Sobre quando Emicida quase morreu

Quando contei esta história ao meu amigo Renan, do grupo Inquérito, ele ficou muito impressionado e indagou:

— E você, não vai escrever sobre isso?

Ao que respondi:

— Ah, sei lá, mano! Não havia pensado nisso, você acha que daria um texto interessante?

E ele me disse:

— Claro! Porra, mano, imagina alguém pegar o metrô no final dos anos oitenta, em Nova York, com o Jay-Z e ouvir ele dizendo algo assim?

E é essa a história que segue.

Era a festa de lançamento do single de um colega da música e muita gente importante da cena se mobilizou para estar presente. Eu havia sido convidado para cantar uma música e estava feliz por fazer parte daquele momento. Após o show, colegas e amigos se confraternizavam entre tragos e tragadas. Eu tava com uma buchinha e tava bolando um pra fazer uma preza com a rapa também. Um maninho se aproximou de mim e, após uma breve apresentação de si mesmo e um pequeno preâmbulo sobre a humildade, pediu um pouco pra bolar um pra ele. Dei-lhe uma porção, o que o fez muito contente, pois me agradeceu efusivamente. Baseados acesos, suco de maçã pra quem gosta e cerveja pra maioria, tinha até um whisky rolando no sapatinho. Eu e o mano engatamos em várias ideias: o rap, o dinheiro, a família, os dilemas de se tentar viver apenas de arte, afinal, especialmente naquele momento da minha vida, a coisa que eu mais queria era não ter de trabalhar mais no abrigo para adolescentes e me dedicar só ao rap. Falei sobre isso e o mano ouviu com atenção e condescendência. Da hora, a conversa. Achei que havia feito um amigo. Entretanto logo me despediria, pois no outro dia, bem cedo, teria de me apresentar ao meu plantão.

Naquele começo de fim de tarde eu já havia cumprido meu plantão e na hora do almoço já tinha chorado no sujo e fétido escadão da Patápio Silva, na Vila Madalena, Zona Oeste de São Paulo. Estava exausto. Talvez o começo de uma depressão estaria já, àquela altura, instalada na minha mente, âncoras no coração, calos nas vozes do espírito em autoflagelo. Na cabeça, a única determinação: não beberia nos arredores da praça Benedito Calixto, localidade onde, inevitavelmente, encontraria algum conhecido. Estava avesso a encontros naquela tarde. Mas decerto beberia. Duas ou três pingas, ou dois conhaques e uma pinga e quantas cervejas conseguisse beber e ainda tomar o ônibus pra voltar pra casa. Havia semanas aquela era a minha forma de dar analgésico às dores que sentia na alma. Então, passei daquela altura da praça e avancei Teodoro Sampaio acima, à procura de um boteco mais discreto. Pensava no garoto de dois anos apenas, sendo rejeitado pelo casal grã-fino após tentativa de adoção pelo simples fato de que os poodles da madame não se “adaptaram” à criança. Quando a febre veio forte, levei-o ao pediatra e lá se examinaram ouvidos, garganta, pulmões e nos dias seguintes urina, fezes e sangue. A criança, outrora ativa e vigorosa, era constantemente acometida de febre alta e fadiga. Feitos todos os exames, veio o óbvio que já sabíamos: a criança tinha saúde excelente, mas estava tão triste que dava até febre. A rejeição virou uma angústia que foi somatizada. No abrigo municipal onde eu trabalhava, histórias tristes eram comuns, mas, devido à ligação especial que eu tinha com o garoto, aquilo que feria a ele parecia ferir a mim também.

Pensava nessas coisas no caminho, mas me sentia cansado pra seguir andando, então decidi que pararia no próximo ponto e tomaria um ônibus. Talvez saltasse na Dr. Arnaldo e descesse a Cardeal Arcoverde, onde eu conhecia alguns botequinhos mais escondidos. Eis que, chegando ao ponto onde tomaria o ônibus, avisto o MC com quem, na noite passada, tinha dividido minhas histórias pessoais, minha intimidade, meu bagulho; ao lado dele, falando ao celular, outro MC, que já era muito reconhecido e comentado em nosso meio, mas ainda não havia conquistado o que mais tarde conseguiria: sucesso e fama nacional e internacional. Esse MC era Leandro Roque, o Emicida.

