Jornalirismo

Atenção, abrir em uma nova janela. E-mail

 

 

No meio da sala, havia uma bexiga preta. Havia uma bexiga preta no meio da sala. E diante dela soou um grito de susto profundo, já que, entre o piano e a cristaleira, nada mais poderia estar, senão o tapete persa.

 

Naquele belo e clássico apartamento de Higienópolis, as coisas sempre transcorriam na mais perfeita ordem. Até mesmo um ácaro, para habitar ali, precisava de cadastro prévio. A dona do apartamento era uma viúva, que, por respeito e retidão, será chamada de senhora. A senhora ficou viúva aos cinquenta e poucos – portanto, fazia mais ou menos dez anos – e, desde então, se desinteressara francamente de tudo. Para não dizer que havia morrido em vida, é justo mencionar que recebia visitas trimestrais de seu sobrinho, filho de sua única irmã. O rapaz vinha à capital para fazer negócios e costumava levar uma barra de chocolate à tia, embora ela fosse diabética e sempre repetisse isso quando dos tais encontros.

 

Na verdade, a senhora já não saía do apartamento havia muitos meses, principalmente depois que o sobrinho a ensinara a mexer no computador, para fazer todas as compras pela internet. Não via necessidade de enfrentar o perigo das ruas, nessa cidade em que a violência “crescia em níveis assustadores”, segundo costumava dizer o apresentador daquele programa policial ao qual assistia no final das tardes. Mesmo o médico aceitava lhe fazer visitas, cobrando o triplo, apenas para que não precisasse encontrá-lo no consultório. Mas dinheiro não era o problema na vida da senhora. Faltavam-lhe, antes disso, muitas outras coisas...

 

Todas as atenções, no entanto, à bexiga preta. Decerto, havia entrado pela janela, que permanecia aberta durante o dia todo para ventilar e, eventualmente, obrigar a que um ácaro não cadastrado fosse embora dali. No entanto, de onde teria vindo? A senhora desesperou-se quando a encontrou, afrontando a ordem impassível de seus dias modorrentos. E logo pensou que aquele seria um mau presságio. Enfim, sua hora teria chegado? Deu meia-volta e enfiou-se sob os lençóis de seda. Taquicárdica, suando frio e com as pernas trêmulas, fez uma oração, esperando pela chegada de outra senhora, vestida de negro e com a foice nas mãos. Mas a morte não veio e, então, depois de muitas horas, ela se atreveu a voltar à sala.

 

Com o canto dos olhos, olhou para o mesmo ponto e encontrou um cenário idêntico ao anterior. Não gritou desta vez, mas voltou correndo ao quarto e fez um telefonema desaforado para a empregada, que folgava justamente naquele dia. Exigiu que a moça se apresentasse in continenti ao posto de trabalho, pois era imprescindível que fizesse uma limpeza benfeita na sala. Como a empregada não tivesse entendido o que queria dizer “in continenti”, a senhora atalhou, afirmando que ela perderia o emprego, se não estivesse no apartamento dentro de duas horas. Sem mudar de roupa, a moça desceu o morro, deixou as crianças com a vizinha, e pegou três conduções para atingir seu destino.

 

Quando finalmente chegou, não teve nem a oportunidade de entrar, pois, do corredor mesmo, teve de explicar à senhora que havia deixado tudo extremamente limpo e organizado no dia anterior e que não tinha nenhuma culpa, se a bexiga havia entrado pela janela. Diante de tal justificativa, que a senhora havia interpretado como uma brutal insolência, foi demitida, sem receber nem sequer o dinheiro da condução da volta.

 

Ao menos um importante legado, contudo, a empregada havia deixado: a ideia de que a bexiga pudesse ter vindo da escola vizinha ao prédio. Após uma noite insone, a senhora respirou profundamente, amarrou um terço na mão direita e ousou pegar o elevador, abandonando quase um ano de reclusão, para ter com a diretora daquele estabelecimento.

