A fuga de Rebeca

 

Rebeca nunca pescou, mas contava uma história de causar inveja a qualquer pescador. Quando a conheci, ela me disse que se alguém a questionasse sobre seus gostos, suas respostas levantavam da cadeira e saíam pela porta dos fundos de sua mente. E não era maneira de falar. Segundo ela, nomes de livros, músicas, autores, políticos, todos exibiam suas perninhas curtas e ligeiras e acenavam um tchau furtivo antes de escafederem-se.

 

Ela tinha preguiça de debates ou discussões, achava ser esse o motivo do fenômeno. Eu desconfiei e testei a moça: “Qual é seu álbum predileto do Caetano?”. Disse ela que um CD, cuja capa tinha o Caetano, sua esposa e seu filho nus, bateu em debandada. Cínico, o bebê teria dado uma piscadela antes de seu pai bater a porta. À Rebeca, aqui do lado de fora, restou um rosto ruborizado e uma boca a gaguejar. Os acontecimentos externos, eu confirmo. Era um sem-jeitismo de doer.

 

Depois de alguns anos, Rebeca me confidenciou uma piora no quadro geral. Outro grupo de respostas se rebelara. Dessa vez, eram as opiniões que fugiam. Subvertidas pela turma das preferências, as opiniões mais rebeldes ameaçavam passar borracha umas nas outras. Era um ato de suicídio contínuo. As menos contundentes se escondiam medrosas num canto. Como Rebeca era puro desespero, eu a aconselhei a evitar perguntas: “Coloque as mãos nos ouvidos no momento em que perceber uma indagação”. Daí, por burrice minha, perguntei o que ela achava do plano. Para meu espanto, vi um conjunto de letras sair pelos ouvidos de Rebeca, correr para o final da rua e desaparecer na esquina.

 

A coisa toda ficou mais séria. Não fosse o “sim” e o “não” sentados na sala vazia, Rebeca fora abandonada por todas as suas respostas. Um dia o “não” cansou de dividir o espaço com o “sim”. Sua despedida aconteceu quando a sogra de Rebeca perguntou se a nora aceitava um doce de amendoim (aqui, para sua compreensão, abro parênteses para contar que Rebeca só não detesta amendoim mais do que chuchu). Diante da vacilada de Rebeca, a sogra lhe enfiou uma tigela recheada nas mãos e uma colher com a pasta língua abaixo.

 

Da última vez que vi Rebeca, ela já não gaguejava nem enrubescia, não fazia questão de nada, nem sequer tinha vontades ou quereres. Sua cachola parecia vazia. Era como se Rebeca tivesse se levantado da cadeira, corrido com as perninhas curtas e acenado lá de longe, enquanto dobrava a esquina.

 

*Gê Martins é jornalista e escritora. Contato: [email protected] Leia mais dela no blogue “Escrita líquida”, clicando aqui.

Comentário