Três por quatro

 

Quem gosta de tirar foto três por quatro? Sinceramente, não conheço uma vivalma que aprecie tal situação, principalmente porque não podemos rir. E são raras as vezes que fico séria ao ser fotografada: ora escancaro um sorrisão amarelado pelo consumo de café, ora riso que quase escapa serelepe, quando ainda não faço um olhar de mistério. Mas no fundo é só para me segurar e não soltar uma gargalhada.

 

Isso me lembra uma vez, quando tinha uns seis anos. Minha mãe, prestes a dar à luz meu irmão, me chamou para sair numa foto no quintal de casa, quando morávamos em Cidade Nova São Miguel, no extremo leste da cidade de São Paulo. Lá o chão era de azulejos escuros, uma floreira de concreto e o dia estava bem ensolarado. Minha mãe me pegou no colo, me colocou em cima da floreira e posou junto comigo. Ela estava com vestido amarelo-clarinho, meu pai de camisa jeans e eu de faixa com frufrus cor-de-rosa na cabeça.

 

Meus dentes de leite da frente tinham caído e fiquei bem banguela, com um vão que dava para colocar a língua e sentir as pontinhas dos definitivos, que logo pululavam.

 

“Keli, quando seu pai tirar a foto, não dê risada”, alertou minha mãe, enquanto meu pai ajeitava a velha Kodak, que lembrava as câmeras espiãs de James Bond.

 

“Vamos lá, vou tirar”, ele falou, enquanto minha mãe me via com meu sorrisinho de canto de lábios. Assim que ele deu o disparo e ela virou o rosto, eu já estava com a bocarra aberta, mostrando as falhas dentárias (que me custaram quase seis anos de aparelho, aos quinze anos).

 

Nas fotos três por quatro, em somente uma, na infância, apareço sorrindo. Sempre fotografei no mesmo lugar, uma loja cine-foto-som no centro de São Miguel. Os atendentes eram dois senhores nipônicos, pai e filho, que sempre ajeitavam nossos ombros, largos por natureza, para dar enquadramento. Adorava ver aquele senhor de olhos puxados secando as fotos com um secador de cabelos. Depois ele as cortava com a tesoura e as entregava na carteirinha plástica, vermelha, azul ou preta.

 

Hoje a loja não existe mais e passei a frequentar outra, também no centro do bairro. Mas já faz uns cinco, seis anos, talvez, que não passo por isso pelo simples fato de atualmente pedirem imagens digitalizadas. Aí faço selfie em uma parede branca e envio online para quem a solicitou.

 

Pois bem, no final de agosto, precisei ir à lojinha para revelar algumas fotos digitais. A gente usa esse termo, mas na verdade é uma máquina que imprime em papel de boa qualidade do tamanho desejado, até pôster dá para fazer.

 

A fila estava pequena e logo apareceu uma senhora de cabelos longos e grisalhos, bem magra, com o rosto riscado pelas rugas, poucos dentes. Ela ignorou a fila, chegou ao balcão e perguntou ao dono, que estava baixando as imagens de outra cliente para o computador, quanto custava para tirar fotos três por quatro.

 

“Quatro são seis reais. Já seis fotos são dez”, respondeu, apontando para uma plaquinha que indicava os valores.

 

Aquele homem não disfarçou ao reparar no detalhe que todos tinham tentado disfarçar: a senhora, de casaco branco e saia comprida florida, portava um belo bigode de pelos grossos, igualmente grisalhos, além de uma pinta bem próxima do lábio superior.

 

“Mas precisava de só duas, moço”, continuou enquanto ele reiterou, passado aquele instante, que o mínimo seriam quatro fotos.

 

Conformada, a mulher pagou e foi para a fila, atrás de mim.

 

“Ai, vou ter que tirar foto”, disse.

 

“Também não gosto, senhora, fica muito ruim. Por mais que você se ajeite, se arrume, a foto sempre sai sem graça”, retruquei.

 

“Pois é, minha filha, eu sou obrigada porque preciso de duas fotos para fazer a matrícula num curso. E se não levar na hora da matrícula, posso perder a vaga”, explicou-me.

 

“Não se preocupe, vai passar rapidinho e logo a senhora já vai sair com as fotos”, exclamei enquanto ela replicava com um sorriso.

 

Nisso, a dona da lojinha a chamou para os fundos, no espaço para captura de imagens. Alguns minutos depois, ela já estava recortando as imagens com um cortador mais moderno, para várias fotos de uma vez. “Senhora, suas fotos estão prontas”, avisou.

 

A senhora pegou delicadamente aquela carteirinha preta e observou a si mesma com olhar que expressava tristeza e orgulho contido: “São loucos para tirar meu bigode, minha pinta… Rá, eu não tiro, não! Tô linda!”.

 

E foi-se embora contente fazer a matrícula com suas novas fotografias.

 

*Keli Vasconcelos é jornalista e escritora.


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