“Somos pobres, mas somos felizes”

 
Lelo kiterça. Hoje é terça. Mungo kiquarta. Amanhã é quarta. Tô arranhando meu kimbundo do Malanje.
A frase do título acima é do André, um dos motoristas que nos conduz diariamente pelas ruas de asfalto e de terra de Luanda, da casa onde vivo, na Vila Alice, região central, ao COCAN, o comitê organizador da Taça de África das Nações, no bairro de Morro Bento, na zona sul da cidade.
É uma frase que sintetiza o sentimento dos muitos pobres de Luanda. Não por acaso, exatamente igual ao que a gente experimenta em qualquer bairro da periferia brasileira.
É generosa, a gente simples de Luanda. No sábado, 19 de dezembro, fui convidado pelo André para participar de uma cerimônia de alambamento, isto é, a festa de pedido da mão de uma noiva. Aqui, o noivo precisa investir com coragem: pagar uma quantia em dinheiro que varia de noiva para noiva, fixada pelos pais da pretendida, comprar comes e bebes para a festa do pedido, presentear o futuro sogro com um terno, que chamam de fato.
Da festa participam familiares e amigos, havia na casa cerca de 150 pessoas. DJ nos pick-ups, tocando música local, como a kizomba e o kuduru, e também ritmos brasileiros, como o axé e o samba. Rasta-pé dos bons.
Sou um brasileiro muito fajuto, nem samba sei dançar; os angolanos, exímios dançarinos e muito musicais, não se conformam.
Comi como uma gorda palanca negra, o antílope negro que só há por aqui e simboliza o país (os Palancas Negras são o epíteto da seleção de futebol nacional). Havia arroz de marisco, mas o marisco daqui é mais chique: a nossa lagosta. Comi kizaca, o típico refogado de folhas de mandioca, e tantos outros pratos de que nem desconfio a origem. Mas pulei o funje de bombó, um pirão feito de farinha de mandioca com o caldo da carne-seca que o acompanha. Esse aqui acho que não recomendo, mas é fina iguaria para os angolanos.
Compram sempre barris de chope nas festas, bebi feito uma palanca ao sol do meio-dia.
A irmã do André, moça atenciosa, chamada Jovita, lembra o tempo-rei: “Tudo vai mudar. Quem um dia ganhou muito dinheiro com a guerra hoje já não ganha mais. Isso tudo não vai continuar assim”.
Depois da guerra, a paz, e a justiça, tomara. E da paz os angolanos não aceitam abrir mão, experimentam os sete primeiros anos de estabilidade e reconstrução, desde o fim dos conflitos armados no país, entre o MPLA, Movimento Popular de Libertação de Angola, e o Unita, União Nacional para a Independência Total de Angola, hoje um partido política com força restrita.
O MPLA, vitorioso, do presidente José Eduardo dos Santos, governa hoje praticamente sozinho. Detém mais de 80 por cento das cadeiras da Assembleia Nacional, o presidente nomeia e exonera com largo apoio. Dos Santos, trinta anos recém completados na Presidência da República, me observa por onde vou nas ruas, no interior do escritório, um olhar enigmático.
O Exército angolano é a grande força do país, juntamente com os donos do petróleo, sob o comando da empresa estatal Sonangol. Há militares espalhados pelas ruas de Luanda diuturnamente, sempre muito bem armados, metralhadoras mal-humoradas a tiracolo. As principais lojas e residências têm sempre seguranças na porta. O Exército angolano, dizem, é temido por todos no continente. “Ninguém aqui se mete conosco”, dizia para mim outro rapaz, orgulhoso do poderio bélico do país.
Os dois principais times de futebol e de basquete de Angola, o Petro e o 1º de Agosto, arquirrivais, são financiados por essas duas forças; o primeiro, o nome indica, pelos petrolíficos, como se diz por aqui.
No meu trabalho, como jornalista que veio ajudar na organização da primeira Taça das Nações em Angola, um acontecimento histórico para o país, o clima é tenso. O COCAN é uma estrutura criada especialmente para a taça. Mais política que técnica. Mais atabalhoada que eficiente. Há denúncias graves de desvio gordo de dinheiro. Impossível ficar imune a isso.
Então, apego-me com vontade ao trabalho, é o que posso fazer para me manter minimamente útil e são e feliz. Pesa ainda a dificuldade de me expressar num português luso-angolano, mas tenho progredido. Acho, contudo, que nunca mais vou conseguir escrever português nem daqui, nem daí, vai ser um híbrido errado dos dois lados.
Graças a Deus, sou humilde, não tenho vergonha de perguntar o muito que não sei, e uso de minha diplomacia toda por aqui, minha capacidade de desarmar, é preciso seguir. Jamais entraria para Exército algum, jamais. Nasci para o desarme.
Os dias têm sido compridos e prometem ficar ainda mais extensos, com a proximidade da taça, que vai de 10 a 31 de janeiro. Haverá, nos próximos dias, as inaugurações oficiais dos quatro estádios construídos especificamente para o campeonato, nas quatro cidades-sede: Luanda, Cabinda (ao norte), Benguela (centro) e Lubango (ao sul). Com a presença de Dos Santos e de toda a alta cúpula do país.
Espero que tudo fique bem. Estou com a gente simples de Angola, que se aperta nas candongas pintadas de azul celeste e branco, nos barracos sem reboco e ainda guarda tristezas reais e ancestrais, a baixa autoestima que o orgulho, aquele que distancia, parece querer esconder.
“Africa Unite”, o sonho de um povo unido, permanece vivo e sempre possível quando há alguém capaz de olhar, reconhecer e respeitar. O sonho de igualdade e tolerância é seu e meu.
Retalho o meu coração dia após dia e, com os trapos, vou tecendo, pacientemente, uma nova camisola. Palanca Negra, o 9 nas costas. Saltito pelo relvado, os longos cornos erguidos para o ar.
Beijo e abraço em todos vocês.
Compartilho algumas fotos abaixo, desculpe a indiscrição.