 

Ao vê-la passar cambaleando pela portaria, quem se assustou foi o porteiro, para quem aquela moradora já havia falecido. No entanto, em função dos deveres de seu ofício, procurou recobrar a calma e perguntou se havia algo de errado. Como resposta, recebeu a afirmação de que, sim, uma coisa terrível havia acontecido, e que ele devia se encarregar de remover um corpo estranho que estava na sala, bem como de mandar lavar o tapete persa, desinfetando-o.

 

Bateu ao portão da escola, a bem da verdade um simples estabelecimento onde criancinhas com menos de cinco anos passavam as manhãs brincando, desenhando e cantando, como se podia perceber pela algazarra alegre e desafinada que a impedia de conversar em tom de voz normal com a moça que a atendera. Dessa vez, no entanto, quem teve a entrada impedida foi a senhora, a quem a professorinha esclarecera, muito constrangida, que a diretora havia determinado que ninguém a interrompesse naquele dia, pois precisava terminar uma tarefa urgente e, portanto, permaneceria trancada em sua sala, sem atender a quem quer que fosse.

 

Tão logo deu as costas e fez menção de fechar o portão, a jovem foi empurrada pela senhora, que invadiu o recinto e, depois de atravessar um pátio de pastilhas vermelhas e muitos brinquedos espalhados (em função dos quais tropeçara várias vezes), encontrou uma porta que parecia trancada, mas, na verdade, estava apenas encostada, atrás da qual se encontrava a sala da diretora.

 

Tratava-se de uma moça de traços delicados e rabo de cavalo, que parecia estar esperando por aquela visita havia muito tempo, já que não fez nenhuma menção de surpresa; ao contrário, acolheu sua invasora com um sorriso franco e ainda lhe ofereceu um chá-mate com biscoitos.

 

— Estou acostumada a ser interrompida pelos pais dos alunos – explicou. — Por isso, peço que avisem que não poderei atendê-los sem hora marcada. No entanto, pelo que vejo, a senhora está muito nervosa e, portanto, se chegou até aqui, é meu dever escutá-la – disse, com alguma afetação na voz. Acrescentou, por fim, de forma mais espontânea do que deveria: — Na verdade, sempre alguém fura o bloqueio.

 

Mas a senhora não achou graça da piada e esclareceu o ocorrido com a bexiga preta. A diretora franziu a testa e explicou que aquela escolinha não trabalhava com esse tipo de material, mas apenas com giz de cera, tintas e jornais, e que, aliás, as crianças estavam confeccionando animaizinhos de papel para a apresentação de fim de ano.

 

— Vai ter passarinho, zebra e até um elefante bem grandão. Se a senhora quiser, pode vir prestigiar a apresentação, mas prometa que vai se comportar direitinho...

 

A senhora então se deu conta de que aquela moça, que tinha idade para ser a esposa de seu sobrinho, a estava tratando como se fosse mais uma das criancinhas da instituição e decidiu, portanto, ir embora, prometendo que descobriria de onde a bexiga havia surgido, embora isso jamais tivesse sido cobrado por ela.

 

No caminho de volta à rua, enquanto atravessava o mesmo pátio ladrilhado, sentiu um leve peso na barra de sua saia e, quando se voltou para ver do que se tratava, encontrou uma menina muito pequena puxando o pano, que lhe mandou um beijo. A senhora se emocionou com aquela cena e se surpreendeu ainda mais por ter se emocionado; constrangida, tratou de apertar o passo, justificando a si própria, que ainda possuía uma missão muito importante a cumprir: descobrir de onde o balão escuro tinha surgido. Afinal, se isso não tivesse uma explicação lógica, não lhe restaria outra opção, além de acreditar em um inevitável e perigoso sinal metafísico...

 

Ao lado da escola, havia uma marcenaria, na qual ela também jamais havia entrado, mas a respeito da qual sabia que tinha sido a responsável pela montagem de sua cozinha. Sentiu falta, pela primeira vez na vida, de saber como se chamavam aqueles rapazes simpáticos que haviam instalado os armários em seu apartamento e, assim, decidiu tentar a sorte e pedir para falar com o dono.

