Tá tudo fixe?

 
Tá tudo fixe, moça? Tá tudo fixe, moço? Tá tudo fixe, senhora?
Obrigado, fixe.
Descaindo pelas ruas de Luanda.
Moça, moça, homem, homem, homem, é bué homem, criança, criança.
Odor de esgoto com açafrão no ar.
Chineses trabalham no novo calçamento de Luanda. Grito “Chaina!”, para um grupo deles, que trabalha sob o forte sol; apenas um responde, mas a conversa é impossível, ninguém se entende.
Adesivo da empresa China Jiangsu na porta do caminhão laranja. Os chineses são a mão-de-obra do momento, aqui. Nas obras públicas, entre elas, os quatro novos estádios para a Taça de África das Nações. A brasileira Odebrecht segue forte, ainda.
O segurança João Fernando, casado e pai de cinco filhos, de camisa amarela e gravata azul no peito, sentado, sonha: “Quero encontrar um bom emprego, trabalhando e conseguindo meus objetivos: ter uma boa casa e um bom carro”.
Na mesma rua esburacada, na porta da Casa Comercial Muanza, José António, lavador de carros, espera. Vai comprar algo para comer. Estão pintando a entrada da loja, ainda não dá para entrar. O homem, pequenino, cobra, pela lavagem de um carro menor (algo mais raro em Luanda, lugar de carrões grandes importados), 500 kuanzas, a moeda local; pela lavagem do carrão, pede 1 mil kuanzas.
Descaindo.
A propaganda nas ruas oscila entre abordagem mais informativa e persuasiva. “Quem ama Luanda não deita lixo no chão”; “Unitel, o próximo mais próximo”. Num país com desnível grave, grande parte da população ainda na miséria, a propaganda exerce função educativa, apresentando produtos, principalmente, de higiene. Pessoal e para o lar.
A sede do Governo da Província de Angola é um casarão colonial de cor carmim. Damu Bi e Toninho, nos fundos da construção, vêm até a mim. Estão fardados, porque é domingo, não dia da semana, quando circulam “de fato”, isto é, de terno. São da polícia de elite de Angola, fazem escolta, acompanham os dirigentes locais, para proteger.
Toninho é o motorista da governadora da Província de Luanda, Francisca do Espírito Santo. Fácil dirigir na engarrafada e indisciplinada Luanda? Toninho faz a conta simples: “Pra quem conhece, é fácil, pra quem não conhece, é difícil”.
Precisam tomar à frente de quem protegem, no caso de tiro ou agressão. Sabem do perigo. E das consequências de fugir à obrigação: “Amarra uma cadeia grande”, diz Samu.
Fazem cara de espanto e desaprovação, quando pergunto se trabalhariam na mesma profissão no Brasil: “Lá, não trabalharia nessa profissão. Sei que vou morrer na hora”, rejeita Toninho. As imagens transmitidas pela TV Globo e pela Record estão sempre muito vivas na memória angolana, fãs dos programas brasileiros. Polícia e traficantes se enfrentam no morro do Rio, eles estão vendo, também. Assim como as telenovelas, que todos acompanham e adoram.
Intriga o comentário sobre a violência brasileira, porque Angola é um país marcado, historicamente, pela guerra. Mas ela está ficando cada vez mais distante e uma geração de angolanos cresce em tempos de paz. Toninho tem lembranças em casa: dois irmãos foram combatentes em 1991 e 1992. Um deles pisou numa mina e perdeu parte do calcanhar.
Descaindo.
De táxi coletivo para a Ilha de Luanda.
A praia regurgita. Comem peixe, comem ovos cozidos vendidos pela mulher, na caixa, sobre a cabeça.
A música é alta, vem dos carros estacionados. Há lixo na calçada, na areia da praia também despontam restos. Reluto. Farofa da boa.
Mas a água é límpida, tranquila e refrescante, observo meus pés submersos.
Jogo bola com uns meninos, ainda faltam 28 dias para o início do campeonato, acho que consigo entrar em forma, dá tempo.
Fico amigo de um outro grupo, mais à frente. São rapazes com menos de 30 anos, oferecem-me cerveja. Todos têm filhos e mulher, mas estão lá sozinhos. São trabalhadores, nos transportes, no comércio.
Gostam do Brasil, sabem muito das coisas de lá e assistem a muita novela. Questionam-me se não tenho filhos. E estranham quando digo que não. O costume, por aqui, é logo casar e ter filhos; a família cobra. Aquele que não tem rápido fica malvisto. Rio do exagero.
Bom, para casar, explicam-me, o noivo precisa fazer o pedido, ou alambamento, numa carta oficial de próprio punho, e pagar em dinheiro e ainda oferecer produtos à família da pretendente, como o fato (terno) do casamento do pai dela. O valor da noiva depende da origem de sua tribo.
São gente simples, esses rapazes. E descubro, com orgulho, que o motorista tem um automóvel Corsa igualzinho ao meu do Brasil, ano noventa e alguma coisa, só muda a cor, branca. Despeço-me com festa.
Descaindo.
As jovens Leonilde e Cecília, de 28 e 22 anos, passam por mim, no caminho de volta. Ensinam-me onde fica a paragem de táxi, que é onde pega o transporte coletivo. Conhecem mais do mundo televisivo e da música brasileiras que eu.
O maior sonho da vida de Leonilde é brasileiro: o cantor Leonardo. Sabe de cor as músicas, quer um dia estar frente a frente com ele, que o cantor abra o salão de festas, cantando, no dia de seu casamento.
Cecília é prática: “Quero ser empresária, ter lojas, empreendimentos”. E presidente? “Presidente, não. Tem muita preocupação no sono.”
Seguimos, os três, no banco traseiro da van, apertados, através do longo engarrafamento.
Leonilde canta músicas de Leonardo, a meu pedido. É bom sempre aprender coisas do Brasil com quem entende: “Somos brasileiras, só moramos em Luanda”, explica. Seus programas favoritos na tevê são todos do Brasil, entre eles, o “Vai dar namoro”, da Record.
Leonilde fala de Heavy C, sucesso romântico da música angola. E canta, mais uma vez, a meu pedido, brasileiro doido. “Por você deixei de beber, Por você deixei de fumar…”.
Cheguei de boleia, carona, como se diz, em casa. Hospitalidade angolana, na camaradagem do irmão da Cecília.
Descaindo.
Daqui a pouco tudo começa de fato, primeiro dia de trabalho. Aí, vou poder dizer. Que tudo corra bem.
Beijão para vocês no Brasil, beijão em você, Deia. Muita saudade.

