A bicicleta entre rios, pontes e overdrives

 

 

Pedalou até a feira no chão de barro pisado e parou em frente à barraca de chapéus de muitas cores e tamanhos, pequenos com laços verdes e azuis. Coçou o queixo com a unha do dedo mindinho. Seu nariz era pontudo e fino. A lona laranja cobriu a metade da armação de metal e um chapéu de couro em tonalidade verde fez a decisão da escolha. O sol no meio do céu, antes do meio-dia, ele tateou o bolso esquerdo da calça marrom e retirou algumas moedas. Pediu menor preço, o negociante falou: “No mundo não tem chapéu verde de uma cor tão forte como aquele”. O velho contou novamente as moedas e passou da palma de uma mão para a outra, faltaram três para completar o valor.

 

Voltou para a bicicleta vermelha, sentou no banco e enrolou um cigarro de palha. Mais duas ou três barracas para a frente, quase no centro da feira, ouvia-se uma zoada com três mulheres dançando ao som de tambores de maracatu. Um homem baixo e de bigodes pulou segurando uma flor entre os dentes. Cantaram juntos e as vozes das mulheres eram agudas e suaves. A feira movimentou-se. À medida que as sandálias das moças passearam a dança, a poeira do chão subiu e causou uma névoa fina entre eles. Ele tragou e bateu os pés acompanhando o ritmo. Pedalou murmurando a canção, continuou cantarolando quando virou a rua baixa à esquerda.

 

Pisou no chão e encostou a bicicleta vermelha aro vinte e seis em frente à venda. O balconista vestido de camiseta regata branca suja e bermuda amarela listrada. Com um pano encardido sobre os ombros, foi até o velho de poucas rugas nos olhos. O rosto dele de pequena expressão e voz baixa. Pegou duas moedas e solicitou preço baixo para a aguardente de cana. “No mundo são cinco copos cheios para essas moedas”, disse a voz rouca do servidor. Sem falar, o velho disse o sim mexendo a cabeça para cima e para baixo somente uma vez. As paredes do comércio eram azuis e verdes e prendiam um fio de aço que segurava carnes, garrafas de bebidas e sacos pequenos de farinha.

 

Sentou-se no batente do comércio com o copo descansando ao seu lado. Seus pés vestiam sandálias de couro e a camisa de botões de diferentes cores e costuras remendadas. A rua descia e as casas com as portas para a ladeira. Tragou e secou três copos na descida do sol para a tarde. A bicicleta vermelha estacionada apagou com uma nuvem andante. Encheu-se de coragem no último copo. Abanou a mão para o homem de regata do balcão e pedalou devagar. Os cabelos claros de uma mulher voavam com um sopro de brisa, o vestido florido perfeitamente em comunhão com os seus olhos verdes sorridentes.

 

Chegou à feira e apressou seus passos em direção à barraca de lona laranja. A dança acabou, mas o homem baixo permaneceu com a rosa entre os dentes, caminhando por bancas. Os chapéus dependurados e o pequenino de cor verde, ainda lá. Em curtas e diretas palavras, ofereceu a bicicleta vermelha em troca do chapéu e mais cinco moedas: “Não há no mundo bicicleta de cor e rodas fortes como aquela”, a voz assertiva do velho. Andou devagar, passou por três homens que vestiam calças floridas e sopraram pífano. Ele murmurou a música. No caminho, parou na ponte, enxergou toda a curva do rio Capibaribe e o mangue. Pensou no chapéu que apertou com a sua mão esquerda. Colocou na cabeça de finos fios brancos. Seu neto, o menino claro, um sonho de chapéu. Não há no mundo um sorriso como aquele.

 

*Alessandro Araujo é escritor, autor do livro “Pro Santo & outras perdições” (Editora Torre, 2012), que você pode conhecer e adquirir clicando aqui.

 

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