 

Muito tempo depois, um homem muito forte e com um bigode assustador apareceu na sua frente. Ela começou a contar a história, mas não conseguiu chegar ao final, pois o homem a interrompeu de modo abrupto e perguntou de que forma ele poderia ajudar, e quando ela lhe disse que precisava entender de onde a bexiga tinha vindo, ao invés de uma resposta, levou uma sonora bronca do bigodudo, que afirmou não ter tempo para esse tipo de brincadeira, que possuía muito serviço atrasado e que, se ela não tinha louça para lavar, que o deixasse em paz.

 

A senhora sentiu um misto de vergonha e raiva lhe tomar o espírito e logo se imaginou mais vermelha do que um pimentão. Imediatamente, deu as costas ao homem e atravessou a rua aparentando a resolução de quem já houvesse decidido fazer isso com muita antecedência, embora, na verdade, nunca tivesse se sentido tão perdida em toda a sua vida.

 

Na outra calçada, havia uma loja de ferramentas, cujo dono era um velhinho italiano muito conhecido na vizinhança, sobretudo por ter herdado aquele comércio de seu pai e este, de seu avô. A senhora lembrava-se até mesmo de sua mãe tê-la feito comprar parafusos com o pai do velhinho, muitas décadas atrás, oportunidade em que, por ter entrado por uma porta errada da loja, ao invés de encontrar serrotes e alicates, encarou o menino – hoje proprietário – com as calças abaixadas, em meio a muitos catálogos em que moças vestiam lingeries, naquilo que a crônica policial chamaria de “atitude suspeita”.

 

Depois daquele fatídico dia, quando a senhora era então uma mocinha e obtivera uma importante pista sobre a origem dos bebês (e não da bexiga preta), nunca mais havia entrado ali e, se lhe era ordenado comprar algum material de construção, era capaz de dar a volta no bairro inteiro para adquirir os produtos em um estabelecimento onde apenas duas rechonchudas irmãs portuguesas atendiam à freguesia.

 

Entretanto, naquele instante de fuga da marcenaria, a senhora mal se dera conta da lembrança infantil e por pouco não acabou caindo sobre o italiano, que estava debruçado no balcão, folheando uma revista masculina. O simpático vendedor escondeu sua revista com uma habilidade própria de quem já está acostumado a fazer isso há muitos anos e perguntou de que modo poderia ajudar a interessada. Ela então começou a lhe contar a história, sem tirar os olhos da gaveta onde a revista havia sido enfiada, e apenas fitou os olhos azuis do imigrante quando achou que precisava frisar que a bexiga em questão não era nem verde nem azul, mas preta. Preta, meu senhor. Preta.

 

O ferramenteiro pareceu sentir-se honrado com aquela consulta inesperada e, para não deixar escapar a chance de demonstrar profundidade, demorou dois ou três minutos para começar seu discurso. Sempre gesticulando muito, afirmou que as bexigas fazem parte do imaginário popular, como se isso fosse um consolo. E que por ser uma brincadeira universal, aquela bexiga poderia ter vindo até mesmo de outro país, atravessado oceanos e guerras, até encontrar um local seguro, onde pudesse repousar. O ideal seria deixar a bexiga murchar naturalmente, enrolar o objeto com carinho em um pano limpo e jogá-lo no lixo.

 

Desta vez, a senhora não conseguiu segurar o riso, diante do romantismo inusitado daquele vizinho apalermado. Lembrou-se de que ele havia se casado com uma colega sua de escola, de todas a mais certinha (como os garotos diziam na época), e que a mulher costumava contar a ela que o marido gostava de fazer surpresas que a deixavam mais constrangida do que propriamente emocionada, como reservar um chalé em Campos do Jordão em pleno verão escaldante ou interromper uma sessão de depilação, no salão de beleza repleto de outras mulheres, com um buquê de rosas vermelhas para fazer uma declaração de amor eterno. Talvez a morte prematura da amiga justificasse aquela sensibilidade brega do homem solitário, ou talvez ele sempre tivesse sido assim, meio estranho, mas, de um modo ou de outro, a verdade é que ela enfim sorria e, por um momento, se esquecera de que sua missão de encontrar a origem do balão ainda estava muito distante de um final feliz.

