A gratidão não é surda nem muda na sala de aula

O primeiro vôo de um filhote de águia deve ser cercado de medo. E o que dizer do primeiro vôo de um universitário, em uma sala de aula?
 
 
O caso aconteceu em maio de 1996, quando a LDB, Lei de Diretrizes e Bases da Educação, foi implantada nas escolas públicas de São Paulo. Um rapaz, que cursava o penúltimo semestre da faculdade de letras, conseguiu algumas aulas de língua portuguesa em uma escola localizada na periferia do município de Osasco, na Grande São Paulo.
 
Em nenhum momento dos seus 29 anos, havia pensado em ser professor ou qualquer outro profissional ligado à área da educação. Como a maioria dos meninos do subúrbio, desejou jogar no Maracanã, ser artilheiro do Campeonato Brasileiro e marcar um gol de placa em uma final de Copa do Mundo.

Apesar de sua dedicação aos estudos, os sonhos escolares pareciam pequenos demais, diante das imagens deslumbrantes que a televisão mostrava. Aos 13 anos de idade, a idéia de ser professor era tão improvável quanto encontrar um unicórnio pastando em um canteiro de obras.

Mas, aos 29 anos e 11 meses, assumiu 30 aulas de substituição em uma escola da periferia de Osasco, com um pedaço de giz na mão e um imenso ponto de interrogação na cabeça. A teoria estava na ponta da língua: olhar o horizonte fixamente, aproveitar o minuano e soltar o corpo, até fazer do céu ou do piso da sala de aula sua terra firme. Cerca de 200 alunos, matriculados no período da manhã, estavam à sua espera.
 
 
A coordenadora pedagógica fez as honras da casa e apresentou-o ao corpo docente. Em todas as salas, a insegurança foi tamanha, que causou tremores em suas pernas, enquanto as mãos ficaram para trás, num gesto defensivo. Faltava experiência e em nenhum momento pensou em fazer uma avaliação para detectar o quanto seus alunos sabiam sobre a língua portuguesa.

Sua apresentação foi demorada e nela deixou bem claro sobre suas origens de aluno de escola pública e das dificuldades que estava encontrando para concluir o curso de letras.
 
Em uma das salas, perguntou o nome de uma menina com traços orientais, que sentava na primeira carteira, e teve como resposta: “Ela não ouve!”. E agora? Ele, que falava e ouvia, não sabia o que fazer com 200 alunos, ou melhor, com 199 alunos que falavam e ouviam, e recém descobria que tinha uma aluna com deficiência auditiva.

Decidiu falar com a diretora da escola sobre a menina e, cercado de medo, afinal era o seu primeiro vôo, disse o que acreditava e sua crença falava de transferência. Ele tinha convicção de que outra instituição de ensino, com profissionais habilitados, poderia ser mais acolhedora e que a aprendizagem de sua aluna surgiria da interação com um professor bilíngüe de forma natural.

A diretora ouviu atentamente os argumentos do professor e respondeu que a menina estudava ali desde a 1ª série e que seu desejo seria respeitado: concluir seus estudos naquela escola. Orientou o professor a explicar coletivamente e, depois, mover os lábios vagarosamente, a fim de que sua aluna pudesse ler o que ele havia explicado aos demais alunos. Antes de encerrar a conversa, a diretora ainda falou sobre uma colega de classe da menina, que seria intérprete do professor, porque ela dominava a linguagem dos sinais.

O jeito foi superar o medo e assim os dias foram se sucedendo e o professor ora explicava coletivamente, ora movia os lábios vagarosamente e, em diversas vezes, pediu o auxílio de sua intérprete com traços orientais.

Em uma manhã do mês de junho, aconteceu algo no centro de Osasco que mudou a rotina daquele dia de aula e dos outros que viriam. A tevê anunciava que um shopping center, localizado no centro de Osasco, havia explodido. Na escola, alguns alunos não chegavam e todos os professores e alunos presentes ficaram apreensivos. A diretora esperava orientações para suspender as aulas e, sem clima para análise sintática, o professor tentou acalmar os alunos com uma conversa, até ser traído por algumas lágrimas.

Exupéry escreveu que cativar é criar laços e o professor, com pequenos gestos e algumas broncas, conseguira o carinho de todos. De repente, os meninos e as meninas já não eram como cem mil outros meninos e meninas, porque aqueles meninos e meninas eram seus alunos.

