Uma muleta, dois remédios

Dia desses, assisti a uma peça de teatro no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, região central de São Paulo. Era a história de um homem bem idoso, ciente do fim de seus dias, mas levava a vida de modo ranzinza, mas tão ranzinza que beirava a comédia. Uma das partes mais engraçadas foi quando a personagem insistiu em ir ao bairro do Jabaquara, na Zona Sul da capital paulista, para comprar um travesseiro. O que mais o irritava nem era a insistência do vendedor, mas a variedade de modelos. “Não quero um igual ao da Nasa”, referindo-se a tal modelo que tem tecnologia semelhante aos usados nas estações espaciais, “Quero um em que eu possa dormir”, esbravejava, durante o ato.

Saí de lá pensando em como tocamos a nossa existência. Muitas vezes, ela passa (es)correndo, debatendo-se como um passageiro dentro do trem lotado. Às vezes, desce pela goela rasgando como goles de quentão ou de vinho quente, e em algumas parcas situações se torna leve, como o silêncio provocado ao apreciarmos a lua cheia.

Pois bem, na Linha Vermelha do metrô, em direção à Zona Leste, teríamos carona de Itaquera para São Miguel, onde vivemos, e eis que apareceu no vagão um senhor. Devia ter mais de sessenta anos, estatura mediana, pele negra, olhos fundos. Calçava chinelas gastas, trajava calça escura de tergal, camisa fina de cor amarela e carregava duas grandes cicatrizes, sendo uma na testa e outra próxima do olho esquerdo, e andava com dificuldade, apoiado sobre muletas. Pressuponho que tais marcas no rosto foram adquiridas em uma queda.

Ele chegava perto dos outros passageiros, que, absortos, o ignoravam. Enquanto isso, em pé, minha mãe contemplava a noite pela janela do metrô, e eu estava entretida observando o povo. Então, depois de um tempo, ele se aproximou de nós, desatando a falar: “Tive que ir ao hospital hoje para buscar a receita de minha esposa, mas esses médicos não prestam atenção na gente. Olha só os remédios que ela usa e veja se ele não está doido”, disse-nos, sacando do bolso duas cartelas de medicação para dor e revelando que a dosagem de uma delas era de cinquenta miligramas.

Em seguida, o velho homem, de mãos grandes, dedos longos e unhas quebradiças e amareladas pelo tempo, nos mostrou o receituário, em que constava cem miligramas para tal remédio: “Cheguei na consulta com as duas caixinhas que ela sempre toma e ele nem olhou na minha cara, moça. Daí ele começou a marcar a receita e vi errado. Dei uma olhada bem feia para ele e falei: ‘O senhor tá doido, quer matar minha esposa?’. Ela toma cinquenta miligramas, não cem”, sentenciou, colocando tudo aquilo dentro do bolso.

Nisso, o vagão deu algumas sacolejadas, e o senhor teimava em se recostar na porta de embarque, para o nosso desespero. Afinal, ela abriria e ele poderia cair (mais uma vez?). O idoso deu um pulinho e equilibrou-se, ouvindo o abafado som no alto-falante anunciando a próxima estação, Artur Alvim. Como previsto, as portas abruptamente abriram e o senhor saltou para a plataforma.

Não deu tempo de dizer “tchau”, mas, para o nosso espanto, ele deu um leve soco no vidro enquanto estávamos seguras nos balaústres. O homem deu um sorriso, disse um insonoro “fica com Deus” e colocou a mão direita no peito, junto do coração; uma forma de expressar agradecimento por tê-lo ouvido.

Sim, a vida pode ser mais serena.

É claro que existem os dilemas que nós mesmos provocamos, os que são provocados por outros, os que simplesmente pululam no nosso cotidiano, mas pessoas como aquele senhor calejado, que demonstrou o afeto por pessoas que lhe deram atenção, só reforça essa certeza.

É como a lua: tem as suas fases, tem as suas facetas.

Mas ela está sempre por perto, para nos provocar o silêncio da esperança.

 

Foto: Keli Vasconcelos

 

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