A magia de um tapete qualquer

Confesso que, em época de horário político, pensei até em mudar de assunto, mas o desgaste do tema educação cabe muito mais para quem busca notoriedade, poder e dinheiro fácil do que para quem realiza um trabalho sério nas escolas do país. 

Enquanto grande parte da imprensa (de São Paulo) está preocupada com o trânsito e a quantidade de carros produzidos pela indústria automobilística, os professores tentam diminuir os números do analfabetismo.

Lamento ter que decepcionar os noticiários e uma porção de gente que se diz defensora ferrenha dos moradores das periferias. Lamento causar incômodo aos devoradores de sangue e carne humana com uma história sem tiros, palavras de ordem e heróis fabricados pela mídia.

Vou tratar, aqui, de gente que vive à margem da sociedade e completamente apartada dos holofotes, do sensacionalismo indigesto e do glamour das capas de revista. Segundo o teólogo Leonardo Boff: “O professor é uma espécie de missionário que leciona em um bairro pobre pela manhã, à tarde num bairro de classe média alta e à noite num bairro de pessoas ricas. Só o professor é capaz de ligar as classes sociais”.

Sendo assim, só resta contar a história de uma pequena aluna que cursava o quinto ano em uma EMEF (Escola de Ensino Fundamental) localizada em um bairro da periferia da cidade de São Paulo.

Transcorria o ano de 2004 e mais uma greve de professores estava em andamento por causa de problemas que se arrastam desde a época do Império: salários indignos e completa desvalorização da carreira docente.

Alguns professores optaram pela completa paralisação e um deles – que acabara de ingressar no serviço público – preferiu continuar com suas aulas. Embora trabalhasse com alunos do quinto ano (que deveriam estar alfabetizados), a verdade é que alguns não sabiam ler.

A greve diminuiu o número de alunos (uma classe de escola pública em São Paulo é formada com quarenta alunos) e essa redução foi positiva, porque o professor pôde dar atenção individual aos estudantes com maior dificuldade.

Com a cabeça repleta de dúvidas, o professor pediu a orientação de professores do primeiro ao quarto ano a fim de recuperar o tempo perdido. Iniciou o trabalho com livros de imagens e com um material chamado de letras móveis (material pedagógico com imagens de objetos, pessoas, animais e espaços para serem preenchidos com letras e sílabas), que foi prontamente aceito pelos alunos.

A pequena aluna, que até então desenhava o mundo (não aquele em que vivia, mas aquele em que desejava viver) com seus lápis e canetinhas coloridas, demonstrava apreço pelas pequenas descobertas, pela aventura de acelerar com grafite nas curvas fechadas das letras.

Aos poucos, o papel em branco passou a ser domínio seu e as letras desconhecidas, um desafio a superar, um pergaminho a decifrar, um mistério que deveria ter um significado especial, porque muitos conheciam o segredo para decifrá-lo, mas ela ainda não.

Os livros traziam imagens de cavalos, homens, pássaros e até de tapetes voadores, mas nenhum deles (professor e alunos) sabia determinar quem seria o primeiro a arriscar uma leitura em voz alta, ou o primeiro vôo solo.

Em uma tarde (que já vai longe), a menina se arriscou e soletrou, com a ajuda do professor: “TA – PE – TE”. Em seguida, o professor perguntou o que era um tapete. Seus olhos pronunciaram uma resposta lacrimejante, antes de os lábios esboçarem a reação: “Minha mãe usa no chão de casa!”.

E é assim que a escola é feita – da magia de um tapete qualquer.

3 comentários para “A magia de um tapete qualquer”

  1. Serginho Poeta

    Serginho Poeta

    Nem só de heróis
    Parabèns, Professor Silvio! Também acho que a mídia esquece das pessoas simples, daquelas que querem uma vida à parte da violência e dos holofotes da arte. Essas, mais do que todas, precisam ser mostradas.

  2. Jótah

    Tapetes voadores
    Ainda sobrevivem aqueles que sonham sonhos de mil e uma noites, que não só esperam, mas trabalham, para um dia poder olhar o céu do Brasil e ver tapetes mágicos voando por todos os cantos e encantos desse país. Parabéns Silvio, eterno poeta que também já vôou em seus tapetes e agora faz voar.
    Jótah

  3. fabiana freitas pires

    parabens!!!!!!!!
    professor silvio
    é com muita alegria que lhe escrevo esse
    humilde comentario…
    parabens o senhor é de fato uns dos melhores escritores que existe,infelizmente a situaçao das escolas publicas é essa "feita por um tapete qualquer".
    muitos alunos querem estudar ,outros vao para a escola apenas para passar o tempo.
    mais vez parabens pele texto continue sempre assim e que DEUS te ilumine muiitoooooo!!!!!!
    bjs…

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