Sorteio

Confesso que gosto de participar de sorteios e, mesmo se não ganhar, fico feliz pelos vencedores. Aliás, comecei aqui no Jornalirismo por meio de um concurso cultural, há quase oito anos.

Já ganhei alguns prêmios, mas nada de carros ou viagens, só mesmo coisas simples: ingressos de cinema e teatro, livros autografados ou não, vale-compras, cadernos, agendas. Acho que o mais chique foi tirar uma foto e sentar na primeira fila para assistir a um show do Oswaldo Montenegro, num shopping center da Zona Leste de São Paulo.

Pois bem, dia desses, voltava eu de uma consulta médica, quando passei diante de uma ótica que já conhecia, na avenida Marechal Tito, também na Zona Leste. Mas, sinceramente, desviava dos panfletistas e não reparava na vitrine, com um sem-fim de modelos de óculos, para todos os gostos.

Lotada, vários clientes esperavam atendimento. Na entrada, vendedoras e um locutor bem animado, que me deu um pedacinho de papel com o número “4” impresso em Arial tamanho grande. “Aguarda só um minutinho, moça, para o sorteio de prêmios”, convidou o animador, sacudindo a sacolinha de papel com a logomarca do estabelecimento.

Não resisti e esperei.

Junto comigo, várias senhoras, mocinhas com crianças de colo e alguns rapazes portando pastas com currículos ou capacetes, já que o local era próximo de um estacionamento para carros e motos.

“Antes do sorteio, vamos fazer uma gincana com os participantes”, avisou o locutor e convidou um menino, que devia ter uns nove anos, para ser voluntário na brincadeira. Consistia de completar um ditado popular corretamente, e quem respondesse primeiro receberia um brinde da ótica. O menino seria o juiz e verificaria quem respondera mais rápido.

Começou a gincana: “No ditado popular, Deus ajuda quem cedo…”.

“Madruga”, gritou um monte de gente, dentro e fora da loja. Eu, além de responder, também levei meu braço esquerdo para o alto, como boa canhota que sou. O animador perguntou ao julgador quem tinha falado primeiro e o menino apontou para mim. Fiquei tão sem graça que perdi a reação, mas abri um sorriso.

O locutor pediu palmas, o público soltou uns “vivas”, peguei o brinde e depois foram sorteadas mais duas pessoas pela criança, um motoboy, que acompanhava a esposa, e uma mãe com um bebê recém-nascido. Depois, agradeceu o garotinho, que também ganhou um brinde, e ocorreu efetivamente o sorteio dos grandes prêmios.

Eu fiquei apreensiva, segurando o número “4” com força, quando anunciou que precisava de mais um voluntário. “Vamos chamar a nossa sortuda, a de vestido preto com flores”, e apontou para a pessoa que vos conta esta história. “Como você se chama?”, perguntou o apresentador, que trajava calças jeans, camisa de gola polo, sapatênis e óculos de sol tipo ray-ban. “Keli”, respondi, enquanto o locutor sacudia a sacolinha com alguns números dentro.

Pediu, então, para o público chacoalhar as mãos e eu, uma criança que para os adultos tão somente estava pagando mico, ainda dava passinhos e fazia charminho, como aquelas assistentes de mágicos de circo prestes a tirar o coelho da cartola, no caso, da sacola.

“Tira o 27, Keli”, alguém gritou bem alto no meio do povo. Retirei um número.

Não era o “4”. Muito menos o “27”. Foi o “12”: “Ai, minha filha, doze é o meu número”, disse toda contente uma senhora, também de vestido preto com algumas florezinhas miúdas. “Parabéns!”, comemorei com a Dejanira, o nome da agraciada, que recebeu das mãos do animador o presente.

Depois, ela foi a convidada da vez a tirar mais um número. Saiu o “19”, novamente para o motoboy. “Esse moço tem que jogar na loteria”, sugeriu o locutor, perguntando o nome do sortudo: “Damasceno”, respondeu o rapaz negro, parrudo, sorriso largo, declarando que daria o mimo à esposa, que olhava manhosa para o cônjuge. Por fim, saiu o número “23”, para o senhor que acabava de ser atendido pelo oftalmologista.

O locutor agradeceu a todos e eu ia seguindo meu rumo, quando senti o cutucão nas costas. Era o homem do número “27”: “Ei, Keli, qual é o prêmio que tem dentro da sacola?”, questionou-me.

Estava tão apressada que nem tive a curiosidade de reparar. Abri aquela bolsa de papel esverdeado, que continha cupom para consulta grátis, bloco de anotações e porta-níquel.

Mostrei os prêmios, feliz.

Mas o moço torceu o nariz.

(Ah, sabe quais eram os “grandes prêmios”? Além dos já citados, um estojo lilás, de lona, para guardar os possíveis óculos novos, também.)

 

Foto: Keli Vasconcelos

 

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