A lagartixa

 

Há meses eu vinha observando aquela lagartixa. Sempre que eu entrava no banheiro de casa, lá estava ela, me encarando desafiadora e escancaradamente. Já não sabia se era eu o observador ou se a observadora era ela.

Na primeira vez que a vi, levei um baita de um susto e pensei: “Porra, depois de sete anos sem beber, agora é que vou começar a ver jacarés andando pelas paredes!”. Depois de um pouco de água fria no rosto e uma sacudidela na cabeça, percebi que não se tratava de uma visão e sim de uma enorme lagartixa que, feito posseira, se instalara no meu banheiro.

Os dias foram passando e, vez por outra, eu me deparava com aquele bicho pré-histórico deslizando pelas paredes. Por vezes me assustei ao entrar no banheiro: abria a porta, acendia a luz e, de repente, aquele enorme “jacaré” corria e se escondia atrás do armarinho das escovas e pastas de dente, esparadrapos, mercuriocromo etc.

Uma vez consegui, com uma vassoura, colocá-la para fora da casa, através do vitrô. Mas, para minha surpresa, no dia seguinte, lá estava ela de novo, correndo e abanando aquele rabo descomunal. Além disso, havia ainda as cagadas homéricas que ela cometia nas paredes brancas do banheiro. Vira e mexe, eu tinha de limpar aquela sujeira e, não raro, sob as vistas do “crocodilo nanico”. Eu acho mesmo que ela se julgava dona do pedaço e com direitos adquiridos.

Um amigo, quando lhe contei sobre a minha inquilina, me disse que lagartixa é bom para livrar a casa de mosquitos, aranhas e outros bichinhos. Mas que se dane a teoria do equilíbrio ecológico, aquele “dinossaurozinho”, na verdade, já estava incomodando e me tirando do sério. Definitivamente, era preciso fazer alguma coisa…

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O banheiro, de certa forma, é um lugar sagrado e que exige privacidade. Afinal, é ali que o ser humano realmente se desnuda e faz coisas que não teria coragem de nem sequer confessar ao melhor dos seus amigos, quanto mais fazê-las na frente de alguém.

Imagine-se cagando ou mesmo tomando um banho ou limpando o nariz com alguém observando cada gesto seu. É terrível. E era, mais ou menos, isso que me irritava naquela lagartixa: a sua insistência em me observar sem escrúpulos lá do alto da sua parede… Ou melhor, da minha parede, do meu banheiro, da minha casa…

Pois bem. Certo dia, para piorar a situação, percebi que a tal lagartixa estava para botar um ovo. Dava até para perceber a sua enorme barriga e, na contraluz do vidro do vitrô, até o ovinho era possível enxergar, através daquele corpo asqueroso, branco e transparente.

Aí, também, já era demais, não acha? Pombas! Além do incômodo que aquela criatura já representava, ainda teria de dividir o meu banheiro com outro ser jurássico? Isso realmente era insuportável…

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Resolvi, então, enfrentar o problema. Toda vez que entrava no banheiro e dava de cara com o bicho, eu o espantava com a vassoura, até que ele saía pelo vitrô ou se escondia atrás do armário. Assim, eu acreditava que, com o tempo, aquele inquilino indesejável desistiria de morar ali e procuraria uma outra casa mais tranquila.

Uma vez, com essa perseguição, até consegui que a lagartixa soltasse um pedaço do seu rabo, como se diz que esses bichos fazem quando estão sendo caçados pelos seus predadores. A ciência ensina que, ao fazer isso, esse animalzinho consegue distrair o caçador enquanto foge. O rabo é refeito, com o tempo. Duro seria imaginar que aquele pedaço de rabo também pudesse refazer o resto da lagartixa, não é?

A tática do rabo, afinal, também funcionou comigo. Eu parei de persegui-la e fiquei ali, estático, observando aquele pedaço de rabo de lagartixa se contorcendo e se oferecendo como um banquete para o predador que, no caso, era eu.

Resultado: fiquei enjoado e acabei vomitando, sem controle, no banheiro todo. Quer dizer, além do transtorno diário de me sentir observado, ainda tive de fazer uma faxina geral no banheiro!

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Poucos dias depois dessa façanha, notei algo de errado com a tal lagartixa. De um momento para o outro, estranhamente, ela parecia ter diminuído muito de tamanho. Confabulei comigo mesmo: ora, ela só perdeu um pedaço do rabo, será que isso afetou a sua saúde a ponto de emagrecer e até diminuir de tamanho? Que suma de vez, então.

Para o meu desespero, a minha dúvida não durou muito tempo. No dia seguinte, pude observar não uma, mas duas lagartixas passeando pelo banheiro. Uma grandona e já velha conhecida e a outra pequenina. Só então lembrei que a minha inquilina estava mesmo para procriar.

Vi ali, naquele banheiro simples e, de vez em quando, fedido, o milagre da preservação da espécie. A natureza, inexorável, mostrava a sua força e se renovava diante dos meus olhos. Mãe e filha, ou filho, caminhavam garbosamente pelas paredes. Até imaginei um diálogo entre os dois seres pré-históricos:

─ Olha, filhinha! Isso aqui um dia será tudo seu. Mas tome cuidado com aquele sujeito ali que está nos observando. Ele é um cruel inimigo da nossa raça. Já me perseguiu muitas vezes e, com certeza, também vai persegui-la. Por isso, fique sempre atenta e nunca dê moleza.

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Como é bonita, a natureza! Por um momento, fiquei filosofando sobre a magia da procriação, da evolução e da preservação das espécies. É, foi assim que o homem chegou até o estágio em que se encontra. Foi assim que todos os seres vivos atingiram os tempos atuais. Alguns foram sacrificados para que outros pudessem legar ao futuro os seus conhecimentos e as suas características.

Hoje, de certa forma, somos seres mais evoluídos e mais resistentes às agruras da vida neste planeta. O longo processo de evolução respalda a nossa atual existência.

E, pensando assim, de repente me dei conta de que, mesmo com essa história de evolução e preservação, era inadmissível que duas espécies tão diferentes, como a que eu representava e a representada pelas lagartixas, pudessem conviver pacificamente num mesmo banheiro.

Peguei a minha vassoura e, implacável e evolutivo, parti mais uma vez para a captura e aniquilamento dos indesejáveis seres pré-históricos que insistiam em se apossar do meu banheiro. Veja só, justo do meu banheiro!

 

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