 

Resolveu perguntar na farmácia, onde um novo funcionário, ao invés de preocupar-se com a origem do objeto, sugeriu, de modo enfático, que a senhora medisse a pressão, afinal, depois de tantas tensões e aborrecimentos, certamente deveria ter sofrido alguma alteração que demandasse intervenção médica urgente. Mesmo sem aceitar expressamente aquele pedido em tom de ordem, foi sendo empurrada para uma salinha de paredes brancas que cheirava a éter e, sentada num banquinho extremamente desconfortável, viu o rosto do jovem se contorcer, enquanto mirava o medidor do aparelho com incredulidade.

 

— A senhora está com a pressão arterial perfeita – disse, em um tom muito mais frustrado do que alentador. — Mas deveria se alimentar melhor e beber mais líquido, ao invés de sair andando por aí, debaixo desse sol forte, feito uma louca – e então percebeu que havia exagerado na bronca; mas a senhora estava abotoando a manga de seu vestidinho com tanto desvelo, que nem sequer ouviu as últimas palavras do farmacêutico, a quem deixara falando sozinho para ganhar novamente as ruas.

 

De qualquer forma, a ideia de comer alguma coisa soou muito bem aos ouvidos da senhora. Ela havia saído de casa muito cedo, sem ao menos tomar café da manhã, e daria seu braço direito por uma xícara de café com leite, acompanhada de pãezinhos de queijo. A padaria, no entanto, ficava a cinco quadras dali, mas, enfim, se a saúde estava tão boa, caminhar somente poderia lhe ajudar ainda mais. Muito antes do esperado, chegou ao local e se espantou: como ele havia mudado. Pediu os tais pãezinhos de queijo, mas o atendente lhe disse que a próxima fornada ainda levaria meia hora, o que fez com que se decidisse por pedir um “sonho bem recheado”. Afinal, não tinha tempo a perder em sua busca ensandecida.

 

Ao lado da senhora, havia um casal de adolescentes. Sobre o balcão, um refrigerante de litro e duas mochilas que pareciam estar bastante pesadas. Quando o rapaz enfim deixou de abraçar a moça – e fingiu que a deixaria cair para ouvir um gritinho estridente – a senhora se virou para eles e perguntou se estudavam perto. Responderam que sim ao mesmo tempo e isso fez com que se olhassem outra vez, com uma afabilidade indescritível, como se tivessem compartilhado a mais romântica informação de todos os tempos; mas logo se deram conta de que permaneciam sendo observados e se voltaram à desconhecida, que já estava com a boca suja de creme por causa do sonho.

 

— Estudamos na rua de trás. A senhora conhece o nosso colégio?

 

A mulher não respondeu à pergunta objetivamente, mas prosseguiu a conversa, relatando que imaginava que uma bexiga preta, que havia aparecido do nada em sua residência, pudesse significar que ela fosse morrer em breve e, portanto, para que essa tragédia não acontecesse, seria importante confirmar que a escola onde eles estudavam poderia ser a origem do objeto.

 

Os adolescentes novamente se entreolharam e acharam a ideia tão absurda, que ficaram sem palavras. A menina, depois de quase um minuto de silêncio, começou a balbuciar algo um tanto fora de contexto, como “o meu avô fuma escondido”, mas a senhora interrompeu-a bruscamente, com uma nova pergunta.

 

— Vocês acham isso possível?

 

O rapaz deu um gole no refrigerante e ficou pensativo, enquanto a namorada fazia uma trança olhando para baixo. Abruptamente, uma voz anasalada irrompeu por detrás da senhora, que por muito pouco não morreu de verdade, em função daquele susto. Era um homenzinho baixo e gordo, meio calvo. Aquele simpático rapaz atarracado pediu licença para interromper a conversa e se sentou entre a senhora e o casal. Pigarreou um pouco, apoiou o cotovelo sobre a perna que estava cruzada sobre a outra e, olhando para o nada (como que vislumbrando a própria história no horizonte), começou.

