Uma terra chamada Pindorama

Pajé Henfil,

Esta terra começou a ser adorada pelos conquistadores portugueses com a passagem do cosmógrafo Duarte Pacheco da Costa, que, segundo apontam alguns historiadores, tinha participado de uma expedição secreta que já havia chegado ao Brasil no ano de 1498. Terra fértil para o plantio, extração do pau-brasil e pedras preciosas – ocupada por nativos, aves, animais e tão vistosa com suas florestas tropicais e rios caudalosos.

O conquistador tinha pretensões escravistas – quis subjugar o povo que aqui estava, mas como reação os nativos embrenharam-se nas matas em fuga libertária. Mesmo assim houve amarras em forma de aculturamento – a imposição de um dogma, de outro idioma e até mesmo a mudança do nome do lugar onde habitavam antes da chegada dos portugueses.

Tivessem os nativos, como no poema de Oswald de Andrade, despido o homem branco – não só de suas vestes, mas também de sua ganância e hostilidade –, quem sabe o povo africano jamais fosse escravo e por aqui chegasse sem chibatas e correntes, como mais tarde aportaram italianos e japoneses.

Decerto as tribos não seriam dizimadas gerações após gerações até quase sucumbirem por completo no século XXI. Se os nativos tivessem despido o homem branco do seu preconceito e intolerância, talvez não houvesse tanto ódio e aversão ao longo das avenidas. Talvez os desdobramentos histórico-sociais não teriam caminhado para a realidade de corruptores e corrompidos e a distribuição de renda minimizasse a distância entre o país que faz três refeições por dia e o que segue faminto de justiça social.

Quando o homem branco aqui chegou, impôs sua ideia de “civilização” – de forma abrupta e violenta fez das relações humanas um verdadeiro morticínio e enclausurou homens em senzalas e mais tarde na liberdade bélica das favelas e em outros países europeus ditos civilizados criaram guetos e campos de concentração.

A verdade é que a humanidade (em diferentes épocas) vê a ascensão e queda de adoradores da morte – no caso do Brasil houve e há tortura desde o seu “descobrimento” até os dias atuais. Tortura-se em filas de hospitais, nas resoluções do Congresso Nacional, cada vez que alguém desvia verba pública, na falta de saneamento, na falta de moradia decente, no amontoado de gente entorpecida nas Cracolândias, nas Fundações Casa, nas instituições carcerárias, nas escolas destinadas aos filhos de operários, no discurso vazio e asqueroso dos candidatos.

A mentira instalada na alma dos partidos políticos é um cancro – algo a ser extirpado com o esclarecimento das massas – a educação em primeiro plano para combater algo que permeia todas as classes sociais: a ignorância.

Ainda que o mundo esteja escandalizado com as notícias sobre o Brasil, é preciso dizer que temos ancestralidades mais dignas – raízes advindas de uma civilização mais humana que habita uma terra chamada Pindorama.

 

Imagem: Cena da animação da música “Pindorama”, do grupo Palavra Cantada, inserida no DVD “Pé com pé”.

3 comentários para “Uma terra chamada Pindorama”

  1. Germano Gonçalves Arrudas

    Germano Gonçalves Arrudas

    Pois é essa é a herança, que uma nação deixou para nosso povo, belo texto valeu!

  2. Eliane Caffe

    Olá Silvio….que alívio ter a perspectiva para encarar esse momento tão achatado que estamos!!!

  3. Jótah

    Prezado Sílvio,
    Meu grande poeta do coração.

    Seus textos, sempre tão poeticamente críticos, discorrem palavras que toda boca gostaria de pré… anunciar. Mas, teus pensamentos, que falam através de suas mãos, são mais rápidos que o de toda gente. Gente como a nossa, que se sente representada através das suas ilustrações desenhadas por frases tão coerentes e até ardentes, assim como as velhas receitas de nossas avós… Deliciosas, mas com aquele leve toque de pimenta. Fraterno abraço deste seu amigo ilustrador… Jótah.

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