Se todas as escolas fossem de samba

 
Na noite de sexta-feira, 25 de setembro, finquei os pés e muito da minha alma em território consagrado por gente de samba.
Estive na quadra da Sociedade Rosas de Ouro, na zona norte de São Paulo, com minha família e vi o amor estampado no rosto de uma comunidade inteira, e não só o amor por uma escola de samba, mas também o sentimento de comunhão entre visitantes e visitados.
Não faltaram sorrisos e abraços – o espaço foi tomado por homens, mulheres e crianças e todos dançaram e cantaram juntos, sem se importar com os tolos preconceitos que existem além dos muros da escola.
A bateria ditou o ritmo cardíaco, os passistas adultos e mirins desfilaram sua elegância e a Ala das Baianas se superou em graça, diante de olhares estarrecidos. Cada senhora era uma divindade ancestral.
Três sambas concorriam ao título de samba-enredo do Carnaval 2010 e nós estávamos ali com a missão de apoiar o concorrente de número cinco. Ao som da bateria, cantamos: “É tão doce sonhar/ E recordar a própria história…”.
Como descrever a explosão de alegria no refrão: “Tá na boca do povo/ O cacau é show!/ Sou Rosas, Rosas de Ouro/ Meu sabor te conquistou!”. Todos tiraram o pé do chão e, numa flutuação de cantos e corpos, a alegria contagiou a todos e o resultado não poderia mesmo ser outro: o samba-enredo de número cinco foi o vencedor.
Na segunda-feira, conto aos meus alunos os detalhes do prazer que é tomar parte na escolha de um samba-enredo e ver tanta harmonia entre pessoas movidas por um canto de euforia ou de alforria. Entre todos os rituais, o de sambar é o que mais se aproxima da libertação.
Quem sabe um dia as comunidades escolares (pais, alunos, professores, pessoal do apoio, diretores, supervisores, dirigentes e governantes) vistam a mesma camisa e de uma vez por todas escrevam um samba-enredo que mude definitivamente o ânimo e os rumos da educação pública brasileira.
Quem sabe os pais ensinem aos filhos quanto a escola é importante na vida deles e de todas as gerações que ainda estão por vir. Como seria bom se todos tivessem (por suas escolas) o mesmo amor demonstrado pelas comunidades em relação às suas agremiações de samba.
Ainda assim, os ensaios continuam no território sagrado dos pátios escolares. Alguém canta Adoniran, Roberto Ribeiro e Originais do Samba para ouvidos tão esquecidos de sua própria cultura e história. De vez em quando, uma voz (perdida em uma escola da periferia de São Paulo) fala em bom português sobre Angola e Moçambique.
Ainda assim, as crianças aprendem as letras e os números como quem desvenda o jogo da capoeira e usa a ginga para enfrentar sem medo os rabos-de-arraia da vida.
Que bom seria se todas as escolas tivessem a mesma garra, o mesmo sentido de coletividade e o mesmo espírito de luta das escolas de samba.

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