Refugiados, migrantes e deslocados

Refugiados: pessoas que fugiram da guerra ou perseguição e cruzaram uma fronteira internacional e não podem voltar ao seu país.

Migrantes: pessoas que escolhem se deslocar não por causa de uma ameaça direta de perseguição ou morte, mas principalmente para melhorar sua vida em busca de trabalho ou educação, por reunião familiar.

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A efervescência selvagem é sempre esmagada no final por um adversário organizado.

SIM! É preciso organizá-la para salvá-la do desastre.

Foi assim que saí da apresentação “O Inútil Pranto e o Inútil Canto dos Anjos Caídos”, espetáculo encenado pelos alunos da turma 66 da EAD-USP (Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo), baseado em obra de Plínio Marcos, com direção de Rogério Tarifa, que trata da violência de estado contra culpados e desavisados.

Misturando fatos fictícios com protagonistas de cenas reais com o coro, “uma personagem coletiva” que tem a missão de cantar partes significativas do drama, que representa a pólis, a cidade-estado, ampliando a ação para além do conflito individual.

De início, o texto do coro constituía a parte principal do drama, ao qual se interpolavam monólogos, discursos e intervenções musicais de africanas do Grupo de Mulheres Livres, num grito sufocado por lágrimas num frenesi apaixonado.

O Mal confundia sua voz com o grito dos humilhados e ofendidos, e o abafava. O espasmo que se repetia e a revolta contra o mesmo repetia o mesmo. Uma contratura apavorante, um desespero que fez eco a seu próprio sentimento, o mais íntimo.

“Nos Trilhos de um Leste Migrante”

No dia seguinte vou assistir ao espetáculo “Nos Trilhos de um Leste Migrante”, na SP Escola de Teatro, Brás, região central da capital paulista.

Infelizmente, só pude assistir ao primeiro do tríptico, baseado nas histórias reais da boliviana Martha e seu filho Erick (“Carta 1 – A Infância, a Promessa”).

Uma retomada do tema familiar como revolução do ato dialético. Os valores que a obra dramatúrgica de João Jr. glorifica, como nação, raça, povo e América Latina, são todos de exclusão.

A criatividade multidisciplinar do elenco afinado, pantomimas, recursos audiovisuais, canto e dança se esparramam numa alegoria compassada, num nascimento perpétuo através dos incidentes que envolvem sua poética, numa auréola que faz o público reconhecer ali sua própria esperança.

Respeito

Dias depois participo como espectadora de um debate no Espaço NA RUA, sobre o Poder dos Invisíveis, ainda em alusão ao Dia da Consciência Negra, em que Toni C., ativista, escritor e fundador da Editora LiteraRua, o professor Daniel Faria, presidente da ORPAS, e Dona Jacira Roque de Oliveira discorrem sobre a problemática ainda em estado de atenção, dos lugares a ser conquistados pelo povo negro.

No meio destes depoimentos que esmagam a garganta num nó difícil de ser desatado, ressoa a voz melodiosa de Pop-Black, com a suavidade musical, que nos refresca e, entretanto, faz ranger a sombra de correntes bárbaras cuja memória ainda nos fustiga a consciência pelos abismos que separam discursos de realidade.

Audálio Eterno

De lá fui para o Hospital Premier, onde Audálio Dantas, alagoano da gema, jornalista de direito e de fato, iria receber o prêmio AVERROES 2017. Tudo o que vi foi um Festival de Afetos.

Diferentemente de outras cerimônias de premiação, o glamour emanava da camaradagem, do abraço amigo e da presença daqueles que nutrem respeito e admiração pelo Audálio: o reconhecimento da trajetória o mais próximo possível da coerência da atuação do jornalista e do homem. Uma beleza imensa.

Este rastro que entrelaça estes eventos e estas pessoas surpreendem como acrobacias de uma esquadrilha cuja fumaça é a emanação de um amor sagrado por seu ofício, por sua pátria, por sua terra, por seu território conquistado em outras paragens que une os sentidos à alma no êxtase místico do trabalho benfeito. Do sonho realizado. Da batalha contínua por direitos ainda a ser conquistados.

Vim me juntar a todos eles, jovens artistas, ativistas e profissionais maduros, migrantes e deslocados extraindo das trevas da atualidade o ouro do verdadeiro luxo: o das interações humanas.

Como migrante do Estado do Rio de Janeiro, deslocada por excelência da normalidade vigente, me vejo refugiada nas frestas de luz da resistência, fazendo sabedoria desta loucura, me insurgindo tantas vezes quantas se fizer necessárias e insensível à usura do concreto da metrópole, ainda flerto com a Revolução, que abriga seus justos impulsos de Liberdade.

E relembro Manoel de Barros:

“As árvores velhas quase todas foram preparadas para o exílio das cigarras.

Porque as cigarras do exílio são os únicos seres que sabem de cor quando a noite está coberta de abandono”.

 

Foto: Sérgio Silva _Fotografo  66 & Rogério Tarifa

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