Tristes lições que vêm de Angola

Na sexta-feira, 8 de janeiro – dois dias antes, portanto, da abertura da Copa da África das Nações que acontece em Angola –, um grupo de paramilitares atacou na província angolana de Cabinda um comboio de veículos que acompanhava o deslocamento da seleção do Togo desde a República do Congo para participar do torneio. Na troca de tiros entre os rebeldes das FLEC (Forças de Libertação do Estado de Cabinda, grupo separatista que reivindicou a autoria do atentado) e forças de segurança do governo angolano, dois integrantes da comissão técnica daquela equipe morreram, além do motorista do ônibus. Entre os feridos, o goleiro reserva de Togo, Kodjovi Kadja Obilale, ficou gravemente ferido e corre o risco de ficar paraplégico.
O atentado mancha gravemente a reputação da organização do maior evento esportivo já promovido por Angola. A equipe do Togo abandonou a competição que reuniria as 16 melhores seleções da África em evento preliminar à primeira Copa do Mundo no continente, que começa em 11 de junho próximo, na África do Sul. Times europeus também tentaram evitar a participação de suas estrelas africanas no torneio em razão do atentado, mas não tiveram sucesso.
O triste incidente pode ser absorvido como um alerta aos organizadores da Copa do Mundo de 2014, a ser realizada no Brasil, e até das Olimpíadas de 2016, que têm como sede o Rio de Janeiro. A organização da Copa das Nações não avaliou corretamente os riscos representados pelo potencial de ação do grupo rebelde separatista e se viu surpreendida pelo ataque. Confiaram em um acordo firmado há poucos anos entre o governo de Angola e representantes da FLEC que havia minimizado as hostilidades. Vale lembrar que a Polícia Nacional de Angola mobilizou 32 mil efetivos em todo o país para garantir a segurança da competição, sem contar os homens das FAA (Forças Armadas Angolanas) que estão presentes em cada uma de suas 18 províncias.
Infelizmente, em vez de se tornar notícia mundial pela organização (que construiu quatro novos estádios nas cidades-sede da competição), pela qualidade do futebol apresentado e pelos resultados dos esforços angolanos em realizar um evento tão grande para um país independente há menos de 35 anos e que esteve envolvido em uma brutal guerra civil até 2002, o torneio recebe um carimbo inicial de dor e de tristeza.
A realidade brasileira
No Brasil, não existem grupos paramilitares representando frentes separatistas. No entanto, convivemos dia a dia com o terror do crime organizado em nossas grandes cidades. Não precisamos nos esforçar para relembrar episódios recentes de terror no Rio de Janeiro perpetrados por grupos vinculados ao tráfico de drogas; o domínio criminoso imposto a diversas comunidades por milícias formadas por policiais, também no Rio; ou dos ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital, grupo comandado por líderes do crime organizado a partir de penitenciárias) que paralisaram São Paulo em 2006.
As instâncias governamentais do país precisam agir rápido para tentar eliminar a força dessas facções criminosas antes que um potencial e triste incidente venha a acontecer durante esses grandes eventos internacionais de 2014 e 2016.
É preciso que sejam adotadas desde já soluções em diversas frentes na busca de neutralizar o poder de ação desses grupos criminosos. Para isso, é necessário o uso de estratégias de inteligência investigativa pelas polícias; reequipamento, modernização, treinamento e valorização das corporações policias; ação coordenada e rápida das polícias e da Justiça na captura e condenação dos criminosos; aplicação dos rigores da lei a partir de penas cada vez mais severas aos condenados; ampliação da oferta de vagas em penitenciárias modernas; adequação das prisões para controle absoluto das ações dos líderes criminosos que estejam encarcerados; e reforço no combate ao tráfico internacional de armas e de drogas.