 

— Uma vez, no interior, quando eu era muito pequeno, a gente tava voltando do roçado e encontrou um urubu morto na cozinha. A senhora avalie se isso não é uma coisa ruim de ver, aquele bicho, que já é feio quando vivo, todo depenado e estirado no chão, com um cheiro de carniça soltando pelas ventas. Deve ter entrado pela porta, era uma casinha de madeira daquelas que a senhora vê na televisão, a mãe cozinhava só quando tinha o que cozinhar. Os irmãos mais velhos deram com um pau no bicho, que começou a despedaçar, chutamos ele dali, mas o piso de terra ficou imundo, uma mistura de gosma e sangue, aquele fedor de podridão que eu sinto até hoje e ficou sendo o cheiro da minha meninice. E tô aqui agora, não tô? Olha que ninguém morre de véspera, minha senhora.

 

Diante daquela declaração, e por tudo mais que havia vivenciado naquela manhã, a senhora se sentiu amplamente ridícula. Reconfortada pelo café com leite e animada em função do apoio de seu sincero interlocutor, apertou-lhe a mão como se cumprimentasse um amigo antigo. Não dissimulou simpatia também pelo casalzinho, que se integrara à conversa de um modo tão natural, como se todos fizessem parte do mesmo grupo há muito tempo e apenas um acontecimento realmente muito importante os pudesse separar.

 

A senhora então se lembrou de que sua irmã costumava lhe telefonar, todos os dias, por volta das treze horas, e como já fosse meio da tarde e, para piorar a situação, não houvesse mais empregada na casa, devia retornar com urgência ao lar. Novamente, cumprimentou aos companheiros de balcão com a alegria de um paciente que acaba de receber um diagnóstico alentador e se dirigiu à rua, quando o balconista a chamou para entregar a conta.

 

De fato, para sua enorme surpresa, havia se esquecido de levar a carteira, ou melhor, isso nem lhe havia passado pela cabeça, pois não suspeitava de que seria capaz de ir tão longe – justo ela, que pouco tempo atrás tinha medo até de entrar no elevador do próprio prédio. Afinal, tudo o que havia conseguido planejar, no calor de seu desespero, era visitar a escolinha que ficava ao lado de casa...

 

A senhora ficou olhando para a conta como se aquele pedaço de papel fosse escrito em um idioma muito peculiar, que jamais pudesse ser compreendido. Não teve palavras para dizer ao homem que não tinha dinheiro. Um silêncio sepulcral tomou conta do ambiente e então o jovem estudante se antecipou a qualquer declaração, tomou-lhe o papel das mãos e disse algo camarada, como “essa deixa comigo”, o que mereceu muitos aplausos da namoradinha. Sem saber como agradecer, a senhora convidou o casal a visitá-la na tarde seguinte e anotou o endereço do apartamento na parte de trás da comanda, pois fazia questão de oferecer um lanche.

 

Quando retornou ao apartamento, após um dia absolutamente insuspeitado, a senhora olhou para o centro da sala com a coragem de um domador. Percebeu que não havia mais nenhuma bexiga preta, mas apenas uma aura empoeirada deixada pelo tapete persa, que havia muitos anos também não saía de lá. Manteve o olhar fixo no ambiente e percebeu que os móveis precisavam ser mudados de lugar com urgência, que a cortina estava deixando tudo muito escuro e que o piano merecia ser afinado.

 

Resoluta, deixou um recado para que a empregada voltasse no dia seguinte, com um pedido de desculpas e a promessa de um aumento generoso. Procurou no armário um livro de receitas, pois ela própria queria fazer um bolo para quando o casal chegasse. E, antes de se deitar novamente, amarrou uma fita no dedo indicador, para se lembrar de que precisava comprar uma agenda no dia seguinte, pois passaria a ter muitos compromissos daquele dia em diante.

 

Nunca descobriu, entretanto, de onde a bexiga preta havia surgido. Ao fechar os olhos, imaginou-a ganhando os céus livremente, com um lirismo quase idêntico ao do italiano da loja de ferramentas.

 

 

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Comentários
José Frid | 19/12/2012 |  
Bela estória! Fiquei preso ao raio do balão negro até o fim, mesmo pressentindo que ele partiria da mesma forma que chegara.
Alessandra | 01/02/2013
Muitas vezes é preciso achar que vai morrer para renascer.
Linda história, como sempre!
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