Meu quarto


A vista do meu quarto


A redação no COCAN


Eu, uma palanca branca e gorda

5 comentários para ““Somos pobres, mas somos felizes””

  1. Carlinhos

    Palanca branca e gorda
    Ah, Guilherme. Revejo em suas fotos o quarto que compartilhamos em momentos distintos, o mesmo Santos Virgílio e sua vigília envolta de papéis, a casa à frente da janela de nosso corredor-quarto que aos finais de semana pode originar os mais ensurdecedores decibéis que já ouvi em toda a minha vida, mas não havia feito ainda qualquer analogia entre você e a enigmática e quase extinta palanca.

    Não sei bem ao certo como vivem hoje esses animais selvagens, marciais, territoriais. Mas é certo que ainda não o domesticaram a ponto de confiná-lo em um quarto-corredor, ou à frente de uma secretária (no sentido angolano) dividida com Silvio Capuepue. Solte teus cornos e teus coices, amigo, abrindo os espaços que te caibam. Afinal, abram alas para a palanca branca e gorda. Beijos do amigo Carlinhos…

  2. Juvenal

    Belo texto!
    Muito bom Gui! Adorei o texto e as fotos. Veja se consegue tirar muitas para enriquecer mais ainda suas matérias.

    Deve ser uma realidde dura, mas cheia de boas surpresas. Se abra para todas elas!

    Beijos

    Xan

  3. Juvenal

    Kurosawa em Angola – cont.
    …que quer transformar um terreno baldio em uma praça para as crianças do bairro e passa ele próprio a enfrentar a burocracia estatal.
    O filme é (era) revolucionário como linguagem de cinema, pois, pela primeira vez, o tempo das ações em flashbacks foi superior ao tempo das ações "normais", com a narração e a ilustração visual dos comentários feitos por amigos e parentes durante o velório do já então falecido, uma ousadia extraordinária para os filmes até ali realizados.
    E eu fico aqui imaginando como você está sentindo, pela primeira vez na vida, a experiência de ser minoria racial, mesmo vindo de um país e de uma atitude étnica pessoal que sempre respeitou a integração.
    E fico pensando também nas diferenças e semelhanças entre nós brancos, os negros de Angola e os japoneses do Kurosawa.
    Bendita raça humana, benditas diferenças e principalmente benditas semelhanças!

  4. Juvenal

    Kurosawa em Angola
    Lendo o teu maravilhoso texto sobre os (as) palankas, lembro de uma lição que aprendi com o genial cineasta japonês Akira Kurosawa, quando vi o filme "Viver", uma produção de 1952 que eu assisti já nos anos sessenta, sobre um funcionário público que nunca faltou, nunca chegou atrasado… e nunca trabalhou, limitando-se a empurrar com a barriga os problemas que caíssem na sua mão.
    Um dia ele descobre que está com câncer no estômago e tem poucos meses de vida. E resolve começar a Viver, primeiro caindo na noite – e os bares e os tipos que ele conhece são exatamente iguais aos que existem no Brasil: os malandros, as putas, os barmen, os executivos. Depois ele descobre que essa vida não tá com nada. E resolve procurar um romance com alguém, e fica conhecendo uma menina mas aí também não dá certo. Até que, finalmente ele é procurado, pela enésima vez, por uma comissão de mães que quer transformar um terreno baldio em uma praça para as crianças do bairro – e que ele sempre empurrava para outras seções da prefeitura, burocraticamente. E topa, ele próprio, levar a tarefa ao fim, enfrentando toda a burocracia da máquina estatal.
    O filme é (era) revolucionário como linguagem de cinema, pois, pela primeira vez, mais da metade da ação é narrada em flashbacks, com os amigos e parentes invocando fatos e coisas sobre a vida do então falecido durante o seu velório, mas, pra mim, vale mais como mensagem sobre a igualdade de sentimentos e atitudes do ser humano: a burocracia japonesa é exatamente igual à nossa, assim como os tipos da noite, as relações amorosas, o comportamento das pessoas em relação a seus semelhantes, etc. etc.
    E fico aqui pensando em você aí em Angola, passando pela primeira vez pela experiência de ser minoria racial e pela descoberta de que, no fundo, no fundo, somos todos iguais: nós, os negros de Angola e os japoneses do Kurosawa. Bendita raça humana, benditas diferenças e, principalmente, benditas semelhanças!
    Parabéns pela belíssima matéria e pela sensibilidade.

  5. Andréa

    Que bonitinho. Adorei ver as fotos, e adoro ler tudo que você escreve. Estou aqui torcendo por você.

    beijos e saudades

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