Você quer mesmo um carro?

Eu quero um carro, você quer um carro, ela quer um carro, ele quer um carro.
 
Pelo menos nas grandes cidades brasileiras, carro é um objeto de desejo. Este ano, a indústria automobilística do país vive uma ótima fase. No primeiro semestre, foram vendidos 1,08 milhão de veículos novos, de acordo com a Anfavea (Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores). A cifra é recorde e representa uma expansão de 25,7% em relação aos primeiros seis meses do ano passado.
 
A frota de carros no país cresceu mais de 8% entre março de 2006 e março de 2007. No mesmo período, a taxa de crescimento da população brasileira foi bem mais baixa: menos de 1,4%.
 
Mas, em São Paulo e no Brasil, quem anda de carro? Ainda é a minoria, certamente. A população brasileira estimada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) beira os 190 milhões. Em contrapartida, o país tinha, no mês de março, uma frota de 28,2 milhões de automóveis, de acordo com o Denatran (Departamento Nacional de Trânsito). No Censo de 2000, o IBGE contou quase 45 milhões de domicílios no país e só um terço contava com ao menos um veículo.
 
Da frota que o Denatran contabilizou em março, mais da metade está concentrada na região Sudeste. Só no Estado de São Paulo, eram 10,4 milhões de carros.
 
O mercado de motos vem crescendo na mesma proporção. No primeiro semestre, foram vendidas 790 mil motos novas, de acordo com a Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas e Similares). Na comparação com os seis primeiros meses do ano passado, a expansão foi de 25,8%. Ainda de acordo com o Denatran, o país contava com 8,2 milhões de motos em março, sendo mais de 2,1 milhões no Estado de São Paulo.
 
Quem tem ou deseja um carro ou uma moto quer mobilidade. Mas quem disse que esses carros e motos cabem na malha viária das cidades e conseguem trafegar com fluidez? São Paulo, a maior referência, mostra que a circulação é difícil. O trânsito paulistano é uma carnificina, especialmente para os motociclistas, os mais vulneráveis aos acidentes violentos. O histórico de congestionamentos é antigo. Para tentar contê-los e contribuir para a melhora da qualidade do ar, a Prefeitura implantou, há dez anos, o rodízio de veículos no centro expandido da cidade. Um quinto dos carros, de acordo com o número final da placa, é proibido de circular na região nos horários de pico (das 7h às 10h e das 17h às 20h) durante a semana. Quem desrespeita a regra fica sujeito a ser multado.
 
Mesmo com a restrição a uma parte dos veículos, os congestionamentos travam a vida do motorista que não está impedido de circular. Nas principais vias da cidade, os congestionamentos chegam facilmente a cem quilômetros nos horários de pico, nas contagens da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego). Na primeira semana deste mês de julho, a Prefeitura experimentou suspender o rodízio, e o sabor foi amargo. Na sexta-feira, dia 6, a CET contou 201 quilômetros de congestionamento às 19h30, o recorde do ano. A volta do rodízio na semana seguinte foi inevitável.
 
Esse entupimento das veias vem acontecendo numa cidade que há décadas prioriza o carro, com numerosas obras viárias: retificação de rios e córregos para a construção de avenidas às margens ou acima dos leitos, alargamento de pistas, construção de pontes, túneis e viadutos. O mesmo acontece em outras cidades brasileiras. Brasília, por exemplo, conta com largas avenidas, porque foi planejada nos anos cinqüenta para ser uma cidade do automóvel. A menos de três anos do seu cinqüentenário, a cidade ainda privilegia os carros, que vão congestionando as vias. A facilidade que a estrutura viária de Brasília proporciona para a construção de corredores de ônibus não foi aproveitada, e o transporte coletivo da cidade é deficiente.
 
Dar preferência ao transporte individual não tem sido solução para as cidades. Tem sido, a bem da verdade, uma aberração, porque representa o descaso e o desrespeito com a maioria que não tem carro e depende de outras formas de transporte. Além disso, tem provocado prejuízos econômicos, ambientais e de saúde.
 
Cidade para a maioria
Experiências nacionais e internacionais mostram que o caminho a seguir é outro: fazer a cidade para a maioria; reorganizar os locais destinados à habitação, ao trabalho, ao estudo e ao lazer; restringir ainda mais a circulação de carros e priorizar os sistemas de transporte coletivo e transporte não-motorizado.
 
