Riscado do mapa

A história é feita e refeita todos os dias, de todos os lados. O ano de 2009 vai embora e arrasta um triste símbolo da história recente do país. Na cidade de São Carlos, no interior de São Paulo (a 230 quilômetros da capital), chegou ao fim uma homenagem ao mais cruel torturador da ditadura militar. A rua que levava o nome do delegado Sergio Paranhos Fleury passou a se chamar Dom Hélder Câmara.
Por mais de 29 anos, o nome do delegado batizou a pacata via com duas quadras residenciais no bairro Vila Marina, perto da movimentada rodovia Washington Luís e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Era como se o sarcasmo e a crueldade característicos do personagem estivessem ali reproduzidos, perturbando nos mapas a consciência de quem tenta construir uma sociedade mais justa e livre. Era como se o desrespeito e o desprezo ao sofrimento dos torturados se perpetuassem.


A pacata rua de São Carlos teve o nome do delegado torturador por quase trinta anos.


A rua tem somente dois quarteirões e abriga muitos alunos da UFSCar.

Era assim por causa de um decreto assinado em 15 de maio de 1980 pelo então prefeito de São Carlos, Antonio Massei. Até então a rua levava o nome de travessa G. O entorno era pouco ocupado, mas a referência da região já era a delegacia erguida ali ao lado, na rua Santos Dumont, da qual sai a via em questão.

Massei foi uma figura histórica da política local. Teve três mandatos como prefeito da cidade – o primeiro ainda na década de 50. Segundo o presidente da Câmara Municipal de São Carlos, Lineu Navarro (PT), autor do projeto que retirou o nome de Fleury, Massei sempre foi eleito com o apoio das camadas populares do município e não tinha vínculos com o movimento de repressão à oposição durante a ditadura. Lineu e moradores da rua atribuem a decisão de Massei de homenagear Fleury à influência de policiais que atuavam na delegacia vizinha. O batismo da rua foi determinado sem consulta aos vereadores da época.
Naquele mês, completava-se um ano da morte de Fleury. O delegado teria se afogado no mar de Ilhabela, no litoral norte de São Paulo, ao lado de um iate recém-comprado, no dia primeiro de maio de 1979. O caso ganhou ar de mistério por causa do passado de Fleury e pelo fato de a polícia paulista não ter permitido a autópsia do corpo.


Símbolo da repressão e da tortura

Fleury era policial civil em São Paulo no fim da década de 60 – chefiava a Delegacia de Roubos – quando se tornou figura central dos órgãos de repressão aos opositores do regime militar. Iniciada em 1964 com o golpe que derrubou o presidente João Goulart, a ditadura entrava em sua fase mais violenta em dezembro de 1968 com a edição do Ato Institucional nº 5. O AI-5, que vigorou por dez anos, restringia as atividades do Congresso Nacional e os direitos civis (clique aqui para saber mais sobre o AI-5).
O delegado era acusado de liderar o Esquadrão da Morte, grupo clandestino de policiais responsável por execuções e suspeito de envolvimento com esquemas de corrupção e outros crimes.  Com esse histórico, Fleury chegou ao comando do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) e da Operação Bandeirante (Oban), integrada por policiais civis, militares, federais e representantes das Forças Armadas. O objetivo da Oban, que contava com o apoio financeiro de empresários, era intensificar o combate aos opositores. Fleury passou, então, a ser um símbolo da repressão e uma das figuras mais temidas do país.
Nos porões da ditadura, à sombra da censura imposta à imprensa, ele comandou a prisão e a tortura de presos políticos. Baseado em São Paulo, participou pessoalmente de ações de cerco e de sessões de tortura aos opositores da ditadura. O repertório da tortura ia de choques elétricos a queimaduras, de espancamentos em pau-de-arara a estupros. A intenção era aniquilar os grupos que tentavam se organizar clandestinamente para enfrentar a ditadura e intimidar qualquer movimento de oposição ao regime.
(Clique para conferir o depoimento da jornalista Rose Nogueira, presa pelo delegado Sérgio Fleury em 1969. Na época, o filho de Rose tinha apenas 33 dias e estava sendo amamentado. O depoimento sobre o período de sua prisão foi publicado no livro “Tiradentes , um Presídio da Ditadura: memórias de presos políticos”, organizado por Alipio Freire, Izaías Almada e José Adolfo de Granville Ponce.)
A repressão desencadeada pela ditadura resultou em centenas de mortes e desaparecimentos, sem contar as sequelas físicas e psicológicas provocadas pelas prisões e torturas.  Em 1969, com a ajuda do Centro de Informações da Marinha (Cenimar), Fleury armou uma emboscada na zona sul de São Paulo para matar a tiros Carlos Marighella, líder da ALN (Aliança Libertadora Nacional), uma das organizações que se valeu da luta armada para combater o regime.
Ações como esta deram a Fleury grande prestígio na cúpula militar (saiba mais sobre a tortura durante o regime militar e a atuação de Sérgio Fleury). Em 1973, o governo criou uma regra para dificultar a punição de agentes como o delegado torturador. Réus primários ganharam o direito de esperar o julgamento em liberdade. A norma ficou conhecida como Lei Fleury.

