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Estava parado no farol vermelho, quando ouvi uma quase algazarra bulindo do lado. O auto à esquerda era um caminhão-guincho, com um carro por cima. No banco do copiloto, dois meninos arregalavam os olhos, pela janela, enquanto falavam sem parar. Um homem compenetrado, silencioso, segurava firme o volante, sempre olhando à frente.

Um dos meninos, o mais perto da janela, tinha olhos verdes e parecia muito com o homem que dirigia o caminhão; o outro usava óculos e exibia sorridente os metais do aparelho nos dentes.

Devia ser bom olhar o mundo de cima, caminhão tem destas vantagens, deixa todo mundo lá embaixo, inferior, parece que a gente vai voando pelo mundo. Menino sabe dessas coisas.

É uma cena recorrente, essa, durante as férias escolares: na falta de melhor programa, ou, muitas vezes, por ser exatamente o melhor programa, os filhos vão trabalhar com os pais.

Para muitos filhos e, para mim, inclusive, era uma alegria só trabalhar com o pai. Quer dizer, de trabalho, mesmo, a gente fazia muito pouco, ficava ali mais admirando, aproveitando as muitas vantagens e atrações que o escritório do pai tanto oferecia, os bons amigos, o movimento diferente, coisas inimagináveis, embebidas em pura magia de algodão com um grão de feijão que brota.

Reconheci aquele olhar tão familiar, de olhos esbugalhados brilhantes, do entusiasmo alegrando dentro da gente e irradiando pelas janelas irisadas, naqueles meninos do farol. O trabalho do pai, claro que ele era o maior barato, um pai que tem um caminhão-guincho é Deus.

Correr as estradas e avenidas observando tudo do alto, para resgatar as pessoas, engatar depois as travas, as cintas e puxar para riba os carros adoecidos, com o motor do caminhão bramindo e o escapamento soltando fumaça pelas ventas. Isso tudo era absolutamente fantástico e heroico. Orgulho de filho pelo pai.

O meu pai foi publicitário e, daí, veio o gosto pela atividade, com tudo que ela tem de legal. Veio o gosto pelo bom humor, pela inteligência leve e sutil e até o amor pelos trocadilhos infindáveis e aquelas musiquinhas irritantes sem fim, repetidas à exaustão, que, de repente, a gente se botava a repetir, também, como cultura popular familiar. Já falei dessas coisas outros dias, estou me repetindo, deixa pra lá.

As férias escolares são também boas por isto: não tem com quem deixar o filho, vai trabalhar com seu pai. Um desses meninos, desses que aprontam um bocado como todo menino, chegou outro dia do trabalho com o pai, que é pedreiro, lembrando da labuta com as mãos nas costas.

Trabalho de pai-pedreiro é duro, concretamente, reconheceu o menino. Tudo bem que a madrasta aproveitou a deixa para dizer que, se ele não estudasse, ia “ficar igualzinho ao seu pai”. Mas todo menino quer ser igual ao seu pai, eis a verdade, e que bom que seja assim.

Pois, nesse Dia dos Pais, eu gostaria de dar um abraço em todos eles, que, com seu ofício e exemplo correto de lixeiro, eletricista, engenheiro, padre (sim, vivam os padres casados!), jornalista, vendedor, operário, comerciante, bancário, médico, professor, agricultor etc. etc. etc., apresentaram aos filhos a beleza que é o mundo e a nossa função importante nele.

 

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Comentários
PAI HERÓI
Shellah Avellar | 30/07/2010 |  
Glória aos pais-heróis que tivemos a felicidade de ter!
E salve - salve os
pais que são tb mães !
E às mães que são tb pais !
E a todos os homens e
mulheres que compreendem verdadeiramente a função de artífices ,pedreiros e
escultores do caráter.

Abs mis a todos
Que presentão!
Juvenal Azevedo | 02/08/2010
Taqui de novo meu filhão Guilherme me dando um presente de dia dos pais.
Não
precisava não, Gui, eu sempre disse a vocês que se trata de uma data
comercial, inventada nos Estados Unidos pra incrementar as vendas do comércio.
Mas, valeu!
Beijos do seu pai.
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jornalirismo: Olá, boa sexta! Já se sentiu um peixe fora d´água? Então vai se identificar com a crônica líquida de Shellah Avellar: http://t.co/a6sXpoKD
3 day(s) ago from web

jornalirismo: E um quadrinho filosófico à Rainha do Mar: Olha a onda, olha a onda! http://t.co/WKgt8Fd8
3 day(s) ago from web

jornalirismo: @LiliFerrer Lili, que legal. Só de saber que nosso pôster te fez feliz a gente ganhou o dia. Beijão, muita sorte para ti.
3 day(s) ago from web

jornalirismo: Olá. "A mudança começa quando você sabe o que deve mudar dentro de você", diz Ana Paula Guedes. E não é mesmo? http://t.co/hKm3sXpf
4 day(s) ago from web


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