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ele queria morrer uma morte bonita. lenta e sufocante. num dia de verão cortante, abafado, em uma cidadezinha qualquer. seu nome era oswaldo, com w. tinha sempre que dizer, senão escreviam errado. não tinha paciência para amigos, mulheres ou crianças. tampouco talento para conversar com os mais velhos. era um pouco apático, calado. quase um sociopata, mas menos dramático. só queria morrer quieto. sem gritos, sem estardalhaços. era discreto e tinha pavor de pensar em sua mãe, dona maria, berrando em cima de seu corpo estirado. por que raios o mundo tinha de ser tão barulhento? por que raios as pessoas tinham de ser tão irritantes? ou era ele mesmo mais sensível do que os outros? “meio mulherzinha”, diziam na escola. mas sua preferência sexual nunca fora assunto preocupante. teve algumas experiências chamadas de “namoro”, que se resumiram a sentar ao lado de uma fulana nos dias de sábado para ver tv. quase sorria, às vezes, de nervoso. nunca teve loucura por mulheres, fato. passava meses a ignorar sua mãe, inclusive. era mais dado às plantas e flores. MORTAS. tinha fixação pela morte, já disse. e registrava e documentava tudo com precisão, em um álbum colorido, do nascimento até o fim, todas as etapas. o desabrochar, o murchar, o secar suave e lento. oswaldo gostava de fitar as pétalas caindo naturalmente com o vento. chuva de pétalas leve e solta. o ar, aos poucos, despetalando as roseiras por inteiro. cuidava bem delas. as tratava com amor, mas permitia que morressem como se tivesse poder de decisão. “todo o ser vivo merece não o ser, se assim quiser.” para si queria uma morte bonita, fotográfica. não daquelas de capa de revista. não. tinha pavor de sensacionalismo. almejava uma morte simples, calada. morte tímida, que falasse baixinho e não incomodasse ninguém. morte confortável para quem vai e para quem fica. morte de planta, morte de flor. QUERIA MORRER SOZINHO. então, pensou em deixar sua mãe, maria, em um asilo e esquecê-la. assim poderia morrer em paz, sem se preocupar com o susto que ela levaria ao vê-lo morto ou com o que ela faria da vida. mortos não podem levar preocupações do mundo, senão a morte não é completa, é sofrida. esses são os que voltam para assombrar os vivos. imagine, os religiosos e entendidos de espíritos o incomodando no além? NÃO, queria cortar todos os laços com a vida. nada de psicografias, nada de contatos, não escrevia cartas para a família nem estando vivo! CHEGA. nenhum dia a mais, por favor. acordou mais cedo, olhou para a estufa e decidiu se despedir. foi até a casa vizinha, onde sua mãe morava, com uma dúzia de rosas para fazer agrado. fazia dias que ela não o incomodava, estava aliviado. tocou a campainha, bateu palmas, chamou seu nome, mas só o velho gato apareceu na janela, magro e preto. sentiu um calafrio. “deus me livre ser gato e ter sete vidas”, pensou. não tinha fé mas era supersticioso, não vacilava embaixo de escada e fazia questão de colocar vassoura atrás da porta quando recebia visitas. decidiu, depois de alguns minutos, forçar a porta para entrar, mas não contava com a surpresa do destino. sua mãe estava morta. confortavelmente morta em sua cama. e ele só pôde sentir inveja naquele momento, sem direito a nenhuma lágrima. maria morreu sem cúmplice, sem barulho, sem tormento, sem alarde, sem dor, talvez. do jeito que ele pensou que faria. e agora? sua morte, em seguida, só geraria burburinho na vila. todos diriam que se matara de tristeza por perder a mãe. maldição! dona maria roubara-lhe a ideia da morte perfeita. agora, ele teria de encontrar um outro jeito de partir sem chamar a atenção. a tarefa foi tão árdua que oswaldo viveu por dois anos ainda, quieto e inquieto, pensando no jeito certo de morrer. até o dia em que uma abelha ladra de pólen o beijou em sua estufa. ele era alérgico, mas não sabia. beijo de deus. ficou ali mesmo, ao pé das flores, sentindo um quase-orgasmo, a pressão no peito, o inchaço lento, a confusão nos olhos. presente de maria. despetalou-se junto à sua última roseira, sozinho, num dia de verão quente e úmido, como sempre quis.


Leia mais de Yuri Mussoly em http://delitoderrelito.blogspot.com/.

 

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Comentários
Jesus Velazques | 06/02/2012
morro lentamente para ver se sobrevivo
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