#Somos Todos Referência

Há quase dois anos, escrevi que a “referência” pode ser uma forte justificativa para muitos problemas com que nos deparamos. Hoje, vou ser advogada do diabo e defender a referência, afinal, ninguém é totalmente anjo ou demônio – nem eu nem minhas referências.

Acredito muito que a nossa personalidade é construída a partir de referências que acumulamos durante nossa vida. Rótulos e preconceitos são criados por meio da repetição de referências parecidas, frequentemente geradas em uma mesma sociedade. Vou dar um exemplo prático e real: se uma menina cresce em uma sociedade em que 93% dos conselhos de administração das empresas são ocupados por homens, dificilmente ela alcançará esse cargo. Não por falta de competência, mas por falta de referência, tanto dos homens quanto das mulheres.

Esse dado que acabei de citar faz parte de pesquisa realizada pela Fundação Getulio Vargas, que também aponta que o número de mulheres em conselhos aumentará apenas 5% em 100 anos, caso não seja tomada nenhuma medida. A presidente do Magazine Luiza, Luiza Helena Trajano, defensora das cotas em conselhos, participou de uma discussão sobre o tema (saiba mais aqui) e provocou: “Nem nossas bisnetas sentarão em um conselho no Brasil!”. Vamos deixar seguir o fluxo natural e acreditar que é uma questão de tempo?

Em 2013, as manifestações do mês de junho tiveram repercussão histórica. No ano passado, o mês de junho confirmou que #TeveCopa. E em 2015, enfim, não poderia ser diferente e junho também fica para a história. Para começar, e dar continuidade à posição de Luiza Helena Trajano, a reportagem de capa da edição 1901 da revista Exame, publicada dia 10 de junho, levanta a questão: “As mulheres precisam de cotas?”. Nela são apresentados alguns argumentos a favor da implantação das cotas para mulheres nos conselhos das empresas.

Caminhando para a área cultural, na semana passada, o jornal O Globo publicou que a atriz hollywoodiana Natalie Portman colocou em debate a disparidade de gênero em Hollywood (leia mais aqui). Ela foi cotada para interpretar Ruth Bader Ginsburg, juíza da Suprema Corte dos Estados Unidos, e, ao perceber que o diretor do longa-metragem seria um homem, marcou uma reunião com a biografada e propôs: “Eu quero que o diretor seja uma mulher. Não há número suficiente de mulheres nesta indústria. Há muitas cineastas talentosas”. A juíza, claro, foi a favor da sugestão e agora Hollywood está selecionando mulheres para a direção do filme, que já começou com um excelente buzz.

Na próxima quarta-feira, 24 de junho, será lançado o movimento #ElesPorElas, parceria da ONU Mulheres com o canal GNT (veja mais aqui). É uma versão brasileira da mundialmente conhecida campanha #HeForShe. O objetivo do encontro, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, é colocar o homem como centro do ativismo e do diálogo e trazer o tema para uma reflexão conjunta.

Em meio a tantas ações de empoderamento feminino, semana passada aconteceu um evento de startups do qual participei da organização. Na plateia, havia cerca de 200 empreendedores e menos de 10% eram mulheres. Ao conversar com as demais empreendedoras que também participaram da organização, esse dado desastroso nos fez enxergar uma necessidade altamente perceptível até mesmo para os mais desavisados: a implantação de ações para aumentar a participação de mulheres em encontros de empreendedorismo.

Dizer que as mulheres são boicotadas ou enfrentam mais dificuldades que os homens no mercado de trabalho não nos faz melhor que eles. Reclamar que os homens recebem mais que as mulheres para exercer as mesmas funções não fará com que aumentem nosso salário. Devem ser desenvolvidas ações para mudar esse cenário, como a criação de cotas de mulheres, a implantação de comitês que promovam a participação feminina em eventos majoritariamente frequentados por homens e o incentivo à contratação de mulheres para cargos nos quais elas são tão competentes quanto os homens.

Tais medidas não são sinônimo de segregação, como alguns podem pensar. Muito pelo contrário: ações como essas devem ser debatidas entre homens e mulheres. Ninguém quer inventar um Clube da Luluzinha versão business e muito menos uma maçonaria feminina. Queremos ser referência para as crianças – meninos e meninas – que estão crescendo. Mostrar que todos temos direitos iguais, apesar das diferenças naturais de gênero. Não somos competidores. Somos complementares. E somos todos referência.

Imagem: Band.uol

Comentário