Nenhum deles ficou ferido no terrível acidente do shopping e assim a rotina de aulas foi retomada. A escola foi inscrita em um campeonato de futebol de salão e, quando podia, o professor juntava-se aos alunos na arquibancada para torcer pela equipe da 7ª série.
 
 
Os laços estavam criados e o professor só se deu conta de que era um nó quando a professora voltou de sua licença e retomou suas salas de aula. O professor, que não gostava de despedidas, caminhou pelo corredor das salas de aula e, após pedir licença, acenou da porta para os alunos.

Mas, ao chegar à sala onde estudava a aluna com deficiência auditiva, aconteceu algo inesperado. A menina fez um gesto pedindo para o professor ir até onde ela estava e, com a mão no peito, pronunciou:

“P r o o f e e s s o o r, s a a u u d a a d e e!”

10 comentários para “A gratidão não é surda nem muda na sala de aula”

  1. karoline vasconcelos

    Uma pessoa especial
    “P r o o f e e s s o o r, s a a u u d a a d e e!”

    Talvez eu ñ seja muda ou surda mas vc foiuma pessoa que viu em mim capacidade, um homem inesplicavel,expressava apenas com o olhar sm ao menos precisar dizer os seus sentimentos o seu grande amor e alegria de ensinar de ajudar por mais que alguns tentaram te agredir vc não desistiu,continuo sua caminhada pois eu te adimiromuito vc para mim até hoje e será sempre um modelo de vida a ser seguido obrigado pois vc me ensinou a sonhar e que acima de tudo e necessario humildade aluna da 8série tenente alipio…
    saudadesssssssssssssssssssssss……

  2. Sílvio Valentin Liorbano

    Sílvio Valentin Liorbano

    Abraço forte para o pessoal de Marabá no
    Querida Kelly,
    O amor é pedagógico e deveria ser disciplina obrigatória nas Universidades.

    Grande abraço!

  3. kELLY RHANA

    Parabéns!!!
    Professor de acordo com minha humilde compreenção, o senhor conseguiu demonsttrar por estas palavras a importância que cada um de nós temos na vida de nossos alunos.Alguns professores estão em sala não pelo amor, e sim por não terem outra opção.È lamentável!

  4. ana luiza e wanda

    adoramos suas historias
    oi prof entramos no site e vimos como vc e querido por todos nos tbm gostamos muito do senhor fique com deus
    tchauuu
    beijinhos de suas alunas do tenente

  5. SÍLVIO VALENTIN LIORBANO

    SÍLVIO VALENTIN LIORBANO

    OOOOBBBBRRRRIIIIGGGGAAAADDDDOOOO!!!!!
    QUE BOM. COMO ESCRITOR E PROFESSOR AGRADEÇO. QUERO REGISTRAR TAMBÉM EM LIVRO. NINGUÉM SAI ILESO QUANDO LIDA COM PESSOAS.

    CARINHO E POESIA PRA TODOS!

  6. Tatiana Emanuele

    As vezes nos esquecemos!
    Às vezes nos esquecemos do quanto podemos influenciar a vida das pessoas, estando à frente de uma sala de aula. Obrigada por nos lembrar com tão excelente exemplo! Algo assim não poderia ficar mesmo só na memória!
    Abraços

  7. Maisa

    Lindo
    Silvio,parabéns por nos mostrar o quão é divino o dom de ensinar e aprender eternamente!
    Abraços…

  8. ******************

    uma crônica incomparavel
    Essa é uma crônica que não tocou apenas o senhor,mas a todos que ela pode ouvir,realmente ela é como se fosse uma poesia ,ela tocou a sensibilidade e os sentimentos, você é um professor que sabe despertar em seus alunos intersse de apreder parábens, a cada dia que passa eu admiro mas a o senhor um grande abraço…

  9. Natalia Camargo Silva

    Parabens por todos eus trabalho feito que serve de lição para todos nós….Eu desejo todas felicidade do mundo e que você e sua familía seje muito feliz.esse são meus votos au senhor Te amo muito do fundo do meu coração a distância não irrar nos separar te adoro prof:

  10. Ivete Cavalheiro

    A despedida que valeu!
    Fazer a diferença é o que esse novo professor deixou marcado nessa escola.
    O "ato de despedida" da menina com deficiência auditiva pode ter valido por todas as outras despedidas. Deixou uma marca registrada no psicológico desse professor, e deixado certamente um orgulho ao seu fazer pedagógico.
    Um abraço, Sílvio Valentim! Também sentí minhas pernas tremerem ao assumir as salas de aulas no primeiro dia.

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