Um tour pelo Capão

 

Caríssimo Henfil,

De volta, com sangue nas veias e vergonha na cara, ouço os Racionais MCs, só para convidar os candidatos à Prefeitura de São Paulo a fazer um tour pelo Capão Redondo e redondezas.

A palavra capão, de origem tupi, “mato redondo” ou “intervalo de mata”, dá nome ao bairro Capão Redondo – que está localizado na zona sul da capital paulista.

O nome Capão Redondo foi dado ao bairro por seus primeiros moradores; motivo que os levou a usar a denominação foi existir, na região, um capão de araucárias, bem redondo, com cerca de cinquenta centímetros de circunferência.

Agora, que eles (os candidatos) já sabem a origem do bairro e que ele fica “da ponte pra cá”, é importante que se diga o quanto soa falso qualquer citação ou tentativa de aproximação deles com as pessoas que nascem, moram e tentam sobreviver e fazer arte nas periferias todas da zona sul.

Convido todos a fazer um tour – ou melhor, dar um rolê pelas quebradas do Jardim Rosana, Jardim Maria Sampaio, Mitsutani, Valo Velho e Jardim Ângela.

Quem sabe os candidatos não citem em debates televisivos o nome de lugares que eles desprezam – lugares em que as pessoas vivem esquecidas – ambientes em que a taxa de mortalidade é assustadora; locais sem saneamento básico, sem acolhimento às famílias carentes – sem atendimento médico, sem moradia decente, sem educação, cultura e lazer.

Talvez eles entendam que (da ponte pra cá), desde os anos setenta, no mínimo, a vida é sobrevivência – sofrimento, madrugada, marmitas e transporte de merda.

E os candidatos aparecem de tempo em tempo exibindo o mesmo sorriso idiota nos lábios. Qual é a graça? Quem foi criado no Jardim Rosana não se empolga com discurso vazio, conversinha mole de gente sempre interesseira, rasteira – à espreita para dar o bote e cravar as presas no pescoço dos trabalhadores.

Há um apartheid social e, enquanto implodem um Carandiru, dezenas de outros presídios surgem, afastados do centro de São Paulo, em cidades do interior. E a USP, um campus aqui e outro ali, para atender uma parcela mínima da sociedade.

Universidade para pobre e negro é sempre um investimento para o futuro – é um dinheiro usado no “mensalão” ou outro em sistema sujo de desviar recursos públicos. É tudo muito nojento e comum na política.

 

Mas, apesar deles, os saraus proliferam nos bares das periferias todas. A voz dos rappers e dos poetas ecoam e chegam aos ouvidos dos jovens e fazem com que eles pensem e sejam críticos, embora seja conveniente ao poder que ninguém questione a quantidade de porcaria feita em gabinetes luxuosos.

Bem-aventurados os professores(as) que ocupam a mente e o coração das crianças e que conseguem (em meio a um emaranhado de dificuldades) fazer dos estudantes pessoas melhores – gente muito melhor do que os homens que (infelizmente) os governam.

Bem-aventurados as mães e pais que sobrevivem honestamente e são os paradigmas para os filhos – que não se acovardam e mantêm a cabeça erguida, apesar de todas as dificuldades.

Bem-aventurados os meus amigos de infância, os meus irmãos, os meus pais e toda a simplicidade que deu minha envergadura – a gente simples que mantém de pé o homem e o poeta.

E por fim bem-aventurado o Jardim Rosana – um lugarejo guardado na memória – com suas vacas, pequenas hortas e um riozinho para nadar no verão.

Assim convido os candidatos à Prefeitura de São Paulo a dar um rolê pelo Capão e redondezas – um olhar para o passado, uma convivência presente e quem sabe um futuro mais justo – mais humano.

Arlindo Cruz canta o seu lugar com poesia magistral e linda, mas o Esporte Clube Rosana também tinha seu hino:

 

Se alguém perguntar

Se por acaso sou feliz

Eu sou feliz!

Rosana, sem você não sou ninguém

Ô-ô, ô-ô, ô-ô-ô, ô-ô

Rosana, meu primeiro amor

 

Um abraço,

Jornalirista

 

Um comentário para “Um tour pelo Capão”

  1. Guilherme Conte

    Gostei do texto! Saudades de SP!

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