Sombrinha, papel e lápis, pano

Era tarde de terça-feira e almocei em um shopping no bairro do Tatuapé, na Zona Leste da capital paulista, e, em seguida, fui a uma loja de departamentos comprar o presente para o Dia dos Pais: um CD com músicas de artistas sertanejos.

Meu pai tem até um toca-mp3 no carro, mas do que ele gosta mesmo é de ouvir as modas de viola e o sacolejo da sanfona num bom e velho compact disc. Não posso falar nada, pois sou mais “anacrônica”, ainda. Gosto de música na rádio FM, com direito a locutor e os reclames das estações de clássicos do rock: acessórios para motos e ofertas de carros de luxo. E, detalhe, nem dirigir eu sei.

Pois bem, depois de enfrentar a fila e ajudar uma menininha muito fofa a pegar embalagens de dropes sabor morango (influência minha, confesso), paguei os CDs – aproveitei e comprei o mesmo título para a avó postiça, antecipando as compras natalinas – e dirigi-me ao andar de saída para o metrô.

Na escada rolante, à frente, estava uma mulher com um pouco mais de cinquenta anos, portando uma pequena ecobag. Era baixa, tinha cabelos curtos branquinhos, uma camiseta igualmente branca com a palavra “Ubatuba” bordada, tênis e calça preta de viscose com desenhos de folhas em tom bege. A calça, especificamente, chamou-me a atenção, pois tenho no guarda-roupa um macaquinho com a mesma estampa.

Eis-me lá, na escada preguiçosa, distraída em meus pensamentos, olhando para aquela calça e lembrando da peça esquecida no armário.

De repente, a moça voltou-se para mim e vi os seus olhos em meio aos óculos de grau bem fortes, deixando-os bem proeminentes. Fiquei sem graça, mas nem deu tempo de pedir desculpa, porque ela já emendou uma conversa:

– Passei hoje o dia todo na rua 25 de Março (ponto bem conhecido pelo comércio, em São Paulo). Daí descobri que na vida só precisamos de três coisas… , – disse-me saindo da escada rolante e fazendo o número mencionado com os dedos da mão direita.

Emparelhei-me e perguntei quais seriam. Respondeu-me:

– Uma sombrinha (ou guarda-chuva) para não pegar uma pneumonia; umas folhas de sulfite e lápis pra você escrever algumas coisas, anotar o que não é pra esquecer, desabafar pra não ficar ainda mais louco; e uns panos pra cobrir as vergonhas, não andar pelado e ir preso.

Aquilo me deixou boba por dois motivos. O primeiro é desatar a falar isso a uma desconhecida, e ainda em um lugar que praticamente nos instiga (obriga?) a gastar. O segundo é que não era uma bobagem o que acabara de dizer, claro que não!

Daí, a mulher ajeitou os óculos, seguindo-me até a saída do shopping:

– O pessoal não sabe gastar, meu! O resto é tudo balangandã, tranqueiras que não servem pra nada, que você vai comprar e se arrepender ou ficar só exibindo pros outros! Depois o pessoal fica culpando o governo, pela falta de dinheiro…

Repliquei-lhe com um sorriso e acrescentei que, realmente, muitos gastam sem parcimônia suas economias, e não têm o hábito de questionar se é preciso ou não tal produto. Também disse a ela que há os que economizam, e também situações em que não tem jeito: precisamos gastar, presentear, adquirir algum bem para si próprio.

Quando virei o rosto para me despedir, ela sumira, como que por mágica… Penso eu que deva ter ido para outro corredor… Visagem que não foi (acho!), só sei que me deixou falando sozinha.

Saí dali pensativa e contabilizando se tinha tais elementos.

Bom, guarda-chuva, eu tenho. Sulfite e lápis, reais e virtuais, uso e abuso; e admiro uns panos, em especial os que estão em oferta – quando preciso, destruo o porquinho e os compro.

Então, o saldo está positivo. Tem até umas modas de viola para agradar a consciência da gente.

 

Foto: Keli Vasconcelos

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