Telefone sem fio

Era um domingo. Como sempre, acordei cedo e aproveitei o começo da manhã para curtir minha filha. O tempo voou e já era o horário dela de fazer a visita de domingo ao pai. Ela vai, volto para o apartamento e ele parece vazio e sem vida. Meu coração chega a ficar apertado e começam as oito horas mais longas da semana.

Procuro me ocupar, colocar a leitura em dia, ver algum filme “on demand”, mas, por mais que tente preencher meu tempo, meu coração permanece pequeno. Busco o positivo! Esforço-me para me convencer de que é um tempo para mim. Um momento meu. A mente não acredita porque o coração fala outra coisa. E como li uma vez, o nosso coração é nosso primeiro professor. Não se engana, não mente jamais.

Opto por fazer uma defumação em casa e no meio disso um telefonema. Meu pai estava chegando para almoçar comigo e com a minha irmã mais velha e sua família. Ele me pegou, entrei no carro dele e nos dirigimos ao restaurante.

Um restaurante italiano. Escolhemos uma mesa nos fundos, um lugar com plantas, iluminação natural e ares de Itália. Ambiente agradável e equipe cortês e educada.

Minha irmã chega com a família. Minha sobrinha e afilhada, sempre sorrindo, corre e me abraça. Naquele momento meu coração volta a sorrir. Pego-a em meus braços e abraço-a com amor e gratidão. Não quero soltá-la. É como se ela retribuísse meus sentimentos, mesmo sem palavras.

As crianças escolhem onde querem se sentar. Minha sobrinha senta ao meu lado, do outro lado está meu pai e, na sequência, minha irmã, meu sobrinho e meu cunhado.

Fazemos o pedido. Conversamos um pouco e nos deparamos com o famoso e temido momento de como entreter as crianças. A ideia veio rápida e de forma simples. Não, não apelamos para eletrônicos, mas, sim, para uma brincadeira simplória e sem glamour: o telefone sem fio.

Cada vez a brincadeira se iniciava por uma ponta da mesa, por uma das crianças. Os adultos falavam a palavra “interferência” para dar a dica de que estavam fazendo uma pequena alteração na frase inicial para deixar ainda mais divertido o passatempo. Cada vez que chegava na última pessoa, todos riam muito.

Um pouco antes de a comida chegar, minha sobrinha fala ao meu ouvido: “O papai é cabeçudo”. Passei exatamente assim a frase, fiquei sem graça de fazer qualquer alteração. E fomos passando a frase. Pelo meu pai, pela minha irmã. Ninguém mencionou a “dica”.

Chegou ao meu sobrinho, depois ao meu cunhado, que estava pronto para falar a frase, quando meu sobrinho pediu para falar. Ele começa a rir e fala bem alto: “O papai é pirocudo”. A mesa veio abaixo. Rimos alto. E foi exatamente aí que percebi que meu coração estava novamente repleto de alegria e amor. Claro que não completo, mas bem perto disso.

Dava para ver um pouquinho de cada um ali. A pureza e a alegria das crianças, a força da família, a proteção do meu pai, o carinho da minha irmã e sem dúvida a irreverência do meu cunhado. Todos ali juntos, conectados com a alma e o coração.

Créditos da imagem: Mari Camargos (Brincando na Rua)

Um comentário para “Telefone sem fio”

  1. Maria Apparecida de Toledo Martins

    Essa foi otima

Comentário