Todo dia é dia

O ônibus estava lotado de gente que saíra do trabalho, de mães que buscaram seus filhos na escola e de estudantes a caminho da universidade. Assim que entrei, consegui um dos últimos lugares para me sentar, próximo ao corredor, já que o assento da janela estava ocupado.

Ponho os fones de ouvido e não presto atenção em mais nada. Além do som da música, os meus ouvidos capturavam também os ruídos que o ônibus fazia e a agitação de quem aproveitava a viagem para conversar.

Quando uma das músicas que era reproduzida no meu celular chegou ao fim, pude ouvir o trecho de uma conversa entre dois homens no banco à frente:

‒ O que os negros passaram na época da segregação racial na África do Sul não tem explicação.

Curiosa para ver o rumo daquela prosa, retiro um dos fones e ouço:

‒ Você já ouviu falar em Nelson Mandela?

A curiosidade aumentou ainda mais para saber quais seriam as informações que aquele homem negro iria dizer para seu colega, que fez um sinal de negativo com a cabeça como resposta.

‒ Ele foi um líder do movimento contra o apartheid, que lutava pela liberdade. Apesar disso, ele foi considerado um terrorista e passou quase três décadas na cadeia.

A explicação, tão simples mas tão concisa, me fez pausar a música para continuar espiando a conversa alheia:

‒ Esse apartheid proibia os negros, que eram a maioria da população, e os mestiços de exercerem seus direitos políticos, sociais e econômicos enquanto a África do Sul…

Apesar de interrompida a música, a arrancada do motorista, depois de parar em um ponto para o embarque de mais passageiros, atrapalhou que eu continuasse ouvindo a explicação.

Aproveitei o momento para observar o homem à minha frente, que dava aquela aula de história gratuita dentro do transporte público. Se não fossem os poucos fios brancos que insistiam em nascer na cabeça, quase careca, a pele negra, sem nenhuma marca de expressão, jamais diria que ele era um homem de meia-idade.

‒ O povo foi massacrado. A polícia atirou nos negros e 69 morreram e mais 180 ficaram feridos. Depois que o Mandela foi libertado, ele ainda ganhou o Prêmio Nobel da Paz e o respeito do mundo todo pela luta que travou contra o regime.

Algum passageiro, então, acionou o sinal para descer no próximo ponto e aquele barulho ecoou por alguns segundos, sendo o suficiente para que eu perdesse novamente a linha de raciocínio do professor.

Movimentei-me no banco tentando me aproximar para escutar mais alguma coisa. Abraço a minha mochila e me deito sobre ela para ficar com os ouvidos na direção do professor, mas tudo em vão. A conversa no telefone de um passageiro que estava de pé foi o que me atrapalhou dessa vez.

A minha esperança se resumia apenas em conseguir ouvir algum comentário do mais novo aluno, antes que um de nós três descêssemos do ônibus em algum ponto durante o trajeto. Ou, então, saber ao menos de onde surgira aquele homem disposto a ensinar.

Infelizmente, o meu destino se aproximara e, dessa vez, eu mesma é que tive de romper o som da sua voz para pedir ao motorista que parasse no próximo ponto. Antes de descer, olhei para o rapaz e, em seus olhos brilhando, estava a resposta que eu e ele procurávamos. O exemplo, do professor e de Mandela, encantou a nossa tarde.

 

Foto: Imagem de época retrata o apartheid na África do Sul, com a segregação entre brancos e negros, liderada por um governo branco. O regime segregacionista oficial vigorou entre 1948 e 1994. Nelson Mandela (1918-2013) foi o principal ícone da luta contra o apartheid, tornando-se presidente do país entre 1994 e 1999.

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