Tem, sim!

A avenida Paulista aos domingos tornou-se praticamente um parque, por conta da restrição à circulação de veículos. Por um lado, o passeio é bem interessante, ora pessoas fazendo tai-chi-chuan na rua, ora todos desviando-se das bicicletas, dos skatistas, deles mesmos. Também palco dos artistas de rua, do artesanato, dos que perambulam nos passeios com os seus animais de estimação. Por outro lado, descortinou-se um grupo que vive à margem, carente de tudo, principalmente de dignidade.

Sim, falo dos moradores de rua e dos usuários de drogas, das crianças sem amparo e apreço.

Em um desses dias de outono, eu e minha mãe saíamos do cinema e, na esquina da rua da Consolação com a Paulista, fomos abordadas por uma jovem. Era negra, devia ter uns 25 anos ou menos, cabelos desgrenhados em um boné ou chapéu, não vi direito, trajava um short e um top, mãos queimadas pelas queimadas da pedra de crack. Não parecia que estivesse na “noia”, mas a fome transparecia naqueles olhos de ébano.

“Boa-tarde, querida, uma ajuda, por favor”, exclamou-nos e, por instinto, segurei a bolsa. Logo, minha mãe ficou na minha frente e freou-a, com medo que fosse mesmo um assalto.

A moça, contudo, foi que ficou com medo, voltou-se para trás e perguntou: “É a sua filha?”, apontando para mim enquanto eu pegava a carteira. Nisso, voltei e percebi o que não queria perceber: a moça estava grávida. Ela, por sua vez, abriu um sorriso sincero quando entreguei dois reais, me agradeceu e desejamos todas um bom domingo.

Voltando para a estação do metrô Consolação e, no interim, mais pessoas pedindo ajuda nos cercavam. Não tinha mais trocados e também não poderia ficar distribuindo dinheiro assim, infelizmente.

Já na plataforma da estação, assim que o metrô chegou em direção ao bairro do Paraíso, um menino forçava a passagem. Esse o observei bem, não devia ter nem 13 anos, era branco, baixo, rechonchudo, usava uma touca verde com vermelho, chinelos, uma blusa de frio marrom e camiseta branca. Também portava uma bolsa do tipo carteiro com o emblema da Prefeitura de Itapevi (Grande São Paulo).

“Moça, você tem trocado ‘prá mi’ dar?”, perguntou-me em meio a cutucões no ombro. Respondi (confesso, de cara feia) que não tinha.

“Você tem trocado, sim!”, foi a devolutiva.

Fiquei de boca aberta.

Jamais nesses anos vividos ouvi tal reação. Já ouvi de tudo, menos isso, mas nem deu para pensar muito: “Próxima estação… Paraíso”, anunciava o condutor do trem.

Descemos, pegamos o outro trem, este em direção à Sé, e, como aquele pensamento insistente e triste, eis que o menino de novo apareceu. E foi cutucando os outros presentes, um a um, pedindo trocados. Várias negativas, muitas reações: “Você tem, sim, mas não quer me dar, seu burro”, ele dizia para um. “Menino, para com isso… Se pegar um mais enfezado, se ferra”, respondia o passageiro, de braços cruzados, mas no semblante sabíamos que uma mão espalmada era o desejo.

“Me dá trocado?”, repetia. “Oh, menino, me desculpa, eu não tenho”, lamentava a moça que acabara de se acomodar no banco do vagão.

“Tem, sim, sua trouxa!”, era, literalmente, o troco do rapazola.

“Vou te mostrar quem é trouxa”, irritou-se a passageira, mudando de lugar. Até minha mãe levou um pito do menino, com direito a vários cutucões no ombro esquerdo. Negativa, e já sabemos a resposta:

“Você tem, sim!”

Na outra estação ele desceu e nós seguimos para a linha vermelha, em direção a Artur Alvim, para pegarmos o ônibus para São Miguel, na zona leste, onde moramos. “Desaforado demais esse menino, hein, Keli? Deu sorte que não foi morto ainda”, ela me disse.

Sim, é verdade. Mas, se pensarmos bem, tudo isso que ele esbravejou fora resultado do que ouviu (e ainda ouve) em todos os seus parcos anos vividos. Periga de, após um dia de trabalho forçado, tomar mais uma surra por não chegar com um trocado para sua família – se é que ele tem uma, diga-se –, e, consequentemente, para a sua sobrevivência.

Cada um usa suas estratégias para sobreviver: a gentileza ou a brutalidade.

Será que temos escolhas? Será que há solução? Será que existe futuro? Parafraseando o próprio menino, tem, sim.

Porém, essa bruta realidade, triste e insistente, teima em continuar a nos cutucar.

 

Foto: Keli Vasconcelos

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