Votar

 

A sala de aula onde trabalharia como mesária, pela terceira vez, é nova, no sentido de localidade, pois as carteiras e mesas já estavam surradas pela ação do tempo. A direção da escola decidiu mudar todas as seções de lugar, o que gerou alguns desentendimentos com quem estava acostumado, havia anos, a votar nas mesmas salas, sem memorizá-las.

 

Os eleitores também mudaram. Uma das eleitoras, por exemplo, não poderia mais votar, porque falecera meses antes. Era uma vizinha de São Miguel Paulista, no extremo leste da cidade de São Paulo, onde vivo. Leucemia a levara para nunca mais voltar, ou para outro talvez neste grande talvez que é a vida. Sobrara apenas um número no livro de votantes.

 

Eis que, entre idosos e jovens que chegavam, uma senhora apareceu na seção. Trêmula, proferindo frases desconexas, trajava um short e uma camisa estampada com “Campos do Jordão” em letras bordadas. Uma das mesárias deixou-a passar, mas quem votaria era a acompanhante, uma mulher troncuda, de jeans e camiseta preta, cabelo vermelho.

 

Aquela senhora aguardou em pé mesmo, segurando na mão da mesária. Quando a acompanhante terminou de votar e se dirigia para a saída da sala, a outra senhora, que a esperava, iniciou um choroso urro. O que era então inaudível manifestou-se em som:

 

– Votar… quero votar!, dizia, enquanto balançava alguns comprovantes de votação de anos anteriores.

 

– Mãe, para; a senhora não vota mais!, repreendeu a acompanhante, que até então não sabíamos que era filha.

 

A mãe, por sua vez, insistia em votar e ficou um tanto nervosa, soltando-se da mão da filha, que, agressivamente, apontou o dedo em riste para aquele rosto inerte, enrugado pelo tempo, sofrido pelas condições que agora possuía.

 

– Vamos embora, mãe, a senhora não vota mais!

 

A outra mesária, que ficava no terminal onde se digita o número do título de eleitor, não sabia o que fazer. Além de ser a primeira eleição dela, também não tinha noção de como proceder naquele momento. Assim que terminei de atender um idoso, entregando-lhe o comprovante de votação, disse, sentada mesmo em meu canto:

 

– Senhora, me desculpe, mas não vota aqui…

 

– Votar, quero votar!

 

– Ela não vota mais, moça. Faz tempo, a filha me respondeu.

 

Olhei nos olhos da mãe e repeti, com mais calma, mas com o coração sacolejando:

 

– Senhora, vi aqui no livro e não tem o seu nome. Sua seção não é aqui. Por favor, desce com a sua filha até a secretaria, que lá saberá onde fica, tudo bem?

 

– Não é aqui?, ela me perguntou, tristonha. Tristonha como uma criança que quer um presente e recebe um não de regalo.

 

– Não é aqui, mas a senhora desce e pergunta. Daí encontrará a sala para votar.

 

Eu respondi com um sorriso. Riso da criança que pega aquele não como uma folha de papel e faz um barquinho em alto-mar.

 

Aquela mulher, feliz por ter recebido atenção, devolveu o sorriso, agradeceu e as duas partiram.

 

Eu, que estava contente por ter ajudado um cego a carimbar seu polegar direito no livro de votantes, enalteci o instante efêmero de ver votar aquela gente numa tarde de domingo.

 

*Keli Vasconcelos é jornalista e escritora.

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