Só(s)

Era a segunda vez que estava em Belo Horizonte. Hospedei-me em um hotel reformado, simples, mas bem aconchegante, no centro efervescente da capital mineira, em pleno mês de novembro.

Ficava o dia todo fora abastecendo-me de conhecimento em palestras, e, ao final dele, praticamente afundava na cama, em um quarto singelo no terceiro andar, com vários adornos de madeira. Uma mesa, um banheiro, um espelho, um armário, um quadro de um casario de Ouro Preto e, como disse, a cama forrada de lençóis brancos. Eis as testemunhas de minha estada por lá.

Como é sabido, gosto de conversar com pessoas desconhecidas, dos funcionários de hotel ao motorista de ônibus, caixa da farmácia, taxista… Chega a ser esquisito, pois reparo que a maioria das pessoas não faz isso e tem gente que até me olha de cara feia. Mas é irresistível: sinto-me feliz em dividir uma saudação, um bom-dia, saber da vida de outrem, nem que seja por um instante.

Pois bem, no primeiro dia, fui tomar café. Numa mesa, frios, leite, café e água, alguns saquinhos de chá, o trio pratos, talheres e copos, duas opções de bolo, mel e manteiga em embalagens individuais, pão de queijo, obviamente, pães, ovos mexidos.

Então, apareceu a copeira do restaurante do hotel: “Bom-dia. Qual o quarto do senhor?”, questionou o hóspede que se servia de frutas. Bem sonolento, ele respondeu apenas o número. Depois, ela fez o mesmo procedimento com outros presentes e poucos respondiam o cumprimento.

Quando chegou a minha vez, já meio sem graça, falou ainda mais baixo, mas eu sabia a questão: “Bom-dia, moça, tudo bem? O quarto onde estou é o do terceiro andar (não lembro agora o número, confesso)”, respondi com um sorriso bem largo, mesmo com as olheiras da noite maldormida.

A copeira, por sua vez, sorriu alegremente, disse um “tudo joia” e já ia saindo quando perguntei: “Como você se chama?”. Ela ficou meio sem reação, atrapalhada com aquela atitude.

Deu a entender que não perguntavam o nome dela e a sensação de que ela seria como o ar, a gente só sabe quando está em movimento ou precisamos dele: “Keila”, respondeu dando um sorriso mais tímido, com o toque que só o mineiro tem. “Keila, somos quase xarás. Me chamo Keli”, repliquei. “Minha filha se chama Kelly”, ela respondeu e, contente, foi-se para a copa.

Bolo, suco, pão de queijo, pensamentos, rua.

A noite chegou e com ela o cansaço. Hora de voltar ao hotel. Beagá, como carinhosamente Belo Horizonte é chamada, conta com umas sacadas bem bonitas e estava bem quente, porém a brisa dava sua graça, paz rara. Nem parecia que, dias depois, o mundo ficaria perplexo com os ataques na França. Também, uma calmaria que destoava com a consternação ocorrida a quilômetros dali, em Mariana.

Fiquei ali por um tempo, antes de adentrar o quarto, observando o trânsito, as pessoas indo embora após o trabalho, as lojas fechando (cedo, pois nem eram sete da noite e não se via comércio tão ativo). A fome surgiu, porém. Fui ao quarto, tomei um banho, troquei-me e decidi ir ao restaurante. “Quem sabe a Keila esteja lá?”, pensei.

Subi as escadas e dei de cara com o salão vazio. Mesas de madeira, estofado escuro, toalhas brancas, vasinho com flores lilases de tecido e plástico. Dirigi-me à copa e lá não encontrei a Keila, e sim outra copeira. Devia ter uns quarenta anos, parda, olhos fixos em um livro quase no término, nos ouvidos, fones, encurvada numa cadeira de escritório.

Ela levantou os olhos e, como se tivesse presenciado uma visagem, colocou a mão no peito: “Oi, moça, boa-noite. Desculpe atrapalhar a sua leitura e pelo susto, mas está atendendo?”, perguntei.

“Sim, pode pedir”, respondeu meio desconfiada, afinal, o pessoal usa o telefone para tal situação. Pedi um misto-quente, que acompanhava uma salada de alface e tomate, e um suco de laranja bem grande. “É pra entregar no quarto?”, perguntou enquanto levantava-se para fazer o lanche. “Não precisa, não, moça. Como por aqui mesmo. Pode, não é?”, falei e recebi o balançar com a cabeça confirmando a possibilidade.

Minutos depois, ela chega com o lanche. “Assim, te faço companhia”, brinquei. Ela, ainda na esquiva, respondeu-me: “Ficar o dia todo assim não dá, moça. Daí, a gente recorre ao livro, ao rádio. Ficar sozinho faz até mal, fica doente”, frisou, já voltando para o seu posto, quando, curiosa, perguntei: “Nossa, até que horas você fica aqui?”. “Até onze da noite. Aí não tem condições, solidão é ruim demais”, e foi-se para a copa.

Eis-me pensativa, degustando o pão integral com queijo e presunto.

Engraçado, solidão, para mim, é algo tão comum, corriqueiro. Mesmo ali, naquele momento, eu estava só, com a solidão da copeira. E quando a Keila, pela manhã, adentrava o salão daquele restaurante, ei-la só com as solidões dos hóspedes…

Os dias se passaram, as palestras idem e vejo-me arrumando as malas para retornar a São Paulo. Jururu, confesso, mas é preciso ir.

Subi, então, para tomar o café. A Keila, feliz, disse-me bom-dia e anotou o quarto do hotel sem precisar perguntar. Ela foi para a copa e eu, em seguida.

“Keila, vim te entregar um presente”, disse, entregando alguns origami feitos por mim. “Nossa, que lindo e criativo, muito obrigada”, respondeu-me segurando-os com afeto. E emendou: “Mas você já vai embora?”, balancei a cabeça positivamente e pedi que ela mandasse lembranças à copeira da noite: “Fala que é a menina que comeu misto-quente aqui”, reforcei.

“Mas você volta, não é?”, a Keila me disse, com o olhar sonhador.

Fiquei pensativa, mas respondi firme: “Voltarei, sim”.

“Volta e se hospeda aqui, tá? Fica com Deus.”

Despedi-me de Keila e fui pegar as malas. Ia comigo um pouco da solidão de Keila e ficava ali, nas ruas belo-horizontinas, um pouco da solidão que tenho.

Afinal, são solidões por cima de outras. E, nelas, seguimos nosso rumo.

 

 

Foto: Keli Vasconcelos

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