São Miguel entre livros e poemas

 

Uma moça e dois rapazes circularam pelas ruas do Mercadão de São Miguel Paulista, no extremo leste da metrópole cinza, com balões, instrumentos musicais e roupas pomposas. Essa foi só uma das peripécias do quinto Festival do Livro e da Literatura de São Miguel, promovido pela Fundação Tide Setubal, nos dias 6, 7 e 8 de novembro. A homenageada desta edição foi Carolina Maria de Jesus, autora do livro Quarto de despejo: Diário de uma favelada. A escritora, que narra na obra o dia a dia de quem vive numa favela de São Paulo, foi ela mesma uma favelada e completaria 100 anos de vida, este ano.

 

Eu fui bisbilhotar duas das atrações do festival e conto aqui o que vivenciei.

 

6 de novembro de 2014, 15h

“Se você diz que é tímido, então me diga o que é coragem, meu filho”, sentenciou o senhor grisalho a um dos participantes da companhia de teatro que apresentava a intervenção “Poesia ao Vento”, no Mercadão de São Miguel. Cheguei um pouco antes do início e já avistei a série de bexigas coloridas carregadas pela atriz e um dos atores, e, nesse interim, o músico ao violão convidava os passantes curiosos para estourar um balão, que dentro dele poderia ter verso, canção… Palavra doce para um dia ensolarado e agitado, sem sermão.

 

A trupe era composta de Adreísa, Fábio e Ricardo, sendo que o Fábio fora provocado, inclusive por esta que vos escreve, para imitar um chimpanzé, daí o comentário daquele homem. Afinal, todos estavam ainda tímidos de encarar a expectativa de receber música ou poema em troca. Saíram mais cantigas que versos.

 

Em São Miguel a fantasia é tão linda: de dentro do balão sai poesia

 

Uma senhora estava empolgada. De cara estouraram dois balões, um branco e um azul, e saíram “Paciência”, de Lenine, e “O Vira”, do Secos e Molhados. “Ah, que coisa mais linda! Meu marido foi professor de inglês, francês, tinha livros e discos em casa por todo o lado. Adorei!”, alegrou-se aquela mulher magra, baixinha, que parou para prestigiar o grupo.

 

Enquanto o pessoal cantarolava, um jovem, que sempre se apresenta como estátua viva em frente ao mercadão, baixou a guarda e também entrou na dança, cantando e rodopiando. Depois pegou a mala onde acomoda a fantasia de duende e seguiu seu rumo.

 

Pena que ele não viu o último que estouraria o balão verde – depois, os atores entrariam no mercadão para interagir com os fregueses.

 

“Você sabe o que estamos fazendo aqui?”, perguntou, com seu violão, Ricardo, que escolheu um menino de uns oito, nove anos entre os presentes.

 

“Não sei direito. Só sei que vocês cantaram música com bicho”, respondeu o menino, vestido com o uniforme da escola.

 

Ao estourar o balão, saiu outra música com a temática animal, mas que não empolgou tanto o garotinho de olhos claros. Ele preferiu entreter-se com o som do violão e a beleza dos balões, a prestar atenção no ritmo. Recebeu, com sorriso tímido, o papel colorido com letra como regalo.

 

E os atores prosseguiram para o mercadão e o público voltou à rotina com um pouco mais de nuanças.

 

 

Confira o vídeo da canção “Paciência”, cantada no Mercadão de São Miguel:

 

 

7 de novembro de 2014, 10h

O Clube da Comunidade de São Miguel, também chamado de CDC, fica no Jardim São Vicente, bem próximo de onde moro. É uma caminhada por volta de quinze, vinte minutos a passos largos, e logo quando cheguei vi um grupo de crianças de uma escola de educação infantil sentadas em cadeirinhas de plástico, sendo apaziguadas por um grupo de professoras.

 

A apresentação seria um musical inspirado no livro O Mundo Cá Tem Fronteira, de Paulo Rafael, com interpretação de Renato e Ronaldo Gama e Ananza Macedo. Antes dela, os músicos, para entreter a criançada agitada, cantaram algumas músicas e ensaiaram diversas coreografias, que se referem às culturas do Brasil e de Cabo Verde.

 

Afinal, como diz a canção do ensaio, o pato, quando nasce, não sabia nadar. E nós, quando nascemos, só sabemos chorar. “Por quê? A natureza é assim.”

 

Não deu tempo para refletir mais sobre tal questão intrigante – a natureza é mais complexa do que imaginamos, os músicos, vestidos de camisetas claras, calças e saias de chita florada, pairavam na quadra coberta: “Boi não chora/O boi canta…”, entoavam ao som de tambores, para o espanto dos pequenos.

 

As professoras, os monitores do CDC, algumas mães e eu batíamos palmas e cantávamos as letras que falavam de montanhas com cara de gente, bois que voavam em busca de um grande amor, festa pela chuva e celebração das colheitas.

 

De repente, por causa da distração e da energia típica da infância, Ananza pegou o microfone e proferiu algumas palavras que chamaram minha atenção: “Quando era criança, como vocês, eu queria ser professora”.

 

E desceu do palco, ao som de guitarras e violoncelo, e começou a gingar junto das crianças, que estavam sentadas no chão. Uma das meninas, encantada com a dança, começou a bailar também, formando uma reação em cadeia.

 

Quando dei por mim, estava em meio ao turbilhão de crianças, que giravam e sorriam, numa ciranda de inocência. Então eu girei, inocentemente, outra vez.

 

Confira o ensaio de “O Mundo Cá Tem Fronteira”, no CDC São Miguel:

 

Foto e vídeos: Keli Vasconcelos

 

 

*Keli Vasconcelos é jornalista e escritora. Contato: [email protected]

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