Vestidos de Aurora

Após quase dez anos, o notebook que uso para escrever o que você lê pifou. Incentivada pelo meu irmão, fomos à região da Santa Ifigênia, no centro da capital paulista, conhecida pelo vasto comércio de eletrônicos. Confesso que não sei andar direito por lá, então, primeiro ele me levou de carro, depois eu e minha mãe seguimos de metrô. Nessa segunda volta, descemos da estação República do metrô e a pé fomos pela rua Aurora. Era uma manhã de quinta-feira, pós-feriado de aniversário da cidade, e o clima ainda era de folga, sem muito movimento.

Comecei a observar os prédios antigos, com ares de anos 1920, degradados pelo tempo, contudo. Ali também se descortinava a realidade que tanto sabemos, porém teimamos em ignorar: moradores de rua deitados em seus leitos de concreto, as calçadas, e estas recobertas por lixo, restos de comida e até mesmo se viam excrementos. Como diria minha mãe, “infelizmente, quem vai deixar um ser humano naquela situação usar o sanitário?”. Jamais pensei em tal situação, refleti.

Vez ou outra, um gari tentava, em vão, limpar o espaço. Enquanto as vassouras varriam, os botequins estavam um tanto vazios, tristonhos em meio às casas de massagem, cines privês, cortiços. “Dark room”, “Sauna a vapor”, “Sex shop”, algumas das palavras que estampavam os prédios. Já na farmácia, anunciava o famoso remedinho azul para disfunção erétil a R$ 19,99 a unidade e no chão, duas embalagens do produto já usado comprovavam a lucratividade praquelas bandas.

Entre um prédio e outro, deparamos com uma loja de vestidos. Eu, que aprecio demais tal vestimenta, dei uma espiada na vitrine e percebi que a porta do estabelecimento estava fechada. Passei os olhos, conferi o preço e seguimos até a assistência técnica. Sem sucesso, somente na semana seguinte que o equipamento estaria pronto.

“Bom, não demos viagem perdida. Vamos à loja de vestidos”, sugeri. Chegando lá, vimos que a porta de vidro permanecia fechada, mas uma moça, devia ter mais de 40 anos, nos observava pelo espelho nos fundos do espaço. Abri a porta e, simpaticamente, aquela jovem mulher nos convidou a entrar.

“Olá, sejam muito bem-vindas”, alegrou-se e emendou: “Fiquem à vontade”.

Agradecemos e olhamos as araras, mas um modelo me chamou a atenção e decidi experimentá-lo. A dona da loja começou a puxar conversa, enquanto nos direcionava até o provador. O vestido tinha ficado bom, mas não sabia ajustar as alças, nem minha mãe. Prontamente, a mulher ajustou-as e sorrindo falou que fiquei linda. Abri um sorriso e fui trocar de roupa, enquanto a moça foi ao caixa, fechar a compra.

Nesse interim, minha mãe atentou-se: “Puxa, filha, que força de vontade! A moça só tem um braço e conseguiu ajustar as duas alças. Nós, com duas mãos, não conseguimos”.

Fiquei de boca aberta.

Não tinha reparado que a simpática mulher não tinha o braço direito. Também confesso, não tive coragem de perguntar os motivos da amputação e, certamente, perder sorriso e carisma daquela pessoa, que com seu comércio enfeita a (rua) Aurora.

Levei o vestido e ela nos desejou uma boa-tarde.

Dias depois, eu retornei, para buscar o notebook. “Estaria ela na loja?”, pensei. Passei e lá estava com um sorriso enorme, acenou com o braço esquerdo, enquanto repousava uma peça de roupa na arara.

E eu segui meu rumo, vendo que mesmo no crepúsculo daquela rua podemos contemplar uma aurora que nos espera.

 

Imagem: Keli Vasconcelos

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