A ilusão que preciso

“Tu és poeta. Fantasias… Vê demais”,
Lima Barreto, em “Dentes Negros e Cabelos Azuis”

Já corri muito atrás de saci. De rabo de sereia também. Já procurei mulher para casar em lugares pouco prováveis, em casas mal-afamadas, e confesso que até muitas encontrei.
Já me peguei com o braço em riste, socando o ar à camisa 10, comemorando o gol do título da seleção na final da Copa, gol anotado por mim numa bicicleta à Diamante, quando tudo parecia perdido. Fui alçado ao ar, carregado nos braços pelos companheiros, ovacionado em uníssono pelas arquibancadas festivas, reconhecido e idolatrado nas ruas agradecidas. Juro. E já faz seis meses que não toco em bola, embora jogue três vezes ao dia.
Já ouvi palavras inauditas de boca venturosa, carnuda e tinta que louvava como linda paisagem os becos escuros que encontro em mim, a calva acentuada, o nariz torto e às vezes triste, uma certa tendência à melancolia. Juro que ouvi.
Já vi muito bicho virar gente, muita gente virar bicho – sob a lona colorida que estendo por onde passo, picadeiro itinerante do meu passo.
Já vi moinho de vento também, alguns. Mas não vi gigante nenhum ali, não. Entretanto entendo quem o viu, quem o quis ver. Tem coisa que a gente procura enxergar.
Sempre precisei do brilho de estrelas extintas. Precisei.
Hoje?
Hoje ando de cabeça direita no asfalto falho e irregular, nas calçadas esboroadas, até no asfalto mais liso, para não correr o risco. Nefelibata, era bom o céu, o tropeço e, às vezes, a queda também. Cá estão as cicatrizes que não deixam mentir. Variadas. Sortidas.
Não sou mais um sonhador, sou?
Ah, o chão. Ele é bom, faz a gente mais realista, mais ponderada, equilibrada. Mas ele cansa também. Quem já morou em comprida planície sabe o que é não ter vale ou elevação para se demorar.
Já muito ouvi que não é bom viver de ilusão, mas também não é bom viver sem ilusão. Não quero só documentário, cronologia, ordem alfabética; quero também ficção, paixão, o heroísmo mais brega e barato. Impressão pessoal, o meio depois do fim.
Iludir-se é bom. Sonhar de olhos bem abertinhos que se poderá mudar o mundo e perseverar por isso todos os dias. Que se vai ter 19 filhos com 23 mulheres diferentes e povoar a terra de Deus, aleluia!
Na rua, à minha janela, anuncia o vendedor: “Olha a ilusão quentinha, fresquinha, vai querer? Tem ilusão de todo tipo, de amor, de mulher bonita, de mulher feia também, de dinheiro, de felicidade. E custa nada, não, é de coração”. Vinham algumas em caixinhas coloridas e transparentes, acrílicas; outras flutuavam em balões. Pedi uma de cada, ilusão não é demais.
Preciso imaginar o que não vejo. Preciso criar motivos para seguir. Que vou construir com você um palácio de dois quartos para viver. Preciso acreditar que não acaba, que não vai morrer. A ilusão que eu preciso, a ilusão que motiva, que faz mover.
Na poça de água imunda bóia a lua munda. O lunático do chão.

Um comentário para “A ilusão que preciso”

  1. Juvenal

    A ilusão que (eu também) preciso
    Havia, em tempos remotos, tão remotos que eu nem tinha nascido ainda, um filme americano aqui intitulado "De ilusão também se vive". Pois é, amigo, tô precisando voltar a acreditar nisso.

Comentário