Que nome dar à rua?
Entre os moradores da rua que levava o nome do delegado, essa história não é tão bem conhecida. São Carlos nunca esteve no centro dos enfrentamentos políticos do país. Além disso, não há registro de ligações de Fleury com a cidade, o que reforça o espanto diante da descabida homenagem ao torturador.
“Entendo que se dá nome às ruas como forma de homenagear pessoas que tenham feito benefícios para a cidade, o país e o mundo. Não cabe uma homenagem a uma pessoa que torturava. Fleury era um sanguinário. Essa é uma situação que incomodava a gente faz tempo. São Carlos não tem nada a ver com ele. Homenagear uma pessoa desse naipe é inconcebível”, afirma Lineu Navarro, presidente da Câmara Municipal.


O presidente da Câmara Municipal de São Carlos, Lineu Navarro,
autor do projeto que mudou o nome da rua.

Na família mais antiga da rua, a mudança provocou alguma controvérsia. Os filhos de Orlanda Marques Ferreira, de 82 anos, comandam o Bar e Mercearia São João. Luiz Roberto questionou a troca do nome e ficou preocupado com a regularização dos documentos dos imóveis. Em contrapartida, o irmão Ismael mobilizou-se para impulsionar a mudança. Foi de porta em porta explicar a situação e esclarecer que não haveria transtornos para os moradores. “Conheço esse passado do Sergio Fleury e ficava indignado com o nome em homenagem ao torturador.”
O apoio popular foi imprescindível para a mudança. Uma lei municipal proíbe a troca dos nomes de ruas em São Carlos. A alteração só acontece se a maioria dos moradores aprova a iniciativa. E assim aconteceu na rua da Vila Marina. “Alguns anos atrás, a discussão não prosperava no plenário da Câmara. No ano passado, voltamos à carga com essa discussão, mas tivemos problemas no encaminhamento do nome que seria colocado na rua. Neste ano, nós chegamos a um consenso com os moradores sobre que nome colocar. Coletamos as assinaturas de forma rápida, e o projeto de lei também passou pela Câmara de forma rápida”, relata Lineu. Os vereadores aprovaram a proposta por unanimidade, e o projeto virou lei com a assinatura do prefeito Oswaldo Barba.
O nome de Dom Hélder Câmara foi escolhido a dedo para fazer um contraponto a Sergio Fleury. No fim dos anos 60, como arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder expressou apoio à ação católica operária e acabou punido pelo regime militar. Ficou proibido de se expressar nos veículos de comunicação brasileiros de 1970 a 1977.
Conhecido pela defesa dos direitos humanos e da justiça social, ele apoiou os perseguidos pela ditadura e denunciou no exterior as torturas cometidas no Brasil. O arcebispo e seus colaboradores sofreram atentados. No início dos anos 70, o regime militar chegou a fazer campanha contra a indicação do nome dele para o Prêmio Nobel da Paz. Não faltaram, no entanto, prêmios que reconhecessem a dedicação do religioso (saiba mais sobre a trajetória de Dom Hélder). O ano de 2009 marcou os dez anos da morte e o centenário do nascimento de Dom Hélder.
A tentativa de retirar o nome de Sergio Fleury também mobilizou muita gente de fora da cidade e organizações como o Tortura Nunca Mais. Caio Navarro de Toledo, professor de Ciência Política da Unicamp e pai de uma aluna de Ciências Sociais da UFSCar, promoveu uma corrente via internet para reunir apoio à mudança. “Fleury teve apoio direto de ditadores e de empresários brasileiros. Ganhou notoriedade e era assumidamente cruel. Torturava e debochava do torturado. Os nomes das ruas expressam a história e os ideais de uma sociedade. A mudança é um ato extremamente simbólico. Com a homenagem a dom Hélder Câmara, São Carlos opta pela liberdade, a paz e a vida e diz ‘não’ à mentira, à tortura e à violência.”

