobremesa, peguei o biscoito, quebrando-o ao meio. Mastigava aquela consistência que beirava a casquinha de sorvete, passando os olhos absorta nos números contidos no bilhetinho.

Seis-onze-vinte e dois…  “Você possui uma estrutura de ferro”, dizia o outro lado da filipeta. Mostrei à confidente a frase e ouvi a devolvida: “Ora, até mesmo as vigas têm os seus remendos. É reforço”, divertiu-se. “É mesmo”, admiti.

Ironias do destino, contidas nas vigas e faixas da vida. Ou em singelos pedacinhos de papel.

 

Imagem: Keli Vasconcelos

2 comentários para “Reforço”

  1. Keli Vasconcelos

    Keli Vasconcelos

    Obrigada, sempre, Andressa! Beijos!

  2. Andressa

    Lindo! Bjo😘

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