Quando quis ser jogador de futebol,
Não driblei nem ataquei
Marquei um gol no estádio Olímpico
Quando quis ser escritor,
Não escrevi
Publiquei dois livros
Quando quis amar,
Não confiei
Casei-me duas vezes
Quando quis viver,
Não andei
Esfolei o joelho umas trinta vezes
Quando busquei a paz,
Não encontrei
Vivi dias de sol claro, de campos de flores sem-fim
Quando procurei meu pai e minha mãe,
Não reconheci
Comi tantos almoços de domingo, frango, pimentão cheio, macarronada, feijoada, tá muito bom, mãe, tá delicioso, pai
Quando pedi um filho,
Não recebi
Acordaram-me tão cedo, hoje, papai, levanta
Quando desesperei por Deus,
Não vi nem ouvi
Segui na bênção diária de tentar melhor hoje do que ontem, medalhinha de Nossa Senhora presente de vô no peito
Quando chamei por um amigo,
Não percebi
Botaram-me para andar, eu, que estava tão triste
Quando precisei de um consolo,
Encontrei a casa inconsolável, vazia
Receberam-me à noite, rabo-sorriso, uma mulher e um cão
Quando quis muito,
Me dei conta de que tinha tão pouco
O que sou, o que sinto, o que tenho, quem amo, pois sim, contentamento genuíno, mais do que suficiente
