Vazio e plenitude

Era tarde de quinta-feira quando o telefone tocou. Uma amiga de minha mãe, sucumbida numa tristeza que dava para sentir do outro lado da linha: “Sua mãe está? Preciso falar com ela”, disse a voz rouca. Entreguei o telefone e fui para o notebook enviar alguns e-mails, mas sem deixar de acompanhar a conversa das duas. Quinze minutos depois, perguntei-lhe do ocorrido.

“Ela ligou para avisar que a Pitucha havia morrido e, chorosa, falava da casinha vazia da cachorrinha, que estava bem mal. Mas já era de esperar, não é? Afinal, foram quinze anos de convivência”, exclamou minha mãe, emendando que consolou a amiga dizendo que a cachorrinha estava num bom lugar e não mais sofrendo como antes, sem comer direito e já cega.

Ouvi toda a conversa e, mesmo abstraída, me comovi com aquela situação, pois a grande aventura chamada “vida” só tem uma única certeza, o fim.

Pois bem, no outro dia, tinha uma consulta no bairro do Tatuapé, na zona leste da capital paulista. Acordei cedo, guardei os documentos na bolsa e segui para a estação de trem de São Miguel Paulista.

Quase que diariamente, quando preciso ir a um compromisso ou mesmo comprar algum mantimento, sigo o itinerário que passa pela casa de José Abílio Moreira, o seu Abílio, primeiro personagem que relatei aqui no Jornalirismo, há oito anos. Ele ficava sempre no portão, sentado numa cadeira e nos cumprimentávamos. A devolutiva era sempre a mesma: “Felicidades, minha filha”. Entretanto, tinha um bom tempo que não o encontrava, muito menos recebia o cumprimento dele.

Naquela sexta-feira, porém, a má notícia tinha chegado: a rua onde morava estava lotada, um aglomerado de parentes, vizinhos, conhecidos e pessoas da igreja que ele frequentava.

Seu Abílio, dias antes, foi operar do fêmur e o coração cearense não suportou o tranco. Fiquei consternada, confesso. Mesmo sabendo da fragilidade e da idade avançada, jamais esperaria tal fim.

O dia seguiu, o outro também e, no domingo, fomos à feira, programa tradicional de todas as manhãs. É comum frequentarmos as mesmas barracas e “uma delas é a de bananas, comandada por um senhor pernambucano, bem simpático, sorriso fácil por detrás dos óculos”. Coloquei aspas nesse trecho porque foi justamente o que escrevi, há dois anos, aqui na crônica “Pencas de justificativas”.

No último domingo, porém, demos de cara com um espaço vazio entre as barraquinhas de banana. “Você soube o que aconteceu?”, perguntou o feirante para nós. E selecionou as palavras, com choro preso: “Ele faleceu. Era meu compadre, ficamos sem chão. Só tinha 62 anos. Foi um ataque fulminante do coração”.

Naquele instante, eu que fiquei sem chão.

A casinha vazia.

A cadeira vazia.

A barraca vazia.

Daí, percebi que não é apenas a certeza da finitude. O vazio que ela nos provoca e as lembranças que nos preenchem são outros nortes que rondam a nossa existência.

 

 

Foto: Keli Vasconcelos

 

Comentário