Caim, Pinochet, Hitler
A mudança do nome da rua teve uma cerimônia com a presença do ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência. E partiu dele a declaração mais enfática a respeito do delegado: “Fleury foi um torturador emblemático. Centenas de testemunhas dizem que foram torturadas por ele. Comparo-o a Caim, a Pinochet e a Hitler. Não pode haver uma rua com esse nome”.


São Carlos agora celebra a resistência pacífica de Dom Hélder Câmara.

A iniciativa de São Carlos acontece exatamente em um ano em que ganhou força a discussão a respeito da abertura dos arquivos e do direito à verdade sobre o que aconteceu no país durante a ditadura (leia aqui uma entrevista do ministro Paulo Vannuchi sobre esse tema pubilcada na edição de dezembro da revista Caros Amigos).
Outro ponto desse debate é a tentativa de acabar com a anistia aos torturadores (confira o manifesto contra a anistia elaborado pela Associação dos Juízes para a Democracia). Nesse movimento, o Brasil está atrasado em relação a países como Argentina e Chile, onde avançam as punições aos crimes praticados nas ditaduras.
Como diz o vereador Lineu Navarro, a página da ditadura na história do Brasil ainda não foi virada.”Não será enquanto a história do regime militar não for revelada e resolvida”. E como diz o professor Caio de Toledo, a troca de um nome em uma placa não muda de imediato a vida das pessoas, mas no caso de São Carlos representa a opção por valores mais dignos. A história é feita e refeita todos os dias, de todos os lados.

 

Fotos: Wellington Ramalhoso e Rodrigo Garavini

 

Leia mais: Um revolucionário na memória.

5 comentários para “Riscado do mapa”

  1. maria aparecida gatti almeida

    Muito bom mesmo ter removido o nome do Fleury. A reportagem foi otima so faltou a foto do querido Lauriberto., eu tenho o rosto dele na minha memoria mas muita gente nao conheceu e ele merece ser conhecido.

  2. Paulo

    É lamentável como as pessoas não conhecem a história,
    Fleury foi um ótimo delegado, cumpridor dos seus deveres,é triste ver a inversão de valores neste país
    de hipócritas, se não fosse por pessoas como Fleury,
    provavelmente hoje estaríamos vivendo em uma versão
    piorada de Cuba.

  3. LUCIA BARBOSA

    Execelente reportagem! Sem dúvida, avançamos com esta ação. Seria interessante um movimento para eleiminar fantasmas e figuras funestas como esses presentes ainda em muitas ruas, de inúmeros muncípios de nosso País.

  4. marcosomag

    Na capital paulista, o financiador da OBAN, inventor de máquina de tortura e psicopata Henning Boilesen ainda nomeia uma rua no bairro do Jaguaré. É inacreditável que nenhum vereador paulistano tenha denunciado esta barbaridade e retirado a homenagem a tal funesta figura.

  5. Rosa Yokota

    òtima reportagem
    Parabéns pela ótima reportagem, como moradora de S.Carlos, fico feliz em saber da mudança e, principalmente, de ter notícias através da mídia deste tipo de acontecimento. Muitas vezes esses fatos não tem a devida divulgação, neste caso, a reportagem recuperou uma série de dados históricos importantes para que o leitor possa avaliar a importância da mudança do nome da rua.

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