VIPs: A história de todos nós

Finalmente assisti a VIPs, o filme. Se tem um cara com quem trabalhei um dia e de quem nunca me esqueço é o diretor, Toniko Melo.

A ocasião foi em um filme publicitário produzido pela O2, em que me colocaram para carregar a réplica de um piano, por mais de oito horas diárias, durante três dias, e que pesava no mínimo uns trinta quilos. Foi foda.

Apesar de ter uma baita duma massagista maravilhosa, que mais animava meus hormônios do que aliviava minha dor, saí de lá praguejando aquele diretor que me fizera repetir diversas vezes a mesma cena e tudo por causa de mínimos detalhes técnicos que só ele e mais ninguém detectava. É claro que, depois de ver o resultado, calei minha bronca e entendi-o. Quer dizer…

Mas entendi tudo muito melhor agora, ao fim da sessão. O ritmo alucinante de VIPs é uma grande sacada e quase uma novidade. Novidade, porque é algo em que acredito e pouco vejo. Nada comum. Vem apoiado exatamente nos pequenos detalhes, imperceptíveis para tantos. E isso faz com que a gente não despregue os olhos da tela por nem um instante sequer.

Está tudo no lugar. Cada elemento faz parte e acrescenta à história. É tudo muito bem construído e amarrado. Uma finalização quase rara no cinema nacional. E olha que nunca me atentei muito a isso, mas o capricho é tão grande que não teria como deixar passar batido.

Não à toa Toniko é um dos melhores diretores de cinema publicitário do nosso país. Isso, no cinema, soou como mérito e, na minha opinião, coloca-o na mesma posição nesta sua nova carreira. Vê-se de imediato quão promissor ele é na sétima arte.

Simplicidade

Optaram por uma narrativa simples e linear, boa quando o objetivo é contar, em particular, a história de alguém. E o que faz o filme agradar o grande público não é a forma que escolheram para conduzi-lo, pois dizem por aí que essa estrutura cinematográfica simples e linear é construída exatamente para isso. Grandes críticos, sempre na busca do que dizer, acabam caindo em suas armadilhas igualmente clichês.

A arte é “libertadora” e nos oferece infinitas possibilidades de acesso e construção. É mais do que um filme comercial, porque não propõe só o entretenimento. É, sobretudo, artístico, apesar de todo benfeito e bonito; VIPs consegue nos fazer refletir e ainda é preenchido com críticas, provocações sobre a fútil sociedade consumista. Mais do que a história de um mentiroso, a de Marcelo Nascimento da Rocha, aquele que enganou todo mundo (ou quase) dizendo-se filho do dono da empresa de aviação Gol, ou qualquer outra coisa, o filme fala da história de um sonhador e é por isso que pega. Desafia-nos. Quantos sonhos temos guardados em gavetas?

Marcelo, que também tem tantos outros nomes, para realizar seu sonho, não se impõe limite. Vai além do que imaginava ser capaz, embora, de alguma forma, sempre soubesse que lá poderia chegar. É óbvio que, de praxe, em algum momento, se perderia. Crise de identidade. E quem de nós sabemos quem somos na realidade? O cara permitiu-se ir além. Arriscou e daí, talvez, tantos conflitos. Mas não se deixou vencer por isso. O filme é construído sobre arquétipos e oferece essa grandeza e tanta identificação.

Fala-se muito sobre Wagner Moura, que vive o protagonista. Sem dúvida, está espetacular. Não é por acaso que vem sendo considerado o ator do momento, mas o elenco todo está à altura. Vê-se uma grande homogeneidade. Ninguém muito além e muito menos aquém e isso, certamente, em grande parte, é também mérito da precisa direção. Mais surpreendente do que o protagonista, para mim, é o diretor.

VIPs toca e é, estou convencido, a história de todos nós.

Filme: VIPs (Brasil, 2010, 98 min.)
Direção: Toniko Melo
Fotografia: Mauro Pinheiro Jr.
Roteiro: Bráulio Mantovani, Thiago Dottori
Elenco: Wagner Moura, Gisele Fróes, Juliano Cazarré, Jorge D’Elia, Norival Rizzo, Amaury Jr., Roger Golbeth.

Assista aqui ao trailer do filme:

https://www.youtube.com/watch?v=6kP_-DLoHHI

 

6 comentários para “VIPs: A história de todos nós”

  1. Marcelo Henrique

    Grande, Paulinho! Demais, brother. Gostei muito. Continua nessa pegada, mano! Grande abraço.

  2. Guilherme

    Guilherme

    Obrigado
    Joana, muito obrigado. Será sempre bem-vinda por aqui.

    Bj,

    Guilherme

  3. Joana

    Adorei a crítica. Muito bem escrita. Tenho visitado o site e parabéns, espero continuar encontrando artigos tão bem escritos, completos e interessantes por aqui!

    Abeaços a todos!

  4. Magellys

    Eh isso mano, falou e disse !!

  5. Bruno Agulhari

    Valeu Paulinho! Ainda não tá rolando aqui em Campinas, mas depois de ler seu texto, vou ficar atento pra não perder. Abraço, nêgo!

  6. Vander José das Neves

    Maravilha Paulinho. É isso aí meu brother, muito bom mesmo. Abração.

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