Rehab caboclo

“Que bom que aquele monstro foi embora. Vamos ser felizes de novo? É o que mais quero!”, Renato Russo, Só por hoje e para sempre – Diário do recomeço

Os relatos angustiados, críticos e de vontade de superação de Renato Russo, escritos como diário em 29 dias de abril e maio de 1993, durante internação do cantor na clínica de reabilitação para dependentes químicos Vila Serena, no Rio de Janeiro, devem ser lidos por todas as pessoas. Mesmo que você esteja em um momento feliz ou, principalmente, em um momento de tristeza.

Isso porque o eterno líder da banda Legião Urbana fala, em Só por hoje e para sempre – Diário do recomeço, livro póstumo recém-lançado pela Companhia das Letras, de momentos que qualquer um de nós pode viver – ou pode estar vivendo. E a única alternativa é tentar ficar de pé.

Renato Russo (ou Renato Manfredini Jr., nascido em 27 de março de 1960, no Rio de Janeiro, e morto em 11 de outubro de 1996, também no Rio de Janeiro, em decorrência de complicações provocadas pela Aids) desconstrói em seu diário a imagem que uma pessoa comum tem de pessoas públicas. Na verdade, somos todos iguais. Namoros, amizades, família e excessos com drogas fazem parte de pouco mais de 150 páginas, que nos fazem refletir sobre a vida.

A simplicidade e a leveza de Renato nos revelam uma pessoa, enfim, madura para apontar e colocar o dedo nas feridas. Soa como análise, uma ingestão de energia positiva de querer abraçar as pessoas que amamos e não largá-las mais.

Em uma das passagens do livro, por exemplo, Renato confirma sua condição simplesmente humana: “Procurar acreditar na vida, trabalhar minha espiritualidade, respeitar o próximo, ter esperança, ver o lado bom das coisas, compartilhar, ajudar e pedir ajuda aos outros, acreditar em mim mesmo”.

Ler Renato é como estar sentado na sala de casa batendo papo com um fenômeno, mas, acima e melhor de tudo, com um simples (grande) amigo.

Como não gostar de Renato? Seus textos são prova de que curamos a dor com a força de vontade e a escrita.

Selecionei outros dois trechos que considero significativos de Só por hoje e para sempre – Diário do recomeço:

“Fiquei um tanto decepcionado com a palestra sobre medo (achei a explanação confusa), mas adorei a atividade dinâmica (principalmente imitar os outros). Por minha posição no mundo exterior sinto que, lá fora, as pessoas não expressam seus sentimentos e aqui, em V. Serena, posso ser exatamente como sou (e tento ser lá fora, mas lá não existe interesse e estão todos apavorados e carentes, e são quase todas pessoas ignorantes, quando não burras – existe uma diferença!).”

“Em agosto de 1990, quando estava morando no Marina Palace Hotel, no Rio de Janeiro, e alternando meu uso de álcool com heroína (os dois juntos não combinam), passei uma noite me queimando no rosto e nos braços com cigarros acesos. Fiquei com feridas bem visíveis, de até um centímetro de diâmetro, especialmente no braço esquerdo e na testa. Só senti um pouco de dor, e uma compulsão masoquista me levava a aumentar cada vez mais as feridas e queimaduras, que, por sorte, cicatrizaram sem deixar sequelas, em dois meses. Não me incomodei com o fato porque nesse período estava completamente anestesiado por minha dependência química. Me senti vazio de sentimentos e emoção, a não ser por ansiedade.”

so por hoje e para sempre capa-livroLivro: Só por hoje e para sempre – Diário do recomeço (Companhia das Letras, 2015, 168 páginas)

Autor: Renato Russo

 

Foto de Renato Russo: Autoria de Ricardo Junqueira (veja mais no site www.renatorusso.com.br, clicando aqui)

 

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