A hora do Brasil

 

Querido Henfil,

Após silêncio respeitoso e altamente compenetrado (para ouvir tudim que os candidatos vociferaram nas mídias todas), ouço Vital Farias e percebo que as feridas da vida continuam abertas.

Pelos Brasis afora, ainda tem gente que toma a água barrenta de cacimbas, tem muita criança que anda muitas léguas para conhecer as letras e os números, tem muito político mau caratista (como diria Dias Gomes), que se vale da boa-fé das pessoas para alcançar o poder e depois deixá-las na penúria.

Tem assunto que não tem a menor graça. Mas soube do encontro do Chico (o Buarque), o Ziraldo (que é um cara muito maluquinho), o Fernando Morais (jornalista e biógrafo), Leonardo Boff (teólogo) e uma porção de intelectuais – da sua geração – para apoiar uma candidata (uma mulher) à Presidência da República?

Só de saber do encontro, já troquei de canção e ouvi Vai passar, na voz do Buarque. Lembrei-me que o Brasil (nos últimos anos) aprendeu uma das operações mais importantes da matemática: dividir. É, cara!, já tem gente que vota e consegue enxergar além do seu próprio umbigo.

É bem verdade que temos outro candidato à Presidência – um homem que já esteve no Chile – em uma época (como você bem sabe) de tortura, de falta de liberdade de expressão, dos calabouços da ditadura – um tempo em que estudantes, professores, artistas, intelectuais e jornalistas foram massacrados. Que o diga Vladimir Herzog.

Estamos bem servidos de candidatos? Não sei. A candidata ficou presa nos porões da ditadura e parece ter um olhar mais sincero e humano em relação ao enorme contingente de brasileiros que são torturados impiedosamente por paupérrimas condições de existência.

Quanto ao candidato, a impressão é diferente. Acho que ele jamais voltou. Assume mandatos e não os cumpre até o final, defende veementemente uma educação que distancia a população mais pobre das FATECs e USPs e que tem criado legiões de semianalfabetos.  

Em seu eterno exílio, fica cercado por pilhas de papéis e assessores e não sai às ruas, e não dialoga com os estudantes (já foi líder estudantil), e não recebe os professores (já foi professor) para melhorar as condições de trabalho (plano de carreira, salários) e jamais dá a cara a tapa.

Ultimamente, o assunto censura ganhou os noticiários, o horário político, os debates televisivos, as capas das revistas, os jornais impressos – mas sempre fica no ar a pergunta: os grupos de comunicação (os que monopolizam a opinião pública) conseguem ser isentos? São capazes de manter a imparcialidade?

Ponto de vista todos nós temos (se lúcidos ou não, já é outra questão), cada instituição, cada eleitor deve apoiar aquilo que crê; lutar por algo que esteja próximo dos seus princípios, próximo da ética da divisão e não da multiplicação da riqueza nas mãos de poucos.

E por falar em crer (ao som de O guarani, de Carlos Gomes), faço a seguinte pergunta aos jornalões e grandes grupos de comunicação: o que Balzac escreveu, em seu livro Ilusões perdidas, é verdade ou não passa de ficção?

Se for apenas ficção, é um folhetim barato – porém, se for verdade, é melhor que os grupos de comunicação assumam de vez a condição de filiais de partidos políticos. E por falar em políticos, parece que uma (boa) parte deles tem concessões de rádio e televisão. Não é uma beleza?  

Dia 31 de outubro de 2010, o Brasil vai às urnas para escolher presidente, ministros e uma porção generosa de assessores para diminuir a distância entre as crianças e a escola, melhorar a saúde (pagar bem os médicos e equipar os hospitais – quando pobre fica doente, cai nestas ratoeiras chamadas de hospitais e os políticos frequentam os centros de saúde da zona sul de São Paulo), retirar os pedágios, diminuir os impostos e quem sabe fazer da vergonha na cara a principal plataforma de governo.

Ao som de O guarani, de Carlos Gomes, separo meu título de eleitor, e de cabeça erguida vou escolher, sim (sem covardia) um(a) candidato(a) para aplaudi-lo(a) ou cobrá-lo(a) até o último dia do seu mandato.  

É chegada a hora e a vez do Brasil.

Até a próxima, Henfil,

Jornalirista

 

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