Ao cumprimentar meu recente amigo, percebi que não éramos tão amigos e ele me tratou com muita indiferença, como se nem o quisesse fazer, como se não tivesse fumado quase todo meu bagulho há menos de vinte e quatro horas, sob o pretexto da humildade. Emicida foi mais simpático, mesmo falando ao telefone, me cumprimentou. Pensei por um instante, “Por que as pessoas são assim, né? Tipo, dependendo da conveniência ou circunstância, tratam os outros desta ou daquela forma”; mas, enfim… Ironia do destino à parte, tomamos os três o mesmo ônibus. Entrei, passei a catraca e me sentei do lado esquerdo, perto da porta de saída. Emicida e o outro mano sentaram paralelamente a mim. Havia poucas pessoas. Ao encerrar a chamada, deu pra ouvir claramente Emicida exclamando:

— Eu não aguento mais, mano! Vou parar! É sério, mano, pra mim não dá mais!

— Calma, Leandrinho! Você não pode parar agora! De todos nós, você é o mais bem preparado! Tá muito perto, irmão! – dizia o outro, como um amigo que consola e anima.

— Perto de que, mano? Não vejo nada acontecer! E eu tô falando pra você, meu truta, se o bagulho continuar assim, eu vou parar! Simplesmente vou arrumar um trampinho aí qualquer, num Carrefour da vida, e esquecer essa porra de rap de vez, mano!

E seguiu desabafando, olhar cansado abaixo do característico vinco formado entre suas sobrancelhas, naquela época muito mais acentuado, talvez devido à ansiedade e preocupação com sua própria sina: a de quem apostou tudo o que podia e o que não podia naquilo.

— Sabe quanto eu gastei de Bilhete Único esse mês, indo pra lá e pra cá na cidade, tentando fazer meu trampo virar, sem ter uma porra de uma moto nem nada? Tô levando marmita na bolsa junto com os CDs e comendo comida fria na rua, jão! Tudo pra não gastar dinheiro! Ô, para, tio! Isso não é vida, não, mano! É sério, porra! Vou parar com esse bagulho! Não aguento mais!

Eu acabei por descer do ônibus, eles seguiram, provavelmente pra outra correria. Resolvi ir pra casa sem beber naquela tarde e, enquanto caminhava, eu pensava: “É, mano, esse bagulho de rap não é fácil pra ninguém mesmo!”. Meses depois, comecei a ver constantemente o Emicida nos canais de mídia especializada e nos meios de comunicação mais influentes, assisti à sua carreira ser consolidada dentro e fora do Brasil. O resto vocês já sabem! O que talvez alguns de vocês não saibam é que eu também nunca abandonei completamente os palcos da vida e, mesmo nos vários momentos em que pensei em desistir, a força do meu sonho atraiu alguma oportunidade boa pra mim e fez com que me mantivesse fazendo o que amo.

Concluí esse texto num lugar muito especial de minha memória sentimental: a escadaria da Patápio Silva, na Vila Madalena, que deixou de ser um escadão sujo e fétido através das mãos hábeis do meu amigo artista Elcio Torres. Ganhou vida, cores e poemas de gente que não desistiu de seus sonhos mesmo durante as piores adversidades. Entre eles, um poema de minha autoria.

Gosto dos clichês, afinal, se não houvesse nenhuma verdade neles, não teriam força pra se tornar clichês e um dos meus preferidos é: não desista de seus sonhos.

 

 

Foto: Divulgação / Laboratório Fantasma

Um comentário para “Sobre quando Emicida quase morreu”

  1. elis

    #SomosTodosDugueto

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