Há, porém, outras iniciativas que podem ser muito mais efetivas, mas que dependem da vontade política e da reorganização de nossa sociedade para serem adotadas. O enfraquecimento do crime organizado passa sem dúvida pela valorização da população que vive próxima ou ligada a essas lideranças criminosas. Oferecer aos brasileiros educação e saúde de melhor qualidade; oportunidades de emprego e renda adequada; e a efetiva inclusão social de cidadãos e cidadãs que vivem à margem dos benefícios que o desenvolvimento tem garantido a muito poucos são os maiores desafios nessa luta contra a fábrica de criminalidade que funciona 24 horas por dia em nossas cidades.
É evidente que o curto espaço de pouco mais de quatro ou seis anos que nos separa daqueles dois grandes eventos esportivos é um elemento complicador para a aplicação efetiva dessas importantes medidas. Mas é interessante perceber que cada pessoa incluída na sociedade representa um menor potencial de exercício do poder para as lideranças criminosas.
A maldição da água lilás
Há outro elemento no caso de Cabinda que deve servir como lição a nosso país. Aquela província angolana é um enclave, isto é, está separada do território principal de Angola por uma faixa de terreno estrangeira. Até por esta característica, há anos vive sob a influência de grupos separatistas que buscam sua independência de Angola. Mas o principal elemento em jogo é que Cabinda é responsável pela produção de cerca de 70% de todo o petróleo produzido por aquele país, que é um dos maiores produtores da commodity na África.
Mesmo com tal potencial, Cabinda segue sendo uma província pobre, isolada, com infraestruturas precárias e uma população com pouquíssimas oportunidades de inclusão social. É natural que a população se volte contra o governo central diante do descaso existente. Junta-se a esta realidade a influência de forças e de grupos estrangeiros que enxergam na independência daquela região oportunidades ainda não disponíveis sob o comando angolano.
O escritor Pepetela, um dos maiores de Angola, tem um romance juvenil cujo título é “A montanha da água lilás”. Nele, o autor trata da história dos Lupis, seres cor de laranja que viviam na referida montanha e que um dia descobriram a água lilás. A água tinha poderes mágicos e curativos, trazendo uma sensação de felicidade àqueles que inalassem seu doce perfume. Na parábola de Pepetela, as disputas e a ganância despertadas pelo domínio daquele recurso natural levam ao esfacelamento da anteriormente harmônica sociedade dos Lupis.
Por duas ocasiões estive em Angola a trabalho. Uma em 2000, e a última muito recentemente, prestando consultoria justamente para o Comitê Organizador da Copa da África das Nações. Não sou especialista nem tenho capacidade e conhecimento para fazer uma análise profunda da sociedade angolana. Mas percebi nessas duas oportunidades que as riquezas de seu país são uma dádiva e um elemento de desestruturação. Parece que os angolanos, pelo menos aqueles próximos às esferas de poder, se consideram tão ricos que preferem delegar aos de fora a capacidade de transformar esta riqueza em oportunidades.
O Brasil descobriu há muito pouco sua “montanha da água lilás” sob uma espessa camada de sal nas águas profundas da Bacia de Santos. O país saberá lidar com a dádiva dessa riqueza ou perderá oportunidades se inebriando de seu odor, como um novo rico que se ilude com os encantos do dinheiro grande?
O debate já foi iniciado, especialmente porque a nova riqueza surge em territórios já ricos. Será que os “enclaves” brasileiros isolados, especialmente ao Norte e Nordeste, serão incluídos na distribuição dessa nova riqueza? Ou vai prevalecer a maldição da “água lilás” e o frágil equilíbrio social existente em nosso país será ainda mais desagregado?
 
Leia o blog “Na África”, de Guilherme Azevedo, de Luanda (Angola).

Um comentário para “Tristes lições que vêm de Angola”

  1. Guilherme

    Guilherme

    Excelente
    Carlinhos, sua análise é certeira.

    A água que queremos, né, meu amigo, é a que possa ser compartilhada, independentemente da cor.

    Parabéns pelo texto, tá muito bom.

    Abs,

    Gui Palanca

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