Em entrevista recente à rádio CBN, Luiz Célio Bottura, consultor em engenharia urbana e especialista em trânsito, disse que o Brasil precisa aprender a fazer cidades: “O nosso grande empreendimento são as cidades e as cidades estão desequilibradas. Temos que saber fazer e reciclar cidades. Uma cidade inteligente é aquela onde as pessoas precisam se deslocar pouco, sem zonas exclusivas para comércio, indústrias e residências, com uma mistura maior de atividades em cada área. Não adianta você fazer mais avenidas e mais metrô, empurrando as pessoas para as bordas das cidades, porque elas saem de lá pela manhã e voltam à noite. Quando as pessoas precisam se deslocar por quilômetros e quilômetros, horas e horas para buscar trabalho, lazer e conhecimento é sinal de que a cidade está errada. Não há dinheiro no mundo que faça a infra-estrutura necessária – avenidas ou sistemas de transporte – para deslocar tanta gente que mora tão longe”.
 
Também em entrevista à CBN, Marcos Bicalho, superintendente da Associação Nacional de Transportes Públicos, afirmou que andar de carro deverá ficar cada vez mais caro: “Quem tem carro é uma parcela minoritária da população e a cidade é feita para essa minoria. A mobilidade urbana baseada no automóvel torna as cidades insustentáveis. A tendência é de saturação do tráfego. Não havendo mais soluções técnicas para o trânsito, será preciso procurar soluções bombásticas, como o pedágio urbano. Andar no transporte coletivo tem de ser mais barato do que andar de carro. A chave central é diminuir o grande número de viagens de automóvel e melhorar os meios de transporte ambiental e socialmente mais justos”.
 
Além do pedágio, a circulação dos carros também pode ser reduzida com o encarecimento do estacionamento nas vias centrais e nas mais movimentadas. A posse do carro também pode ser sobretaxada. Segundo Luiz Célio Bottura, em países como o Japão, as tarifas para a compra de um carro novo e para a renovação do licenciamento são caras. Marcos Bicalho frisou que o dinheiro arrecadado com essas taxações deve ser investido no transporte coletivo e no transporte não-motorizado.
 
A minoria motorizada deve, então, reavaliar os hábitos e repensar o uso do carro. Fugir dos horários de pico já seria uma boa medida. Ainda assim, usar o automóvel diariamente e em todos os deslocamentos não parece a opção mais sensata. Sair de carro é aumentar a emissão de gás carbônico, poluir mais o ambiente da cidade e agravar o efeito estufa do planeta. Se conseguir reduzir a quantidade de deslocamentos de carro, o cidadão diminuirá o gasto com a manutenção do veículo, economizará o dinheiro do combustível e o do estacionamento. Encarando o trânsito todos os dias, corre o risco de se estressar mais e ficar mais exposto a acidentes. Deixando o carro em casa, passa a ter uma vida menos sedentária. No transporte coletivo, pode usar o tempo do deslocamento para fazer leituras, o que é praticamente impossível ao dirigir um veículo.
 
Convém considerar as hipóteses de morar mais perto do trabalho ou numa área com maior oferta de transporte. O preconceito contra o transporte coletivo precisa ser combatido. Para quem só anda de carro, há que se perguntar: há quanto tempo você não anda de ônibus ou metrô? Será que é insuportável, mesmo? E se é, não é hora de cobrar melhorias com vigor? Também é hora de exigir ciclovias para pedalar e uma calçada melhor para caminhar.
 
Sentado no banco do motorista, protegido pelos vidros e a lataria e tendo um motor para acelerar, muito cidadão pacato se transforma e se torna agressivo. Andar de carro é evitar o contato cara a cara com as pessoas. Se o número de pessoas que saem de carro diminui, o espaço público pode ser tomado por uma forma de convívio mais saudável na cidade.
 
Eu ainda quero um carro? Você ainda quer um carro? Ela ainda quer um carro? Ele ainda quer um carro? É isso que queremos? Se ainda queremos carros, é preciso ao menos saber quando e quanto usá-los.

4 comentários para “Você quer mesmo um carro?”

  1. Mariana

    Legal…
    A importância de usar transportes coletivos, um tio meu me ensinou.

  2. Lis Vilaça

    Se eu quero um carro?!
    É, meu amigo! Concordo com você! Já não quero um carro.
    Aliás, atualmente, também já não quero um avião!
    "Eu não quero voar, você não quer voar, ela não quer voar, ele não quer voar"
    Parabéns pelo texto!!!

  3. Luciana

    Muito bom mesmo
    Ótimo texto. Realmente, é preciso mais consciência e menos egoísmo.
    Que bom seria se todas estas idéias fossem bem aproveitadas!
    Parabéns!

  4. Gallo

    sensacional
    Tenho algumas considerações a fazer, mas te digo depois, pessoalmente.

    O texto está ótimo. A idéia também.

    Eu também quero um carro. Mas continuo sendo a favor do rodízio ao contrário.

    Abração.

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