Uma gota de sangue para uma de lágrima

Emenda de feriado, oito horas da manhã, doze sem ingerir um “quê” de alimento. Sacrifício em nome do contraditório: a saúde. Mas é necessário fazê-lo para um exame de sangue.

Na fila do laboratório, em São Miguel Paulista, na Zona Leste de SP, um casal chega com dois filhos. O mais velho, devia ter uns dez anos, carrega no braço direito, firmemente, as várias camadas de blusas e casacos do irmãozinho, e senta-se numa cadeira de estofado azulado. A mãe digita no celular e, distraída, não percebe o esposo a caminhar com o mais novo, de uns três anos, no máximo. Criança de pele parda, olhos negros, regata azul com um carro possante estampado, jeans e tênis. Eis que perpassa os corredores, distraindo-se.

Água, pequenos goles. Frágeis, o copo e as mãos que o carrega. Agora, o copo é um mero copo. Depois, na velocidade da angústia e da habilidade do pai prestativo, nasce uma margarida.

“Dezenove”, grita três vezes a atendente. Um homem, no banco ao lado daquela família, desperta assustado e, sonolento, ergue-se para fazer a ficha. “Vinte”, corre o pai com o menininho. E a mãe prossegue enfeitiçada pela luzinha do telefone, e o irmão mais velho continua em sua missão de irmão mais velho: cuidar dos pertences de seu irmãozinho.

Ficha feita, seguem para a sala seguinte, cuja porta exibe a placa prateada: “Coleta de Sangue”. Pai pega o filho no colo, e a enfermeira, cuidadosamente, segura a mão do menino: “Dá o braço pra tia”, diz com um sorriso de lábios lilases.

Uma agulha, um grito. Uma gota de sangue para uma lágrima.

A criança sai da saleta chorosa, estrebuchada, mal consegue andar, e o genitor vai novamente ao bebedouro. A margarida volta para o seu formato anterior. Com suas mãos diminutas, pega e engole com dificuldade o líquido contido, do mesmo modo que o seu soluço.

Um gole, um vômito.

O pai prestativo limpa o chão acinzentado com vários pedaços de papel-toalha, enquanto aquele pequenino ser observa, absorto, o seu novo, e destoado, acessório: um curativo “cor da pele”.

Assim, ambos seguem para o guichê onde encontram-se a mãe e o irmão mais velho. Ela, no celular, ele, segurando os casacos e blusas.

E eu sou a próxima para a “sala de tortura”.

 

 

Foto: Keli Vasconcelos

Comentário