Vamos caminhar…

 

 

Cara-pintada Henfil,

 

Minha terra tem Palmeiras, Corinthians, Seleção Brasileira, Íbis e uma torcida que saiu às ruas do país e soltou um grito que estava aprisionado no DOPS das gargantas nossas.

 

Acredite! Os estudantes deram um cascudim bem dado na cabecinha de uma porção de gente que acorda, escova os dentes, toma café, obra (e como obram) pensando em como vão ajudar os mais necessitados. Será?

 

Os filhos dos caras-pintadas (o pessoal que disse não ao presidente-atleta) deflagraram um movimento para reduzir o valor das passagens dos transportes coletivos e conseguiram elevar o espírito de brasilidade, que estava adormecido em berço esplêndido – dentro de cada homem e mulher de bem desta nação adolescente.

 

No noticiário, na internet, nas redes sociais, a visão de uma senhorinha de 80 anos de idade, que engrossou uma das passeatas com um cartaz que provavelmente trazia os seguintes dizeres: “A minha parte é não ter partido/ Sou mulher de todos os séculos e caminho ao lado de quem empunha a bandeira da liberdade/ Meu peito é juvenil”.

 

É como canta o Zé Geraldo para Bob Dylan: “Ei você, que tem de 8 a 80 anos/ Não fique aí perdido como ave sem destino/ Pouco importa a ousadia dos seus planos/ Eles podem vir da vivência de um ancião ou da inocência de um menino/ O importante é você crer na juventude que existe dentro de você/ Meu amigo, meu compadre, meu irmão/ Escreva sua história pelas suas próprias mãos”.

 

Ouça aqui “Como diria Dylan”, por Zé Geraldo:

 

E os governantes? Aos poucos foram entendendo que as passeatas não eram caso de polícia e sim de reposicionamento moral por parte de quem foi eleito para ser lembrado pela dignidade, pela lisura e não pela quantidade de dinheiro público que conseguiu desviar para algum paraíso fiscal.

 

E a imprensa? Parte dela ficou meio acuada, porque empresta a mão direita ao diabo e a esquerda a Deus – e Deus é quem tem a maior aprovação popular, um dia foi o presidente-atleta, outro o presidente-metalúrgico, o sociólogo, o acadêmico do bigode vistoso, a primeira mulher presidenta e assim uma das emissoras do país constrói e desconstrói a imagem de quem desagradar os telespectadores – digo, eleitores.

 

Então, é assim: o momento é histórico e os políticos, pré-históricos. As ações democráticas vistas nas ruas estão muito distantes dos discursos – existiam arruaceiros (sim), existem arruaceiros que comprometem o futuro de gerações inteiras – homens que transformam água em cicuta – homens que engolem trigo e cospem gafanhotos – homens cercados de estupidez e medo.

 

E como diria Dylan, em “Blowin’ in the wind”: “Quantas estradas um homem precisará andar/ Antes que possam chamá-lo de homem?”.

 

Vamos caminhar…

 

Jornalirista

 

 

Veja aqui Bob Dylan interpretando “Blowin’ in the wind”:

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