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Atenção, abrir em uma nova janela. E-mail

 

Dois metros de largura por dois de altura. Os vidros transparentes, bem espessos, se juntavam numa massa de silicone e rejunte, e deixavam apenas uma pequena abertura na parte superior. O aquário estava pronto.

Atrás da casa havia um jardim, com árvores altas que não deixavam o sol passar. Entre duas jabuticabeiras, Alice construiu um quadrado de cimento, também de dois por dois, que serviu de base para o aquário. Era ali que ele ficaria escondido.

Sentada nos degraus da escadinha que levava o jardim à porta dos fundos da casa, Alice acendeu um cigarro. Não tirava os olhos do aquário ainda vazio. Lembrou-se de tragar apenas quando sentiu, como uma picada de inseto, as pontas dos dedos queimarem pela brasa do cigarro que já alcançava o filtro.

Precisava se arrumar e preparar seus dois filhos. Mas o aquário primeiro, pensou. Apagou o cigarro e jogou-o longe, para que o aquário não corresse riscos. Do depósito trouxe os galões. Era uma quantidade maior do que se lembrava. O aquário, que tinha quase o tamanho de uma piscina, precisava ficar cheio até a boca.

O trabalho, naturalmente, tinha que ser feito sem a ajuda de ninguém. Portanto, Alice teve que subir, galão por galão, a escada que levava ao topo do aquário. Voltava com o galão vazio e subia de novo.

Terminados os galões, Alice foi tomar banho. Seus filhos, como sempre, aguardavam-na na sala. Enquanto a água quente caía sobre seus cabelos, Alice lembrava do dia em que os gêmeos nasceram. Recordava de tudo em detalhes: o cheiro do quarto do hospital, as roupinhas, os cigarros que fumou na janela.

Lembrava sempre deste dia. E, a partir desta data, sabia exatamente o que deveria fazer. Foi então que Alice começou a construir o aquário. Só parava para dormir e comer pouco, de modo que tanto o projeto quanto a construção terminaram logo. Precisava ser assim.

Desceu as escadas de casa. Estava seca, porém nua ainda, com os cabelos escorridos até o final das costas. Chegou à sala, onde os gêmeos a aguardavam, e sentou-se sorrindo no sofá em frente a eles. Vamos?, disse.

Pegou os meninos no colo, seguiu para a cozinha e desceu até o quintal. Sentou-se na grama com os meninos a seu lado – de onde podiam olhar o aquário.

Subiu a escada até o topo do aquário, onde tomaria as últimas providências. Abriu o primeiro pote de vidro com formol onde repousava intacto, desde que havia nascido morto, seu primeiro filho. Depois, abriu o segundo pote de formol. Prendeu uma pedra em seu pé e amarrou, com força, cada filho em um braço. Em seguida, pulou para sempre no aquário de formol. À sombra das árvores e da casa que escondia a família que não existiu.

 

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Comentários
Que porrada.
Tiago Moralles | 19/08/2010 |  
Bom detalhamento da época do hospital. Preocupação e cigarro criam a dose
certa de expectativa.
Fechou mórbido.
Gosto disso.
meg | 19/08/2010
Frases curtas.....ajudam na concentração, em poucos segundos a gente mergulha
na história.
Adoro esse jeio descontraido e direto de contar boas idéias.
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jornalirismo: Olá, boa sexta! Já se sentiu um peixe fora d´água? Então vai se identificar com a crônica líquida de Shellah Avellar: http://t.co/a6sXpoKD
3 day(s) ago from web

jornalirismo: E um quadrinho filosófico à Rainha do Mar: Olha a onda, olha a onda! http://t.co/WKgt8Fd8
3 day(s) ago from web

jornalirismo: @LiliFerrer Lili, que legal. Só de saber que nosso pôster te fez feliz a gente ganhou o dia. Beijão, muita sorte para ti.
3 day(s) ago from web

jornalirismo: Olá. "A mudança começa quando você sabe o que deve mudar dentro de você", diz Ana Paula Guedes. E não é mesmo? http://t.co/hKm3sXpf
4 day(s) ago from web


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