A baratinha

Era um bichinho bem pequenininho, uma baratinha de cozinha, não tão nojenta quanto aquelas baratas tradicionais, mas – mesmo assim – sempre perseguida por chinelos e similares e inseticidas assépticos. Era, enfim, uma baratinha de cozinha.

Claro que ela não se via como praga, afinal, como já disse alguém famoso, todo mundo que é vivo quer viver. E, para viver, é preciso comer. Aliás, não se tem notícia de que o diabo tenha criado nem um ser sequer no mundo, portanto era também uma boa filha de Deus.

Era, enfim, uma baratinha de cozinha também filha de Deus.

Já sabia que, nas quartas-feiras à noite, tinha que se esconder, porque na manhã seguinte viria a faxineira, um ser que não combina com baratinhas. Aí teria que passar uns dois ou três dias distante, porque o cheiro de limpeza era nojento, ainda mais quando à base de água sanitária.

Mas lá para sábado ou domingo, a baratinha vinha. Vez ou outra alguma companheira morria, assassinada pelo dono da casa, alguém temido e cruel, mas cego ao ponto de não ver as baratinhas pelos cantinhos do apartamento.

Até que vieram os quatro dias. Quatro dias em que aquele lugar foi balançado por duas crianças, uma maior, uma menor, ambas enormes perto da baratinha. E farelos se espalharam pela casa. E pedaços de bala. E resquícios de refrigerantes. E grãos de açúcar, de chocolate. Pingos de calda de doce de pêssego, de sorvete. Era o paraíso. Odores espalhados por todos os cômodos denunciando uma comilança que a esperava.

E a baratinha cresceu o olho e saiu fora de hora e entrou no lugar proibido, o temível quarto dele.

A baratinha já não existe, porque tudo tem limite nesta vida, até mesmo em relação a finais felizes em histórias de bichinhos…

 

Imagem: http://culinariadadriana.blogspot.com.br

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