A aluna e o caseiro

Ainda há tempo para ler na tela ou nas páginas escritas por Antonio Skármeta sobre o encontro entre o carteiro e o poeta Pablo Neruda.
Por hora vou contar o caso de um encontro acontecido no final da década de 1990 – se não me falha a memória – em uma escola pública de Taboão da Serra, Grande São Paulo. Foi lá, e é ainda lá – só para lembrar Jobim -, que um senhor de aproximadamente cinquenta anos cuidava, e cuida, da manutenção do prédio.
Mora em uma casinha próxima do pátio, com sua mulher e filhos e, como o poeta, também fez do exílio ou da sua ilha um lugar com ares de Pasárgada.
Talvez seja exagero comparar assim, mas a pintura semestral das salas, a pintura das portas, a troca das torneiras dos bebedouros, o apoio ao pessoal da limpeza, o carinho e respeito pelos alunos, professores e por todos os funcionários é coisa de gente exagerada, mesmo.
Ao seu modo, escreveu versos com tinta e suor nas paredes em branco e aos poucos deixou sua poesia feita de trabalho e negritude.
E, cercada de poesia, uma aluna cursava o primeiro ano do ensino médio no período noturno. O caseiro acumulava a função de inspetor e sempre circulava pelos quatro blocos térreos, que compunham a escola. O muro de Pasárgada – como tantos outros – foi construído com blocos de medo.
O ano letivo transcorria e os professores decidiram conversar com os alunos sobre atividades ligadas ao Dia da Consciência Negra; após a discussão, o dia foi transformado em uma semana de ações voltadas ao encontro da comunidade escolar com sua realidade histórica.
Na semana de atividades culturais (rap, maculelê, pagode, capoeira, desfile de rapazes e moças), a comunidade atendeu o pedido da escola e tomou completamente o pátio.
O muro de Pasárgada (pelo menos naquela semana) veio abaixo feito o muro de Berlim. O medo de repente sentiu coragem e cantou sua alforria. A liberdade tem o som das cordas de um berimbau.
E a aluna viveu os dias intensamente – cada vez mais cercada da poesia pulsante do poeta-caseiro e de tantos outros que desfilaram, cantaram e dançaram diante dos seus olhos.
Em uma noite, o professor de língua portuguesa – que levava livros em uma caixa de papelão – perguntou sobre a leitura da aluna e teve como resposta: “Estou lendo Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector. O que mais me chamou a atenção foi o título do livro, porque, ao ler os contos, tive a impressão de que em todos eles a felicidade escapava por entre os dedos como água”.
E pensar que aquela moça cursava o ensino médio e jamais havia pisado em um cinema. E pensar que um homem tão simples foi e é capaz de criar condições para que uma aluna – da mais esquecida periferia – leia com tanta propriedade e sentimento uma obra literária.
Resta o desejo de que a aluna não deixe escapar a felicidade por entre os dedos e que o caseiro continue o Neruda de sempre.

3 comentários para “A aluna e o caseiro”

  1. Sílvio Valentin Liorbano

    Sílvio Valentin Liorbano

    Feliz demais…
    Abraço com asasde albatroz para o Germano e o Pedro. Fico feliz demais quando minhas palavras agradam alguém… Leiam outras crônicas. Feliz demais…

    Sílvio.

  2. pedro

    muito bonito. me fez lembrar meu tempo de escola. havia um caseiro q não era poeta, mas tinha a sensibilidade de um.
    A liberdade tem o som das cordas de um berimbau é demais!
    abraço pedro

  3. Germano Gonçalves

    Em determinado tempo de nossa vida, precisamos ser um Neruda, ou um poeta qualquer, mas devemos mais ainda fazer arte seja ela qual for.
    Valeu cara pelo texto, gostei muito.

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