 

4 comentários para “Tá tudo fixe?”

  1. humbertom Mendes

    Semelhança
    Angola e Brasil. Nunca vi tanta semelhança. No seu texto Guilherme conta que lá a propaganda exerce função educativa, apresentando e ensinando a usar principalmente produtos de higiene. Pois saiba, garoto querido, que aqui foi a mesma coisa. A propaganda no fim dos anos 40 e até inicio dos anos 50, ensinou as pessoas a escovar os dentes, tomar banho com sabonete, usar os absorventes intimus e muito mais. E continua, ainda hoje, ensinando a usar o celular, o forno de micro ondas, a internet e tudo o que aparecer de modernidade.
    A propaganda teve e continua tendo uma importancia muito grande na formação do povo brasileiro.

    Tem gente, (uns miopes por aí) que acham não, mas não dá para esconder verdades irrefutaveis como essas.

    Ótimo o trabalho que V está fazendo ai na Africa.

    Um abraço

    Humberto

  2. Carlinhos

    Candongueiro
    Gui, você é impressionante. Entre os brasileiros que conheci da equipa da Engenho Novo, alguns com mais de 2 anos de Angola, nenhum havia viajado de candonga. Eu fui o primeiro, mas demorei um bom tempo para fazê-lo, muito por confiar em meus pés e querer exercitá-los nos mais de 10km entre a Ilha e a Vila Alice. Comentei com o Luiz (com quem troquei e-mails hoje e que falou com muito carinho de você) e ele me disse que em seus mais de 9 anos de Angola jamais havia andado de "taxi". E você em apenas um dia já desbravou essa fronteira. A integração se chama Guilherme. Grande Guilherme….

    Abraços do Carlinhos

  3. Andréa

    Beijão para você, Gui. Estamos aqui, te acompanhando à distância e lendo este blog tão bacana que você está escrevendo.

    beijos e saudade grande!

  4. Alexandre Azevedo

    A la Didier!
    Ae meu garoto!
    Bom saber notícias suas.
    Acompanharei atentamente suas matérias.
    A partir de amanha, vai a la Didier Drogba! Na luta, na raça e na força! Abraços meu brother!

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