Telê Futebol Clube

 
Já não há tantos meninos que esfolam os joelhos nos campos de várzea – a verdade é que já não há tantos campos de terra na periferia da grande cidade.
O tempo passou para os bairros e para os meninos, os costumes mudaram e até o interesse pelo futebol (o amor) não é o mesmo. Hoje os jogadores têm um porte atlético digno de qualquer praticante de esportes olímpicos – mas o preço do condicionamento físico é o desaparecimento do talento.
As táticas estão cada vez mais previsíveis e o futebol extremamente defensivo entristece a alma do torcedor. Os praticantes do futebol profissional perderam a essência do futebol brasileiro – lá se foi o jogo de cintura, a ginga, o improviso e a genialidade de pernas tortas.
A seleção brasileira de 1982 não venceu o Mundial da Espanha – mas até hoje deixa os olhos dos torcedores mareados por causa do futebol muito próximo das estripulias de Chaplin no cinema. Quando Sócrates, Falcão, Zico, Júnior, Éder, Cerezo (sim), Luizinho (e os demais jogadores) estavam em campo, algo de mágico acontecia.
Assista a uma seleção de gols da seleção brasileira de 1982:
https://www.youtube.com/watch?v=zZxvYy5-ekI
E, só para fazer justiça, que se inclua, com honra e mérito, o imenso Reinaldo (Rei! Rei! Rei! – Reinaldo é o nosso Rei!) como um jogador acima de qualquer média e que fazia, sem os joelhos, o que muitos jogadores com os dois não conseguem fazer em campo.
Só para situar os mais jovens: o centroavante Reinaldo, revelado pelo Atlético-MG, sofreu intervenções cirúrgicas nos dois joelhos e deles foram retirados os meniscos (cartilagens presentes na articulação – a função delas é diminuir o impacto e melhorar o encaixe do fêmur e da tíbia); assim, o jogador encerrou a carreira precocemente.
Veja aqui uma seleção de gols do centroavante Reinaldo:
https://www.youtube.com/watch?v=byOT5OJXUC4

No século XXI, o futebol avançou muito na medicina esportiva e é provável que o craque Reinaldo jogasse mais e melhor nos dias de hoje. O uniforme, por exemplo, é melhor (as camisas são mais leves), a chuteira é infinitamente superior às que eram utilizadas nos primórdios do futebol e até a bola dizem ser mais esférica.
O problema é o corpo que veste o uniforme e os pés que calçam as chuteiras e chutam a bola. Se os pés forem de um Neto, Rivelino, Pita, Ailton Lira, Dicá, Zenon, Dirceu, Nelinho e Marinho Chagas, a conversa, ou melhor, o grito é de gol.
Se os pés forem de um corredor ou de um superdotado fisicamente, a bola pode tomar vários rumos e, com alguma sorte, até mesmo a direção do gol. Não adianta injetar tecnologia no futebol, se os talentos ficarem esquecidos nos poucos campos de várzea, desprezados nas ridículas e vexatórias peneiras que os clubes insistem em repetir ano após ano ou mesmo impedidos, pelas escolhas baseadas no critério físico.
Se alguém tem alguma dúvida sobre como o futebol deve ser jogado, é só observar uma partida do Santos Futebol Clube (com um olhar isento de paixão pelo time) e ser testemunha de um futebol irreverente, acrobático, de nariz vermelho e extremamente difícil de ser batido.
Quem gosta de futebol deseja assistir a uma partida em que o amor esteja nos olhos da equipe e não apenas na chance de ser negociado com um clube do exterior. Ainda que o futebol seja um grande negócio, há quem acredite em apego emocional ao time, uma espécie de elo que leve o jogador a ser uma parte da torcida que entra em campo.
O futebol brasileiro escolheu uma forma de jogar e vale até a velha máxima de que a melhor defesa é o ataque. Tem gente maltratando a bola porque esqueceu os ensinamentos do “Fio de Esperança” – ele perdeu a Copa do Mundo de 1982 ou o futebol mundial perdeu a chance de ver na final aquela seleção irreverente, acrobática e de nariz vermelho?
No fundo, todo mundo que gosta de futebol bem jogado torce pelo mesmo time: Telê Futebol Clube.
 

Comentário